Maricarmen Abascal, 87 anos, morreu em Madri carregando consigo 71 anos de memória em um apartamento do qual foi expulsa em 30 minutos — vítima não apenas de um despejo, mas de uma lógica de mercado que transformou o lar em ativo financeiro. Seu caso iluminou, com crueldade rara, a crise habitacional que sufoca as grandes cidades espanholas e a incapacidade das instituições de proteger os mais vulneráveis. A morte de uma idosa em uma maca tornou-se o rosto humano de uma disputa que é, no fundo, sobre quem tem direito de pertencer à cidade.
Morre aos 87 anos idosa símbolo da luta contra crise habitacional na Espanha
Retirada em 30 minutos, internada desde o despejo, morreu sem voltar para casa
Por que o caso de Maricarmen se tornou tão importante? Havia outros despejos acontecendo na Espanha.
Sim, mas a brutalidade foi visível. Uma mulher de 87 anos, 71 anos no mesmo apartamento, retirada em 30 minutos enquanto centenas protestavam. E o motivo era puro: um fundo de investimento triplicando o aluguel. Não havia ambiguidade moral.
Mas precisamos ser precisos: o fundo de investimento tinha direito legal de fazer isso? Ou a lei espanhola permitia isso?
A lei permitia. Não havia proteção suficiente para inquilinos de longa duração naquela situação. Esse é exatamente o ponto que os sindicatos e o governo tentaram mudar.
E as medidas que Sánchez apresentou — teriam protegido Maricarmen se tivessem passado?
Sim. A suspensão de despejos de vulneráveis até 2030 a teria coberto. Também havia a restrição a fundos de investimento comprando residências.
Mas passaram? Não. Então estamos falando de uma morte que poderia ter sido evitada por legislação que foi rejeitada.
Os números dos protestos — 70 mil versus 500 mil — isso importa?
Importa para entender a escala, mas ambos os números indicam mobilização massiva. A discrepância entre governo e organizadores é típica, não invalida o ponto.
O que importa é que as pessoas saíram às ruas porque viram Maricarmen e reconheceram a si mesmas nela. Ou reconheceram alguém que amam.
Então sua morte muda algo agora?
Muda o tom. Agora não é abstrato. É uma mulher que morreu internada porque foi despejada. Os sindicatos convocaram greve geral. Há eleições em novembro. A pressão aumentou.
Le Pouls
- Um fundo de investimento triplicou o aluguel de Maricarmen — de 500 para 1.650 euros — e, diante da recusa em assinar novo contrato, a retirou à força em setembro, dando-lhe apenas 30 minutos para deixar o lar de sete décadas.
- A cena da idosa sendo carregada em uma maca, cercada por centenas de manifestantes, circulou pelo país e acendeu uma indignação que já estava represada por anos de aluguéis em alta e escassez de moradia acessível.
- O governo Sánchez apresentou medidas emergenciais ao Congresso — suspensão de despejos, renovação de contratos, restrições a fundos imobiliários —, mas ambos os decretos foram rejeitados pela oposição, aprofundando a crise política.
- Dezenas de milhares foram às ruas em toda a Espanha no fim de semana seguinte; em Madri, os organizadores estimaram 500 mil pessoas exigindo proteção real para inquilinos.
- Com a morte de Maricarmen, os sindicatos convocaram greve geral para 11 de novembro, a menos de três semanas de eleições antecipadas, tornando a moradia o centro do debate político nacional.
Maricarmen Abascal, 87 anos, morreu em Madri carregando consigo 71 anos de memória em um apartamento do qual foi expulsa em 30 minutos — vítima não apenas de um despejo, mas de uma lógica de mercado que transformou o lar em ativo financeiro. Seu caso iluminou, com crueldade rara, a crise habitacional que sufoca as grandes cidades espanholas e a incapacidade das instituições de proteger os mais vulneráveis. A morte de uma idosa em uma maca tornou-se o rosto humano de uma disputa que é, no fundo, sobre quem tem direito de pertencer à cidade.
Maricarmen Abascal morreu na quarta-feira, 7 de outubro, aos 87 anos, internada no Hospital Gregorio Marañón em Madri. Ela estava naquele leito desde 23 de setembro — o dia em que foi retirada à força do apartamento onde havia vivido por 71 anos, no bairro de Retiro. Nos meses anteriores, sua saúde havia se deteriorado: perda de massa muscular, dificuldade para se alimentar, dependência da cadeira de rodas.
