Por mais de quatro séculos, a Virgínia carregou o peso de ser o estado que mais executou pessoas na história dos Estados Unidos — uma trajetória que começou com um fuzilamento em Jamestown em 1608 e atravessou gerações marcadas por profundas desigualdades raciais. Em fevereiro de 2021, a legislatura estadual votou pelo fim dessa prática, tornando a Virgínia o primeiro estado do Sul a abolir a pena de morte. A decisão não é apenas política: é o reflexo de uma sociedade que, lentamente, confronta os custos humanos e morais de um sistema que condenou inocentes e puniu de forma desproporcional os
Virgínia, estado com mais execuções da história dos EUA, abolirá pena de morte
O estado que mais executou decidiu que a morte é desnecessária
Por que a Virgínia, de todos os estados, é tão significativa nessa decisão?
Porque é o estado que mais executou pessoas em toda a história americana — 1.390 pessoas em 413 anos. Se o lugar que mais matou decide parar, isso muda a conversa nacional.
Mas é importante notar que a Virgínia não impõe novas sentenças desde 2011. Então essa abolição é mais um reconhecimento de uma tendência que já estava acontecendo do que uma mudança radical no que o estado estava fazendo.
Qual é o papel das disparidades raciais nessa história?
É central. Durante séculos, a pena de morte na Virgínia foi aplicada de forma desproporcionalmente contra pessoas negras. Desde 1976, 296 negros foram executados por matar vítimas brancas, contra apenas 21 brancos pela morte de vítimas negras.
Esses números são chocantes, mas precisamos ser claros: eles refletem tanto disparidades na aplicação da pena quanto disparidades mais amplas no sistema de justiça criminal. A abolição é importante, mas não resolve os problemas anteriores.
E quanto aos inocentes? Quantos foram executados injustamente?
Desde 1973, mais de 170 condenados à morte foram inocentados antes da execução. O caso de Earl Washington é emblemático — um homem com deficiência intelectual que confessou um crime que não cometeu sob coação da polícia.
O ponto importante é que Washington é apenas um que foi provado inocente. Há suspeita de que muitos outros possam ter sido executados antes que sua inocência fosse descoberta. Não sabemos o número real.
Isso pode influenciar outros estados?
Sim. A Virgínia é o primeiro estado do Sul a abolir a pena de morte. Outros ex-estados confederados podem seguir, especialmente porque a opinião pública está mudando — 60% dos americanos agora preferem prisão perpétua.
Mas é importante lembrar que 22 outros estados já aboliram a pena de morte antes da Virgínia. Então essa é uma tendência nacional, não apenas uma mudança na Virgínia.
Il Polso
- Um estado que executou cerca de 1.390 pessoas em 413 anos — mais do que qualquer outro na história americana — votou para encerrar essa prática de uma vez por todas.
- A disparidade racial é gritante: desde 1976, 296 negros foram executados por matar vítimas brancas, enquanto apenas 21 brancos foram executados pela morte de vítimas negras.
- Casos como o de Earl Washington — um homem negro com deficiência intelectual que confessou sob coerção um crime que não cometeu e foi inocentado por DNA apenas em 2000 — expuseram as falhas irreparáveis do sistema.
- A mudança política foi decisiva: com democratas assumindo a maioria na legislatura, o projeto passou com apoio quase unânime do partido, revertendo anos de esforços republicanos para manter as execuções.
- Os dois únicos presos no corredor da morte da Virgínia terão suas sentenças convertidas em prisão perpétua, encerrando um capítulo e possivelmente abrindo caminho para outros estados do Sul seguirem o mesmo rumo.
Por mais de quatro séculos, a Virgínia carregou o peso de ser o estado que mais executou pessoas na história dos Estados Unidos — uma trajetória que começou com um fuzilamento em Jamestown em 1608 e atravessou gerações marcadas por profundas desigualdades raciais. Em fevereiro de 2021, a legislatura estadual votou pelo fim dessa prática, tornando a Virgínia o primeiro estado do Sul a abolir a pena de morte. A decisão não é apenas política: é o reflexo de uma sociedade que, lentamente, confronta os custos humanos e morais de um sistema que condenou inocentes e puniu de forma desproporcional os mais vulneráveis.
A primeira execução registrada no que hoje são os Estados Unidos aconteceu na Virgínia em 1608, quando o capitão George Kendall foi fuzilado em Jamestown, acusado de espionagem. Mais de quatro séculos depois, esse mesmo estado se tornou o primeiro do Sul a abolir a pena de morte — encerrando uma era que custou a vida de aproximadamente 1.390 pessoas.
Em fevereiro de 2021, a Câmara estadual aprovou por 57 votos a 41 um projeto de abolição, dias após o Senado estadual fazer o mesmo. O governador democrata Ralph Northam anunciou que sancionaria a lei em abril, tornando a Virgínia o 23º estado americano a abandonar a prática. A divisão foi quase inteiramente partidária: 17 dos 18 republicanos no Senado votaram contra, enquanto todos os 21 democratas votaram a favor.
A mudança reflete tanto uma transformação política quanto uma reavaliação moral. Pesquisas nacionais mostram queda no apoio à pena de morte há anos, impulsionada pelos custos elevados dos processos, pelo risco de condenações injustas — mais de 170 inocentados desde 1973 — e, sobretudo, pelas profundas desigualdades raciais que marcaram sua aplicação.
Na Virgínia, essas desigualdades são documentadas e chocantes. Desde 1976, negros foram executados por matar vítimas brancas em número 14 vezes maior do que brancos executados pela morte de vítimas negras. Entre 1900 e 1969, nenhum réu branco foi executado por crimes sem morte, enquanto 73 homens negros foram executados por estupro ou roubo.
