Pesquisa da UFRJ revela por que obesos respondem diferente ao tratamento

Mulheres com obesidade grave atendidas no hospital frequentemente desenvolvem comorbidades como diabetes, doenças cardiovasculares e infertilidade, além de enfrentarem insegurança alimentar e vulnerabilidade socioeconômica.
Não se trata apenas de 'fechar a boca'. É lutar contra o metabolismo e a vulnerabilidade social.
Pesquisadora explica por que a obesidade é uma condição complexa que vai além da fisiologia individual.
Mark

Por que estudar apenas mulheres? Isso não deixa o trabalho incompleto?

Mimi

Não. Fatores metabólicos e ciclos hormonais diferem significativamente entre gêneros. Estudar apenas mulheres permitiu maior controle das variáveis e maior precisão dos resultados. Era uma escolha metodológica deliberada.

Mark

Então o polimorfismo no gene Adipoq é determinante? Se uma mulher tem essa variação, ela vai sempre responder mal ao tratamento?

Mimi

Não é determinante sozinho. É um fator entre muitos. Mas explica por que duas mulheres com perfis antropométricos idênticos — peso, altura, circunferências — podem ter metabolismos completamente diferentes. É uma pista importante.

Mark

Você mencionou insegurança alimentar. Como isso se conecta com a genética?

Mimi

A genética carrega o potencial, mas o ambiente o ativa. Uma mulher com o polimorfismo Adipoq pode ter seu metabolismo ainda mais prejudicado se só consegue acessar alimentos ultraprocessados. Genética e circunstância social se amplificam mutuamente.

Mark

E o sistema endocanabinoide? Por que investigar a relação entre gordura e endocanabinoides?

Mimi

Porque endocanabinoides são derivados de lipídios. Se uma pessoa ingere mais gordura, pode estar produzindo mais dessas substâncias que reduzem a sensação de saciedade. É um ciclo potencial que ninguém havia estudado diretamente antes.

Mark

Qual é o impacto prático dessa pesquisa? Muda o tratamento hoje?

Mimi

Ainda não muda o tratamento imediato. Mas fornece fundamento científico para políticas públicas e diretrizes de cuidado personalizadas no SUS. Permite que no futuro o tratamento seja ajustado com base no perfil genético e metabólico de cada paciente, não em um protocolo único para todos.

  • Médicos e nutricionistas há anos se deparavam com um paradoxo: pacientes com perfis quase idênticos respondendo de formas opostas ao mesmo tratamento — e a ciência finalmente começa a explicar por quê.
  • Um polimorfismo no gene Adipoq compromete a produção de adiponectina, alterando silenciosamente a sensibilidade à insulina e o processo inflamatório, criando regras biológicas distintas dentro de corpos que parecem iguais por fora.
  • O sistema endocanabinoide superativado em pessoas com obesidade reduz a saciedade e amplifica o impulso de comer, e a pesquisa investiga pela primeira vez se o consumo de gorduras alimenta esse ciclo — uma descoberta com potencial para além da obesidade.
  • Mulheres com renda de até dois mil reais, cercadas por alimentos ultraprocessados como única opção acessível, mostram que a obesidade grave é também uma consequência de desigualdade — não de falta de disciplina.
  • O estudo acompanha pacientes antes e após a cirurgia bariátrica com equipe multidisciplinar, e seus resultados miram diretamente as diretrizes do SUS, abrindo caminho para um tratamento verdadeiramente personalizado.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma pesquisa premiada começa a desvendar por que corpos aparentemente semelhantes respondem de formas tão distintas ao tratamento da obesidade. Ao identificar variações genéticas, desequilíbrios no sistema endocanabinoide e o peso invisível da vulnerabilidade socioeconômica, o estudo nos lembra que a doença nunca é apenas biológica — é também a soma de tudo aquilo que escapa ao controle individual. O conhecimento produzido aponta para um horizonte em que o cuidado deixa de ser padronizado e passa a reconhecer a singularidade de cada corpo e de cada história.

Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro venceu o primeiro lugar em sua categoria no congresso nacional de diabetes ao enfrentar uma questão que intriga clínicos há décadas: por que duas mulheres com peso e histórico praticamente idênticos respondem de formas tão diferentes ao mesmo tratamento para obesidade? Liderado pela doutoranda Alaine Victorino e coordenado pela professora Eliane Rosado, o estudo partiu da premissa de que a obesidade é uma doença multifatorial — genética, metabólica, hormonal, psicológica e social ao mesmo tempo.

Um dos achados centrais envolve o gene Adipoq, responsável pela produção de adiponectina, proteína que melhora a sensibilidade à insulina e reduz inflamação. Mulheres com um polimorfismo nesse gene apresentavam níveis mais elevados de glicose e insulina e maior massa corporal. Em termos práticos, dois corpos com o mesmo peso podem estar operando sob regras biológicas completamente distintas — o que explica por que tratamentos padronizados falham com tanta frequência.

As pacientes acompanhadas têm em média 50 anos, mais da metade está na menopausa e a maioria vive com renda de até dois mil reais mensais. Muitas convivem com a obesidade há décadas e chegam ao programa após inúmeras tentativas frustradas de tratamento, já com comorbidades como diabetes e doenças cardiovasculares. A pesquisa destacou ainda a insegurança alimentar como fator agravante: não a ausência de comida, mas o acesso restrito a alimentos ultraprocessados, baratos e pobres em nutrientes — uma armadilha estrutural, não uma escolha.

