Durante quatro décadas, a União Europeia construiu uma das maiores coberturas vacinais infantis da história — mas a pandemia de covid-19 interrompeu essa trajetória, e hoje dezasseis países registam declínios preocupantes. Portugal mantém-se entre os mais protegidos, com cobertura superior a 97%, enquanto outros Estados-membros recuam para territórios de vulnerabilidade coletiva. O que está em causa não é apenas uma estatística de saúde pública, mas a memória institucional de que certas doenças, quando esquecidas, regressam.
Estudo revela recuo preocupante na vacinação infantil na UE desde a pandemia
Dezasseis países em recuo, seis deles em todas as vacinas
O que torna este estudo diferente de outros relatórios sobre vacinação?
A escala temporal. Quarenta anos de dados permitem ver não apenas onde estamos, mas para onde nos movemos. Portugal está bem, mas o padrão europeu é de recuo.
Mas o estudo diz explicitamente que não investigou as causas. Sabemos se é desinformação, perturbações nos serviços, hesitação parental, ou algo completamente diferente?
Não, o estudo não entra nisso. Apenas documenta o facto. A covid-19 é mencionada como contexto possível, mas não há análise causal.
Dezasseis países com quedas — isso é a maioria?
Não é a maioria dos 27, mas é um número significativo. E em seis deles, todas as sete vacinas caíram simultaneamente.
Qual é a magnitude dessas quedas? Uma queda de 1% é diferente de uma queda de 10%.
O estudo não detalha os números específicos de cada país. Apenas indica que houve declínio.
Portugal mantém 97%. Isso é suficiente para imunidade de grupo?
Geralmente, sim. Mas a questão é a tendência. Se Portugal começar a cair como os outros, em quanto tempo perde essa proteção?
E a Roménia, abaixo dos 80% — isso significa que há risco real de surtos?
Teoricamente, sim. Mas o estudo não faz previsões sobre surtos específicos. Apenas alerta para o risco.
O que deveria acontecer agora?
Os investigadores pedem cobertura elevada e sustentável. Mas como alcançá-la quando a confiança está abalada — isso é a pergunta que fica em aberto.
Il Polso
- Dezasseis países da UE viram as suas taxas de vacinação infantil cair em pelo menos quatro das sete vacinas analisadas — em seis deles, todas as sete recuaram simultaneamente.
- A meningite B e a poliomielite lideram os declínios, afetando vinte países, num sinal de que as doenças mais graves não estão imunes ao descrédito pós-pandémico.
- A covid-19 perturbou sistemas de saúde e alimentou desinformação, criando uma janela de vulnerabilidade que os investigadores consideram urgente fechar.
- Portugal e Luxemburgo resistem com coberturas iguais ou superiores a 97%, mas a Roménia permanece abaixo dos 80%, expondo a profunda desigualdade entre Estados-membros.
- Cientistas alertam: sem restaurar coberturas vacinais elevadas e sustentáveis, doenças que pareciam controladas podem ressurgir entre as crianças europeias.
Durante quatro décadas, a União Europeia construiu uma das maiores coberturas vacinais infantis da história — mas a pandemia de covid-19 interrompeu essa trajetória, e hoje dezasseis países registam declínios preocupantes. Portugal mantém-se entre os mais protegidos, com cobertura superior a 97%, enquanto outros Estados-membros recuam para territórios de vulnerabilidade coletiva. O que está em causa não é apenas uma estatística de saúde pública, mas a memória institucional de que certas doenças, quando esquecidas, regressam.
Um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health analisou quarenta anos de dados — de 1980 a 2024 — sobre vacinação infantil nos 27 países da União Europeia, com base em informações da OMS e da UNICEF. O retrato que emerge é dividido: décadas de progresso histórico seguidas de uma inversão de tendência que coincide com o início da pandemia de covid-19.
