Reivindicar aval divino para poder político é fanatismo, diz teólogo

Os que julgam possuir Deus matam. Os que são possuídos por ele deixam-se matar.
Contraste final entre o fanatismo que monopoliza a verdade divina e a humildade radical que Jesus exemplificou.
Mark

Por que você insiste que é legítimo religiosos participarem da política se depois diz que reivindicar aval divino para projetos políticos é fanatismo? Não é contraditório?

Mimi

Não. Há uma diferença entre participar da política com convicções morais e religiosas — o que é direito de qualquer cidadão — e pretender que Deus endossa seu projeto específico como único e verdadeiro. Um cristão pode lutar por justiça social porque sua fé a exige. Outro pode discordar sobre como alcançá-la. Ambos têm direito. O fanatismo começa quando um deles diz que Deus está do seu lado e do outro não.

Mark

Mas como você diferencia uma convicção moral genuína de uma reivindicação de aval divino?

Mimi

Pela humildade. Jesus tinha autoridade para falar em nome de Deus e mesmo assim se apresentava como manso e humilde. Não gritava nas ruas. Não impunha. O fundamentalista moderno faz o oposto — ocupa todo o espaço, não deixa margem para a consciência do outro, trata sua interpretação como a única possível.

Mark

Você culpa principalmente a direita cristã, mas não existem fundamentalismos de esquerda também?

Mimi

Existem, claro. Qualquer ideologia que se torna fechada, que monopoliza a verdade, que não admite revisão ou contexto, é fundamentalista. Mas o texto foca na direita porque é ali que vemos a aliança entre poder político, poder econômico e poder religioso — e essa combinação é particularmente perigosa.

Mark

O conceito de tzimtzum parece central para seu argumento. Por quê?

Mimi

Porque inverte a lógica do fundamentalismo. O fundamentalista acredita que quanto mais ele ocupa espaço com sua verdade, mais Deus está presente. Mas tzimtzum diz que Deus se retrai justamente para criar espaço para a liberdade da criatura. Se Deus ocupasse tudo, nada seria livre. Isso é profundamente político.

Mark

E o que você espera que aconteça? Que a direita cristã simplesmente desista de sua agenda?

Mimi

Não. Espero que reconheça seus limites. Que participe da política, sim, mas sem pretender falar em nome de Deus. Que admita que sua interpretação é uma entre muitas. Que deixe espaço para a consciência do outro. Enquanto isso não acontecer, continuaremos vendo religião usada para justificar injustiça.

  • Fundamentalismo cristão originou-se nos panfletos "The Fundamentals" (1910-1915) nos EUA
  • Direita cristã consolidou-se como aliança neoconservadora a partir dos anos 1950, ganhou força nos anos 1970
  • Ronald Reagan eleito em 1980 marcou entrada definitiva da religião no jogo político republicano
  • Conceito de tzimtzum (contração divina) da cabala judaica de Isaac Luria (1534-1572)

Religiosos cristãos têm direito legítimo de participar da arena política, mas não podem monopolizar interpretações bíblicas ou impô-las como única verdade. Fundamentalismo cristão, especialmente na direita política, encerra a verdade revelada em sistemas fechados e ignora que interpretações são construtos históricos contextualizados.

Artigo argumenta que embora seja legítimo religiosos participarem da política, submeter textos sagrados a projetos políticos constitui fanatismo que desvia dos ensinamentos de misericórdia e compaixão.

A questão de se a religião deve ou não se envolver com política é antiga e persistente. Alguns argumentam que os dois domínios devem permanecer separados. Outros, como o arcebispo anglicano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, inverteram essa lógica: afirmar que religião nada tem a ver com política é, em si, uma posição política. O Evangelho, afinal, contém uma teoria política completa — conceitos sobre como o poder deve ser distribuído, qual é a finalidade do Estado, quais direitos cabem aos indivíduos, o que torna uma ordem legítima e justa. Quando Jesus fala do reino de Deus, está descrevendo um modo de ser gente, de organizar o trabalho, de administrar riquezas, de governar uma cidade, de cuidar dos empobrecidos. Por isso é legítimo que cristãos de diferentes orientações ideológicas participem da arena pública, disputem eleições, ocupem cargos, mobilizem-se para aperfeiçoar a legislação. As tradições religiosas acumularam séculos de sabedoria para aportar nos diversos setores da sociedade.