A investigação também se debruça sobre o sistema endocanabinoide, conjunto de processos fisiológicos que regula fome, saciedade e microbiota intestinal. Em pessoas com obesidade, esse sistema tende a estar superativado, reduzindo a saciedade e intensificando o impulso alimentar. A pesquisa busca entender se uma maior ingestão de gorduras amplifica a produção dessas substâncias no organismo — uma linha de investigação inédita no Brasil, conduzida pelo único laboratório nacional capaz de dosar endocanabinoides, que atende também a Fiocruz e a UERJ.

Com acompanhamento multidisciplinar antes da cirurgia bariátrica, seis meses e um ano após o procedimento, o estudo almeja produzir conhecimento capaz de orientar políticas públicas e diretrizes de cuidado no SUS — pavimentando o caminho para um tratamento da obesidade que reconheça, de fato, a singularidade de cada paciente.

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro conquistou o primeiro lugar em sua categoria no congresso nacional de diabetes ao responder uma pergunta que médicos e nutricionistas fazem há anos: por que duas mulheres com peso, altura e histórico praticamente idênticos respondem de formas tão diferentes ao mesmo tratamento para obesidade?

Alaine Victorino, doutoranda do programa de pós-graduação em Nutrição da UFRJ, liderou o trabalho que examinou mulheres com obesidade grau 3 atendidas pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. A pesquisa, coordenada pela professora Eliane Rosado, partiu de uma premissa fundamental: a obesidade não é simplesmente uma questão de comer demais e gastar pouco. É uma doença multifatorial, complexa, que envolve genética, metabolismo, hormônios, psicologia e circunstâncias sociais entrelaçadas de formas que a medicina ainda estava aprendendo a mapear.

O estudo identificou um achado específico que ajuda a explicar essas variações. Mulheres com uma variação particular no gene Adipoq — um polimorfismo genético — apresentavam níveis mais altos de glicose e insulina no sangue, além de maior massa corporal. O gene Adipoq codifica a adiponectina, uma proteína que melhora a sensibilidade à insulina e reduz inflamação. Quando esse gene sofre uma mutação, a proteína funciona de forma mais lenta ou inadequada, criando um cenário metabólico diferente. Duas pacientes podem ter o mesmo peso, mas seus corpos estão operando sob regras biológicas distintas. Essa descoberta abre caminho para entender por que tratamentos padronizados não funcionam igualmente para todos.

As mulheres atendidas pelo programa têm em média 50 anos. Mais da metade está na menopausa. A maioria completou o ensino médio e vive com renda mensal de até dois mil reais. Muitas convivem com obesidade há décadas, passaram por inúmeras dietas restritivas e outras tentativas de tratamento antes de chegar à cirurgia bariátrica. Ao longo desse percurso, desenvolveram comorbidades — diabetes, doenças cardiovasculares, infertilidade. Mas há outro fator que a pesquisa destacou: insegurança alimentar. Não se trata apenas da falta de comida, mas da qualidade do que é acessível. Mulheres com poucos recursos frequentemente têm acesso predominante a alimentos ultraprocessados, baratos e calóricos, mas pobres em nutrientes. Macarrão instantâneo, biscoitos industrializados, produtos que saciam a fome mas não nutrem. A falta de escolha alimentar contribui para o ganho de peso.

A pesquisa também investigou o sistema endocanabinoide, um conjunto de processos fisiológicos que regula fome, saciedade, cognição e microbiota intestinal. O corpo humano produz seus próprios endocanabinoides, substâncias semelhantes aos compostos encontrados na cannabis. Em pessoas saudáveis, esse sistema funciona em equilíbrio. Em pessoas com obesidade, tende a estar superativado, reduzindo a sensação de saciedade e aumentando o impulso de comer. Como os endocanabinoides são derivados de lipídios, a pesquisa buscou compreender se uma ingestão maior de gorduras está associada a uma produção maior dessas substâncias no organismo — uma investigação inédita com potencial de aplicação em outras doenças crônicas.

O trabalho adota uma abordagem multidisciplinar, envolvendo nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, cardiologistas e educadores físicos. As pacientes são acompanhadas antes da cirurgia bariátrica, seis meses depois e um ano depois, recebendo devolutivas de exames de sangue, bioimpedância, percentual de gordura e massa muscular. Alaine enfatizou que a obesidade não escolhe classe social, mas é dramaticamente agravada em populações vulnerabilizadas. Não se trata apenas de disciplina alimentar. É lutar contra o próprio metabolismo enquanto se enfrenta vulnerabilidade social — uma condição que vai além da fisiologia e envolve ambiente, renda, escolaridade e saúde mental.

O laboratório responsável pela dosagem de endocanabinoides é único no Brasil, atendendo também a Fiocruz e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A pesquisa busca produzir conhecimento capaz de subsidiar políticas públicas e orientar diretrizes de cuidado no Sistema Único de Saúde, abrindo caminho para um tratamento mais personalizado e efetivo da obesidade.

Obesidade não escolhe classe social, ela está presente em todas. Mas imagine o quanto isso é agravado em uma população vulnerabilizada. Não podemos tratar a obesidade com estigma.
— Alaine Victorino, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Nutrição da UFRJ
Temos um projeto pioneiro sendo desenvolvido na UFRJ. O recebimento deste prêmio reforça a relevância de uma pesquisa que, muitas vezes, ainda é pouco conhecida e valorizada.
— Alaine Victorino
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