Portugal e Luxemburgo destacam-se com coberturas vacinais iguais ou superiores a 97% nas sete vacinas analisadas — difteria, tétano, tosse convulsa, hepatite B, meningite B, poliomielite, pneumococo, sarampo e rubéola. No extremo oposto, a Roménia permanece abaixo dos 80%, ilustrando disparidades profundas entre Estados-membros. Em seis países — Bulgária, Chipre, Irlanda, Países Baixos, Roménia e Suécia — todas as sete vacinas registaram declínio.
As quedas mais acentuadas concentram-se na meningite B e na poliomielite, ambas em recuo em vinte países. A hepatite B caiu em dezoito, e a vacina contra difteria-tétano-tosse convulsa em dezassete. Mesmo em França e Itália, onde algumas coberturas subiram, outras três vacinas desceram.
Os autores não se propõem a explicar as causas, mas reconhecem que a pandemia perturbou os sistemas de saúde e alimentou desconfiança e desinformação. O que sublinham com urgência é a necessidade de restaurar coberturas elevadas e sustentáveis — porque nos últimos cinquenta anos a vacinação evitou mais de 154 milhões de mortes em todo o mundo, sobretudo entre crianças, e o ressurgimento de doenças que pareciam controladas não é uma hipótese distante.
A vacinação infantil na União Europeia apresenta um retrato dividido. De um lado, Portugal e Luxemburgo alcançaram em 2024 uma cobertura vacinal de 97% ou superior nas sete vacinas analisadas — difteria, tétano, tosse convulsa, hepatite B, meningite B, poliomielite, pneumococo, sarampo e rubéola. Do outro, a Roménia permanece abaixo dos 80%, revelando disparidades profundas entre os Estados-membros. Mas o dado mais preocupante não está nesta comparação estática: é a tendência que emergiu nos últimos anos.
Um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health analisou quatro décadas de dados sobre vacinação infantil — de 1980 a 2024 — em todos os 27 países da UE, utilizando informações da Organização Mundial da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância. Os investigadores encontraram o que descrevem como um "panorama complexo". Durante cerca de quarenta anos, a União Europeia construiu taxas de vacinação infantil historicamente elevadas contra estas sete doenças, com aumentos substanciais, ainda que desiguais entre países. Mas desde o início da pandemia de covid-19, essa trajetória inverteu-se.
Dezasseis países da UE registaram quedas nas taxas de vacinação para pelo menos quatro das sete vacinas analisadas. Em seis deles — Bulgária, Chipre, Irlanda, Países Baixos, Roménia e Suécia — todas as sete vacinas sofreram declínio. A Alemanha e Espanha viram recuos em cinco das sete. Mesmo em França e Itália, onde a cobertura aumentou para algumas vacinas, diminuiu para outras três. As quedas mais acentuadas concentram-se em duas vacinas: a meningite B e a poliomielite, ambas em declínio em vinte países. A hepatite B caiu em dezoito países, e a difteria-tétano-tosse convulsa em dezassete. O sarampo e a rubéola mostram tendências relativamente menos desfavoráveis.
Os autores do estudo reconhecem que a crise sanitária provocada pela pandemia pode ter contribuído para este cenário, mas deixam claro que a análise não se propôs a explicar as razões subjacentes. O que fazem é insistir na urgência de restaurar e manter coberturas vacinais elevadas e sustentáveis, a fim de evitar o ressurgimento de doenças infecciosas que pareciam controladas. Nos últimos cinquenta anos, a vacinação reduziu o impacto de doenças como tétano, tosse convulsa, pneumonia, sarampo, gripe e difteria, evitando mais de 154 milhões de mortes em todo o mundo, sobretudo entre crianças. A covid-19 perturbou os sistemas de saúde e alimentou desconfiança e desinformação — dois fatores que continuam a pesar sobre a confiança nas vacinas infantis.
Citazioni salienti
Uma deterioração recente, preocupante e generalizada tem-se vindo a delinear nos últimos anos, desde o início da era da covid-19— The Lancet Regional Health (estudo)
Urgência de garantir uma cobertura vacinal elevada e sustentável, a fim de prevenir o ressurgimento de doenças infecciosas— Investigadores do estudo