Mas há um limite claro onde a participação legítima se torna fanatismo. Ocorre quando grupos fundamentalistas reivindicam monopólio sobre a verdade revelada, quando submetem os textos sagrados a projetos políticos, quando tentam impor sua interpretação como a única verdade possível. O fundamentalismo cristão tem raízes nos panfletos intitulados "The Fundamentals", publicados nos Estados Unidos entre 1910 e 1915, onde teólogos conservadores defendiam a inerrância da Bíblia e sua interpretação literal. Desde então, o movimento controla a hermenêutica bíblica, tratando o texto como um sistema fechado com apenas uma leitura correta, aplicável literalmente em qualquer lugar e qualquer tempo. Ignora que as interpretações são construtos históricos, afetados pelas culturas e contextos políticos, econômicos e sociais onde são elaboradas. Ignora que a Bíblia não é um texto capaz de falar sozinho — ela própria não caiu do céu, independente da experiência de seus autores.

A atual "direita cristã" consolidou-se a partir de uma aliança neoconservadora entre evangélicos e católicos carismáticos nos Estados Unidos desde os anos 1950, mas ganhou força real a partir dos anos 1970, quando se integrou à direita secular do Partido Republicano. A direita secular trazia militarismo anticomunista, tradicionalismo moral e neoliberalismo econômico. A direita cristã se identificou com esse projeto por razões morais e anticomunistas. Com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e a conquista da maioria no Congresso, a religião entrou definitivamente no jogo político, mobilizando pessoas comuns que "trabalham duro, leem a Bíblia, vão à igreja, obedecem às ordens do governo". O nacionalismo se uniu à religião, e os valores republicanos cederam lugar à ideia de uma Nação Cristã.

Quando o debate público se torna um conflito entre luz e trevas, um campo de batalha onde o adversário precisa ser convertido ou eliminado, Deus permanece distante, com lágrimas nos olhos. Deus não se presta a legitimar agendas que caminham na direção contrária da misericórdia, da compaixão, da solidariedade, da justiça e da paz. É desfigurado quando usado para manter sistemas sociais injustos, para impedir que crianças abusadas abortem, para legitimar o extermínio da população pobre e negra sob o rótulo de segurança pública, para condenar pessoas homoafetivas e trans, para fazer vista grossa a violências domésticas e feminicídios, para encarcerar crianças como potenciais bandidos, para destruir o planeta em nome de um novo céu e uma nova terra.

O maior pecado dos fundamentalistas é pretender ocupar o espaço que pertence à consciência do outro — e pior ainda, pretender ocupar um espaço que pertence somente a Deus. A tradição judaica oferece uma imagem poderosa: o conceito de tzimtzum, formulado por Isaac Luria no século XVI, significa "contração" ou "autolimitação". Para que um universo distinto pudesse existir, Deus realizou uma retirada simbólica de sua presença, criando o espaço onde a criação pode ser livre. Se Deus ocupasse todo o espaço em sua plenitude, nada poderia existir livremente. Essa lógica ecoa na poesia do apóstolo Paulo sobre a kenósis, o esvaziamento de Jesus: "Seja o modo de pensar de vocês o mesmo de Cristo Jesus, que, apesar de ser Deus, não considerou que a sua igualdade com Deus era algo que deveria ser usado como vantagem; antes, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo". O contraste está estabelecido: Deus criador se contrai, se esvazia, autolimita, enquanto a criatura quer se expandir sem limites até que seu ego ocupe todo o espaço.

Jesus foi a única exceção à regra de que reivindicar aval divino para um projeto de poder político temporal equivale ao fanatismo. Falava em nome de Deus, emprestou o nome de Deus para seu projeto utópico do reino de Deus, reivindicou ser filho de Deus e expressão exata de Deus. Mas ao mesmo tempo apresentou a si mesmo como "manso e humilde". Seu modus operandi foi o amor radical capaz de vencer o mal com o bem. Os que detinham privilégio religioso, político, econômico e militar, e em nome de Deus exerceram seu poder, o crucificaram. Sob sua cruz, uma placa ostentava a inscrição "rei dos judeus" — o crime pelo qual foi condenado: sedição. Os que julgam possuir Deus matam. Os que são possuídos por ele deixam-se matar. Mas são estes últimos, que regam o solo do mundo com seu sangue inocente e justo, que fazem possível a vida — teimosa como a fé, bela como a esperança, poderosa como o amor, mais forte do que a morte.

Não existe nada mais político do que dizer que religião não tem nada a ver com política
— Desmond Tutu, arcebispo anglicano
Reivindicar aval divino para um projeto de poder político temporal equivale ao fanatismo, que por sua vez conduz inevitavelmente à cultura de hostilidade, violência e, em última instância, morte
— O teólogo no artigo
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