Na Ucrânia, noites de alarmes expõem o peso diário do conflito para civis

Mais de 400 civis perderam a vida em julho de 2026; milhões enfrentam risco diário de ataques aéreos e ameaça de inverno severo sem infraestrutura essencial.
Uma vida inocente é uma vida inocente, independentemente de quem sofra
Reflexão sobre a necessidade de coerência moral ao falar sobre conflitos e vítimas civis.
Mark

Como é estar em um bunker com dignitários europeus durante um ataque aéreo?

Mimi

É surreal. Você está ali com presidentes e primeiros-ministros, todos esperando a mesma coisa que qualquer ucraniano espera — que o alarme acabe, que o ataque não chegue até você. Não há privilégio que te proteja de uma sirene.

Mark

Quatrocentas pessoas em um mês. Como se fala sobre um número assim?

Mimi

Não se fala. Números desse tamanho deixam de ser números. Viram rotina. Viram a vida normal de milhões de pessoas que acordam, vão trabalhar, e podem não voltar.

Mark

A maior preocupação agora é o inverno, não os ataques?

Mimi

Sim. Porque os ataques são imediatos, visíveis. O inverno é uma morte lenta — sem aquecimento, sem água, sem eletricidade, a 20 graus abaixo de zero. É uma ameaça que dura meses.

Mark

Você fala em escolher o lado das pessoas comuns. Isso é possível quando há grandes potências envolvidas?

Mimi

É a única escolha que faz sentido. Porque se você escolhe o lado da geopolítica, acaba justificando mortes dependendo de quem as comete. Se escolhe o lado das pessoas, a morte é sempre errada.

Mark

E o Brasil nessa equação?

Mimi

O Brasil tem que decidir: quer ser o menor entre os grandes, ou o maior entre os que ainda acreditam em regras? Porque um mundo onde Rússia e EUA fazem o que querem é um mundo sem proteção para ninguém mais.

  • A sirene soa três vezes numa única noite em Kiev, forçando presidentes, primeiros-ministros e deputados europeus a descerem para um bunker subterrâneo — a mesma rotina que milhões de ucranianos repetem há mais de quatro anos.
  • Um prédio de 14 andares nos subúrbios de Kiev é atingido por drones antes do amanhecer, tornando concreto o que os relatórios de guerra costumam reduzir a estatística.
  • Mais de 400 civis morreram apenas em julho de 2026, e a ameaça que se aproxima não é só aérea: o inverno com temperaturas de -20°C pode deixar milhões sem eletricidade, água ou aquecimento por semanas.
  • O testemunho direto rompe a abstração geopolítica e impõe uma coerência moral incômoda — uma vida inocente é uma vida inocente, seja na Ucrânia ou na Palestina, seja qual for o perpetrador.
  • A crise coloca países de porte médio diante de uma escolha estratégica inevitável: unir-se para preservar um mundo baseado em regras ou aceitar a lei do mais forte como nova ordem global.

Em Kiev, sirenes rasgam a madrugada pela terceira vez numa única noite, lembrando ao mundo que há quatro anos e meio milhões de ucranianos vivem sob a ameaça constante de mísseis e drones. Um deputado europeu, ao descer para o bunker ao lado de chefes de Estado e diplomatas, testemunha em carne própria o que para os ucranianos é rotina — e transforma essa experiência numa pergunta que interpela toda a comunidade internacional: é possível ainda construir um mundo fundado em regras e dignidade humana, ou as grandes potências podem invadir e matar impunemente?

A sirene toca pela terceira vez naquela noite em Kiev. O aviso no aplicativo é breve: procure o abrigo antiaéreo mais próximo. No hotel, isso significa descer três andares de garagem até um bunker subterrâneo, onde dezenas de pessoas se reúnem — entre elas o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, o primeiro-ministro de Luxemburgo, Luc Frieden, e membros de uma delegação parlamentar europeia apresentados por António Costa. Todos vivem naquela noite o que os ucranianos enfrentam todos os dias: a espera, a incerteza, o som que interrompe tudo.

Depois de algum tempo sem novas informações, voltam aos quartos. Mas após a meia-noite o alarme soa de novo — desta vez são drones. Pela manhã, o relatório confirma: um ou mais deles atingiram um prédio de 14 andares nos subúrbios de Kiev. Essa é apenas uma noite entre milhares. Há quatro anos e meio, o ciclo se repete em várias cidades ucranianas, enquanto milhões tentam manter uma vida normal com supermercados, escolas e empregos. Em julho de 2026, mais de quatrocentos civis perderam a vida. E a preocupação imediata já mira o próximo inverno, com temperaturas de 20 graus abaixo de zero e a possibilidade de semanas inteiras sem eletricidade, água ou aquecimento.