O que a transformou em símbolo foi a sequência de eventos que precedeu o despejo. Um fundo de investimento adquiriu o imóvel e tentou elevar o aluguel de 500 para 1.650 euros mensais. Ela recebeu 30 minutos para sair com o essencial. Havia um pedido judicial pendente e até uma oferta anônima para cobrir os pagamentos atrasados, mas o proprietário recusou assinar qualquer novo contrato. A imagem da idosa sendo carregada em uma maca, cercada por assistentes sociais e centenas de manifestantes, percorreu o país e tocou um nervo exposto.
O caso não era isolado. Os preços de imóveis subiram 12,2% no segundo trimestre de 2026 em relação ao ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística. A gentrificação e a escassez de moradia acessível já haviam transformado o acesso à habitação em questão política central na Espanha.
O primeiro-ministro Pedro Sánchez respondeu com medidas emergenciais: suspender despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, prorrogar contratos, taxar apartamentos turísticos e restringir fundos imobiliários. O Congresso rejeitou ambos os decretos — o primeiro por 178 votos a 172, o segundo por 184 a 166. No fim de semana seguinte, dezenas de milhares foram às ruas; em Madri, os organizadores estimaram 500 mil pessoas.
Com a morte de Maricarmen, os sindicatos a invocam na convocação para uma greve geral em 11 de novembro, a menos de três semanas de eleições antecipadas. Seu nome ficou ligado não apenas ao seu próprio sofrimento, mas à pergunta que seu caso expôs e que permanece sem resposta: quem tem direito à moradia em uma cidade que se tornou mercadoria?
Maricarmen Abascal morreu na quarta-feira, 7 de outubro, aos 87 anos, internada no Hospital Gregorio Marañón em Madri. Ela estava naquele leito desde 23 de setembro, o dia em que foi retirada à força do apartamento onde havia vivido durante 71 anos. O Sindicato de Inquilinos da Espanha e sua família confirmaram o falecimento. A causa não foi divulgada, mas nos meses anteriores seu estado de saúde havia se deteriorado significativamente — perda de massa muscular, dificuldade para se alimentar sozinha, dependência da cadeira de rodas.
O que transformou Maricarmen em símbolo nacional foi a brutalidade da retirada e o que a precedeu. Um fundo de investimento havia adquirido o imóvel no bairro de Retiro e tentou elevar o aluguel de aproximadamente 500 euros para 1.650 euros por mês. Ela recebeu 30 minutos para sair, levando apenas o essencial. Havia um pedido judicial pendente e até uma oferta anônima para cobrir os pagamentos, mas o proprietário recusou assinar um novo contrato. A cena de seu despejo — a idosa sendo carregada em uma maca até uma ambulância, cercada por assistentes sociais e centenas de pessoas protestando — circulou amplamente e tocou um nervo exposto na Espanha.
O sindicato, em comunicado, chamou Abascal de exemplo de luta e afirmou que sua história representa um antes e depois na história do país. Sua morte reacendeu imediatamente a mobilização. Os principais sindicatos espanhóis convocaram uma greve geral para 11 de novembro, menos de três semanas antes de eleições antecipadas, com foco em melhores salários e moradia digna.
O caso de Maricarmen não era isolado, mas a ponta visível de uma crise habitacional que sufoca as grandes cidades espanholas. Os preços de compra de imóveis subiram 12,2% no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Imóveis usados ficaram 12,9% mais caros; os novos, 7,4%. A gentrificação e a escassez de moradias acessíveis transformaram o acesso à habitação em questão política central.
Seu despejo provocou uma reação em cascata. O primeiro-ministro Pedro Sánchez apresentou medidas emergenciais ao Congresso: suspender despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, prorrogar contratos com vencimento antes de 2028, elevar impostos sobre apartamentos turísticos e restringir a compra de residências por fundos de investimento. O primeiro decreto foi rejeitado por 178 votos a 172. Um segundo, prevendo renovação automática de contratos, recebeu 184 votos contra e 166 a favor.
No sábado seguinte à derrota parlamentar, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em toda a Espanha. Em Madri, o governo estimou 70 mil participantes; os organizadores, 500 mil. Os manifestantes exigiam redução de aluguéis e proteção contra despejos. A manifestação já estava marcada, mas a rejeição das medidas do governo acrescentou urgência e raiva ao protesto.
Agora, com a morte de Maricarmen, seu nome permanece ligado não apenas ao seu próprio sofrimento, mas ao fracasso das instituições em proteger os mais vulneráveis. Os sindicatos a invocam na convocação para a greve de novembro. O governo enfrenta pressão renovada. E a questão que seu caso expôs — quem tem direito à moradia em uma cidade que se tornou mercadoria — segue sem resposta.
Citations marquantes
Lamentamos informar que no dia de hoje faleceu Maricarmen— Sindicato de Inquilinos da Espanha
Representam um antes e depois na história deste país— Sindicato de Inquilinos da Espanha, sobre o exemplo de luta de Maricarmen