SUS ainda não distribui canetas emagrecedoras, mas quebra de patente abre caminho

Milhões de brasileiros com obesidade enfrentam fila de anos para cirurgia bariátrica, única opção disponível no SUS atualmente.
A situação atual está muito ruim, mas agora é a oportunidade
Endocrinologista expressa esperança de que a queda de preços finalmente permita incorporação de medicamentos ao SUS.
Mark

Por que o SUS demorou tanto para considerar esses medicamentos, se eles já existem há anos?

Mimi

O custo era o muro. Quando a semaglutida ainda tinha patente, o preço era proibitivo — mais de R$ 1,4 mil por mês. Para um sistema público que atende 215 milhões de pessoas, incorporar isso significaria gastar bilhões. O SUS fez as contas e disse não.

Mark

E agora muda porque o medicamento ficou mais barato?

Mimi

Exatamente. Com a patente expirada, empresas brasileiras começaram a fabricar versões genéricas. O preço caiu para R$ 330. De repente, a conta ficou menos assustadora. Mas ainda há cautela — a proposta inicial é bem restrita.

Mark

Restrita como?

Mimi

Pacientes acima de 45 anos, sem diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto. Não é para qualquer pessoa com excesso de peso. É para quem tem risco cardiovascular muito alto.

Mark

Isso não deixa a maioria das pessoas de fora?

Mimi

Deixa. Mas os especialistas veem isso como um começo. Se funcionar bem nesse grupo, a tendência é expandir. E há 250 pacientes em um estudo piloto recebendo o medicamento gratuitamente agora.

Mark

Quanto tempo até uma decisão final?

Mimi

A comissão tem até 180 dias para avaliar. Se aprovar, ainda há um processo de licitação. Não é rápido, mas é movimento.

Mark

E se não aprovar?

Mimi

Volta à estaca zero. Mas os especialistas estão otimistas. A situação da obesidade no país é crítica — cresceu de 11,8% para 25,7% em duas décadas. Algo precisa mudar.

  • A obesidade cresceu mais de 100% no Brasil em menos de vinte anos, mas o SUS permanece sem nenhum medicamento aprovado para tratá-la — uma lacuna que condena pacientes a filas de anos por cirurgia bariátrica.
  • Pedidos anteriores de incorporação da semaglutida e da liraglutida foram rejeitados pela Conitec em 2025 por impacto orçamentário superior a R$ 8 bilhões, tornando o custo o principal obstáculo à política pública.
  • A queda da patente da Novo Nordisk em março de 2026 transformou o cenário: versões genéricas chegaram ao mercado, a Anvisa aprovou seis novos medicamentos nacionais e os preços despencaram mais de 75%.
  • Uma nova proposta, mais restrita — voltada a pacientes acima de 45 anos com obesidade grave e risco cardiovascular comprovado —, está em análise e pode representar o primeiro passo concreto de incorporação ao SUS.
  • Especialistas celebram a oportunidade com cautela, lembrando que a semaglutida reduz em 20% eventos cardiovasculares graves e que o tratamento da obesidade exige suporte multiprofissional contínuo, não apenas medicação.

No Brasil, onde a obesidade mais que dobrou em duas décadas e afeta mais de um quarto dos adultos, o Sistema Único de Saúde nunca ofereceu medicamentos para tratá-la — deixando cirurgias com longas filas de espera como única alternativa pública. A expiração da patente da semaglutida, que derrubou seu preço de R$ 1,4 mil para cerca de R$ 330, reabriu uma porta antes fechada pelo peso orçamentário, e o país agora aguarda uma decisão que pode redefinir o acesso ao tratamento para milhões de pessoas.

O SUS nunca ofereceu medicamentos para tratar obesidade. Enquanto a doença avança — afetando 25,7% dos adultos brasileiros em 2024, ante 11,8% em 2006 —, quem busca ajuda na rede pública encontra apenas a cirurgia bariátrica, com filas que se estendem por anos.

Essa realidade começou a mudar em março de 2026, quando expirou a patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy. Com o fim da exclusividade da Novo Nordisk, laboratórios brasileiros passaram a fabricar versões genéricas, derrubando o preço de cerca de R$ 1,4 mil para aproximadamente R$ 330. A Anvisa recebeu 18 pedidos de registro e já aprovou seis novos medicamentos nacionais, entre eles a Ozivy, primeira caneta emagrecedora brasileira com semaglutida.

O caminho até aqui foi longo. No ano passado, a Conitec rejeitou pedidos de incorporação tanto da liraglutida quanto da semaglutida ao SUS: o impacto orçamentário ultrapassaria R$ 8 bilhões. A queda de patentes alterou esse cálculo, e o Ministério da Saúde reconhece que os preços em queda são fator determinante para uma possível incorporação.