O caso de Earl Washington sintetiza essa injustiça: homem negro com deficiência intelectual grave, ele confessou sob coerção policial um crime que não cometeu, foi condenado à morte em 1984 e só foi libertado em 2000, após testes de DNA provarem sua inocência. Outro caso emblemático envolveu sete homens negros executados em 1951 em Martinsville, condenados sem advogados e sob ameaça de linchamento por um júri exclusivamente branco.
Com a abolição, os dois únicos presos que ainda aguardavam execução no estado terão suas penas convertidas em prisão perpétua. A decisão da Virgínia — símbolo histórico da pena capital americana — pode sinalizar uma virada para outros estados do Sul, marcando um novo capítulo na justiça criminal do país.
A primeira execução registrada nos territórios que hoje formam os Estados Unidos aconteceu na Virgínia em 1608. Os colonos de Jamestown, o primeiro assentamento inglês permanente na América do Norte, fuzilaram o capitão George Kendall, acusado de espionar para a Espanha. Mais de quatro séculos depois, aquele mesmo estado se tornou o primeiro do Sul a abolir a pena de morte — uma reviravolta histórica que marca o fim de uma era de sangue.
Desde 1608, calcula-se que 1.390 pessoas foram executadas na Virgínia, mais do que em qualquer outro estado americano. Na era moderna da pena capital, que começou em 1976 após uma proibição de quatro anos, o estado executou 113 pessoas, ficando atrás apenas do Texas. Mas em fevereiro de 2021, a Câmara estadual aprovou por 57 votos contra 41 um projeto de lei para acabar com a prática. O Senado estadual havia aprovado proposta idêntica dois dias antes. O governador democrata Ralph Northam anunciou que sancionaria a lei, com a assinatura prevista para abril. Com essa decisão, a Virgínia se tornaria o 23º estado do país a abolir a pena de morte.
A mudança reflete uma transformação política no estado. Até pouco tempo atrás, quando republicanos controlavam a legislatura, o governo se esforçava para manter as execuções vivas — buscando fornecedores alternativos de drogas para injeção letal e até considerando restaurar a cadeira elétrica como método principal. Tudo mudou quando democratas conquistaram a maioria na Câmara e no Senado no ano anterior. Na votação do Senado, 17 dos 18 republicanos votaram contra a abolição, enquanto todos os 21 democratas votaram a favor. Na Câmara, apenas dois republicanos apoiaram a medida.
Mas a decisão também reflete uma mudança genuína na opinião pública. Pesquisas nacionais mostram que o apoio à pena de morte vem caindo há anos. Em 2019, uma pesquisa Gallup revelou que 60% dos americanos preferiam prisão perpétua à execução para casos de assassinato — a primeira vez desde 1985 que a maioria dos entrevistados escolheu punição alternativa. Os motivos são múltiplos: os custos astronômicos de manter prisioneiros no corredor da morte durante décadas, processos judiciais caros e demorados, e uma preocupação crescente com condenações injustas. Desde 1973, mais de 170 condenados à morte foram inocentados antes da execução.
Mas há outro fator que pesa ainda mais: a injustiça racial que permeia a história da pena de morte na Virgínia. Desde 1976, 296 negros foram executados por matar vítimas brancas, enquanto apenas 21 brancos foram executados pela morte de vítimas negras. Um relatório de 2000 da Comissão Legislativa Conjunta de Revisão e Auditoria da Virgínia revelou que quando a vítima era branca, o acusado tinha três vezes mais chance de ser sentenciado à morte. Entre 1900 e 1999, 296 negros e apenas 79 brancos foram executados no estado. No período de 1900 a 1969, nenhum réu branco foi executado por crimes que não resultassem em morte — enquanto 73 homens negros foram executados por estupro ou roubo.
O caso de Earl Washington ilustra essa injustiça. Um homem negro com deficiência intelectual grave, Washington foi acusado do estupro e morte de uma mulher em 1982 e condenado à morte em 1984. Advogados conseguiram suspender sua execução dias antes da data marcada. Investigações posteriores revelaram que sua deficiência o levou a confessar um crime que não havia cometido quando coagido pela polícia. Testes de DNA o inocentaram. Ele só foi libertado em 2000. Outro caso notório envolveu sete homens negros executados em 1951 em Martinsville, acusados de estupro de uma mulher branca. Foram coagidos a confessar sem advogados, sob ameaça de linchamento, condenados rapidamente por um júri composto apenas por homens brancos, apesar da falta de evidências.
A Virgínia não é mais um estado que impõe novas sentenças de morte desde 2011. As últimas execuções estaduais ocorreram em 2017. O corredor da morte tem apenas dois condenados aguardando execução: Anthony Juniper, sentenciado em 2005 pelo assassinato de quatro pessoas, e Thomas A. Porter, condenado em 2007 pela morte de um policial. Com a abolição, ambos receberão prisão perpétua. A decisão da Virgínia — o estado com o maior número de execuções na história americana — pode abrir caminho para que outros estados do Sul sigam o mesmo caminho, marcando um ponto de inflexão na história da justiça criminal americana.
Citazioni salienti
A injustiça racial teve um papel central na implementação da pena de morte na Virgínia durante centenas de anos. Por isso a abolição agora é tão importante, tanto em um nível prático quanto em um nível simbólico.— Ngozi Ndulue, diretora sênior de pesquisas do Death Penalty Information Center
Sabemos que Earl Washington é apenas a ponta do iceberg— Ngozi Ndulue, sobre casos de condenações injustas