Há duas formas de falar sobre a guerra: como abstração geopolítica ou como realidade vivida. A primeira permite flexibilidade moral — estar do lado das vítimas num conflito e dos perpetradores noutro, conforme as alianças. A segunda exige coerência: um crime de guerra é um crime de guerra, independentemente de quem o comete. O que está em jogo — na Ucrânia como na Palestina — é se países poderosos podem se arrogar o direito de invadir e matar, ou se ainda é possível um mundo baseado em regras e direitos humanos. Quando potências como Rússia e Estados Unidos fazem as guerras que desejam, a saída é que países médios se unam para se proteger. Isso deixa uma escolha clara para nações como o Brasil: ser o menor entre os enormes ou o maior entre os restantes.

A sirene toca pela terceira vez naquela noite em Kiev. Não é um som que se ignora — é o aviso de que um míssil foi detectado vindo em sua direção. No aplicativo de alertas, a mensagem é breve e direta: procure o abrigo antiaéreo mais próximo. Para quem está no hotel, isso significa descer três andares de garagem até um bunker subterrâneo.

Dezenas de pessoas descem as rampas. Entre eles estão o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro de Luxemburgo, Luc Frieden, apresentados por António Costa, presidente do Conselho Europeu. Há também diplomatas, jornalistas e deputados de uma delegação parlamentar europeia. Todos vivem naquela noite o que os ucranianos enfrentam rotineiramente: a espera no bunker, a incerteza, o som da sirene que interrompe tudo.

Depois de algum tempo sem novas informações sobre o ataque, voltam aos quartos. Mas depois da meia-noite, o alarme soa novamente. Desta vez são drones. Alguns permanecem atentos às mensagens de amigos com fontes britânicas e americanas que possam alertar se o ataque se aproxima. Outros adormecem.

Pela manhã, o relatório confirma: foi um ataque com drones. Um ou mais deles atingiram um prédio de 14 andares nos subúrbios de Kiev. Ainda não se sabe se houve mortos ou feridos. Mas essa é apenas uma noite entre milhares. Há quatro anos e meio, isso se repete todos os dias e todas as noites em várias cidades ucranianas, em pleno continente europeu, afetando milhões de pessoas que tentam manter uma vida normal — com supermercados, transportes públicos, escolas e empregos. Os drones e mísseis matam com regularidade crescente.

Em julho de 2026 sozinho, mais de quatrocentas pessoas comuns — civis, não alvos militares — perderam a vida. Mas a preocupação imediata não é apenas dos ataques aéreos. É a preparação para mais um inverno com temperaturas chegando a 20 graus abaixo de zero, período durante o qual muitos podem ficar sem eletricidade, água ou aquecimento por semanas inteiras.

Há duas formas de falar sobre a guerra: como uma abstração geopolítica ou como uma realidade vivida pelas pessoas que dela são vítimas. A primeira permite uma certa flexibilidade moral — estar do lado das vítimas em um conflito e do lado dos perpetradores em outro, dependendo das alianças. A segunda exige coerência: uma vida inocente é uma vida inocente, e um crime de guerra é um crime de guerra, independentemente de quem seja a vítima e quem seja o perpetrador.

Escolher o lado das pessoas comuns não impede análise geopolítica. Mas muda completamente seu caráter. Deixa de ser sobre encontrar o inimigo do meu inimigo e vê-lo como amigo. Passa a ser sobre reconhecer que o que está em jogo — aqui na Ucrânia como na Palestina — é se os países poderosos ou por eles apoiados podem se arrogar o direito de invadir e matar, ou se ainda é possível construir um mundo baseado em regras, diplomacia e direitos humanos. Quando potências enormes como Rússia e Estados Unidos fazem as guerras que desejam, a única solução é que países médios se unem para se protegerem e preservarem a paz. Isso deixa uma escolha clara para países grandes como o Brasil: ser o menor entre os enormes ou o maior entre os restantes.

Quando temos um mundo em que os países enormes como a Rússia e os EUA fazem as guerras que querem, a única solução é os países médios se unirem para se protegerem
— Deputado europeu na delegação parlamentar
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