Uma nova proposta já está em análise — desta vez mais restrita, voltada a pacientes acima de 45 anos, sem diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto. A justificativa é concentrar o benefício em quem apresenta maior risco clínico. Um estudo com semaglutida demonstrou redução de 20% em mortes cardiovasculares, infartos e AVCs nesse perfil de paciente. A Conitec tem até 180 dias para decidir.

Especialistas ouvidos sobre o tema são otimistas, mas ponderados. A endocrinologista Maria Edna de Melo, do Hospital das Clínicas da USP, afirma que a quebra de patente representa uma oportunidade real diante de uma situação que considera muito ruim. Paulo Miranda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, lembra que os benefícios vão além do emagrecimento: a semaglutida também reduz a progressão de doença renal e eventos cardiovasculares. Ambos ressaltam, porém, que a obesidade é doença crônica e exige acompanhamento multiprofissional contínuo — a medicação é ferramenta, não solução isolada.

O Sistema Único de Saúde não oferece qualquer medicamento para tratar obesidade. Enquanto a doença avança no país — afetando 25,7% dos adultos brasileiros em 2024, ante 11,8% em 2006 — os pacientes que buscam ajuda na rede pública encontram uma única porta: a cirurgia bariátrica, procedimento para o qual enfrentam filas que se estendem por anos.

Essa realidade começou a mudar em março deste ano, quando a patente da semaglutida expirou. O medicamento, conhecido por marcas como Ozempic e Wegovy, tornou-se o símbolo de uma revolução no tratamento da obesidade nos últimos anos. Com o fim da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, empresas brasileiras ganharam permissão para fabricar suas próprias versões — e os preços caíram drasticamente. Onde o medicamento custava cerca de R$ 1,4 mil, passou a ser encontrado por aproximadamente R$ 330 em versões genéricas.

O Ministério da Saúde reconhece a importância do tema. Em nota, afirma que a incorporação de medicamentos emagrecedores tem sido prioridade nos últimos meses. Mas o caminho até aqui foi repleto de obstáculos. No ano passado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS avaliou pedidos para incluir tanto a liraglutida quanto a semaglutida na rede pública. Ambos foram rejeitados. O motivo: o impacto orçamentário seria superior a R$ 8 bilhões — um custo considerado proibitivo.

A queda de patentes alterou esse cálculo. A Anvisa recebeu 18 pedidos de registro para novos medicamentos à base de semaglutida. Em junho, chegou ao mercado a Ozivy, primeira caneta emagrecedora brasileira com esse princípio ativo, produzida pelo laboratório EMS. No final de julho, a agência aprovou cinco novos medicamentos: Zempneo, Semavy, Orsema, Seemasun e Owozy. Com a concorrência crescente, os preços devem continuar caindo — fator que o Ministério da Saúde identifica como determinante para uma possível incorporação ao SUS.

Uma nova proposta já está em análise. Diferentemente do pedido anterior, que visava um público amplo, essa é mais restrita: pacientes acima de 45 anos, sem diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto. A empresa que apresentou a proposta justifica a restrição como forma de focar em quem teria maior risco clínico e maior impacto potencial para o sistema. Um estudo com semaglutida mostrou redução de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto e acidente vascular cerebral em pacientes com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, mas com doença cardiovascular estabelecida. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias tem até 180 dias para avaliar e responder.

Especialistas ouvidos sobre o tema mostram otimismo cauteloso. Maria Edna de Melo, endocrinologista do Hospital das Clínicas da USP, afirma que a quebra de patente representa uma oportunidade real. "A situação atual está muito ruim", diz ela, referindo-se à falta de opções farmacológicas no SUS. Mesmo que a aprovação inicial seja restrita a um perfil específico de paciente, representa um passo fundamental. Paulo Miranda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca que esses medicamentos trazem benefícios além da perda de peso: reduzem a progressão de doença renal e diminuem eventos cardiovasculares.

Os especialistas, porém, ressaltam que medicação não é solução completa. A obesidade, como diabetes, é doença crônica que exige planejamento a longo prazo e atenção multiprofissional — acompanhamento nutricional, orientações sobre atividades físicas, suporte contínuo. Ainda assim, a possibilidade de incorporação ao SUS representa mais que uma mudança de política pública. Significa reconhecer que milhões de brasileiros que hoje esperam anos por uma cirurgia poderiam ter acesso a uma ferramenta adicional, comprovada, para recuperar a saúde.

Com a quebra de patente da semaglutida e a queda drástica de preço, estou otimista. Espero que agora aprovem o uso de medicamentos contra a obesidade no SUS
— Maria Edna de Melo, endocrinologista do Hospital das Clínicas da USP
Esses medicamentos trazem benefícios adicionais, como redução da progressão da doença renal e redução de eventos cardiovasculares. É importante ampliar cada vez mais o acesso
— Paulo Miranda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
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