Por que vacinados ainda contraem Covid-19: especialistas explicam limitações dos imunizantes

Pessoas vacinadas contraíram Covid-19 e algumas necessitaram internação, incluindo uma mulher de 68 anos que ficou cinco dias na UTI.
A vacina ajudou a não ter sintomas mais graves
Mulher vacinada que contraiu Covid-19 reflete sobre a proteção recebida mesmo após infecção.
Mark

Por que então as pessoas ainda contraem Covid-19 se foram vacinadas?

Mimi

Porque nenhuma vacina oferece proteção de 100%. As que temos protegem principalmente contra a doença grave, não contra a infecção em si. É como um colete à prova de balas que reduz drasticamente o risco de morte, mas não impede que a bala o atinja.

Mark

Mas isso não significa que a vacina falhou?

Mimi

Não. Significa que ela faz exatamente o que foi desenhada para fazer. Quando vemos alguém vacinado internado na UTI em vez de morrer, a vacina funcionou. O objetivo nunca foi criar uma barreira impenetrável.

Mark

E por que algumas pessoas vacinadas adoecem mais que outras?

Mimi

Porque a resposta imunológica varia muito de pessoa para pessoa. Um idoso, um diabético, alguém com o sistema imunológico comprometido — esses grupos simplesmente não conseguem treinar suas células de defesa tão bem quanto uma pessoa jovem e saudável.

Mark

Então a vacina não funciona para essas pessoas?

Mimi

Funciona, mas de forma menos robusta. Mesmo assim, reduz o risco de morte e internação. Uma mulher de 68 anos diabética que ficou cinco dias na UTI mas saiu viva — a vacina funcionou ali.

Mark

E quanto à transmissão? Uma pessoa vacinada pode infectar outras?

Mimi

Sim. Por isso a vacinação é coletiva, não individual. Quando muita gente está vacinada, menos pessoas adoecem gravemente, o vírus circula menos, e até quem não respondeu bem à vacina fica mais protegido pelo escudo que a comunidade cria.

Mark

Então o que as pessoas deveriam fazer?

Mimi

Completar as duas doses e continuar usando máscara em aglomerações. Não é complicado. É apenas reconhecer que a vacina é uma ferramenta poderosa, mas não mágica.

  • Vacinados em todo o Brasil relatam infecção pela Covid-19 após completar as duas doses, gerando desconfiança crescente sobre a eficácia dos imunizantes.
  • A confusão entre 'proteção contra infecção' e 'proteção contra doença grave' alimenta desinformação e pode levar ao abandono de medidas preventivas essenciais.
  • Especialistas alertam que grupos vulneráveis — idosos, imunodeprimidos e pessoas com comorbidades — respondem menos às vacinas e seguem em risco elevado mesmo após vacinação completa.
  • Com apenas 11% da população brasileira com esquema completo em junho de 2021, a imunidade coletiva ainda está longe, deixando os mais frágeis desprotegidos pela ausência de barreira populacional.
  • A recomendação médica é clara: completar as duas doses e manter o uso de máscara em locais aglomerados, pois o relaxamento precoce após a primeira dose tem sido responsável por parte das infecções registradas.

Em um momento em que a ciência avança mais rápido do que a compreensão pública, casos de vacinados que contraíram a Covid-19 no Brasil revelam uma verdade fundamental da imunologia: nenhuma vacina é escudo absoluto, mas sim um treinamento coletivo do organismo humano contra a gravidade da doença. O que está em jogo não é a falha dos imunizantes, mas a distância entre expectativa e realidade biológica — e a necessidade de compreender que proteger-se individualmente é, antes de tudo, um gesto em direção ao outro.

Giovanni Bortolani, estudante de veterinária em Matão, São Paulo, completou a vacinação com CoronaVac em abril de 2021 — e ainda assim contraiu Covid-19 um mês depois, durante um jantar em família onde todos os presentes foram infectados. Seu caso não é isolado, e a dúvida que ele representa é legítima: se a vacina protege, por que ainda adoeço?

A resposta dos especialistas é direta: as vacinas disponíveis no Brasil protegem principalmente contra formas graves da doença, não contra a infecção em si. Rosana Richtmann, infectologista do Hospital Emílio Ribas, explica que o objetivo da vacinação é reduzir drasticamente internações, intubações e mortes — e nesse aspecto, os imunizantes têm desempenho expressivo. Estudos mostram eficácia de 75% a 80% contra casos moderados e graves, com a CoronaVac apresentando 85% de proteção contra internações e a AstraZeneca chegando a 90% contra o desenvolvimento da doença.

Mas a eficácia coletiva esconde uma variação individual significativa. Raquel Stucchi, da Unicamp, descreve três perfis de resposta imunológica: quem desenvolve boa imunidade e não adoece; quem tem resposta parcial e enfrenta casos leves; e uma minoria que produz poucas células de defesa e pode ter quadros moderados ou graves. Idosos, imunodeprimidos e pessoas com comorbidades compõem esse grupo mais vulnerável.

Cacilda Ferreira, 68 anos, diabética e hipertensa, viveu essa realidade: vacinada em março, foi internada em abril e passou cinco dias na UTI — sem precisar ser entubada. Ela reconhece que a vacina provavelmente evitou o pior. Sua colega Laudicéia Duarte, 53 anos, também se infectou após vacinação completa, mas com sintomas leves que ela atribui à proteção do imunizante.

O imunologista Daniel Mansur usa uma metáfora precisa: vacinar é treinar células para combater o vírus, mas em alguns organismos esse treinamento não é suficiente para neutralizar o antígeno — especialmente diante de um vírus que possui mecanismos próprios de defesa e continua buscando brechas. Por isso, especialistas reforçam que a vacinação é um ato coletivo: quanto mais pessoas imunizadas, menor a circulação do vírus e maior a proteção indireta para quem não respondeu adequadamente. Em junho de 2021, apenas 11% dos brasileiros haviam completado o esquema vacinal — um lembrete de que a corrida ainda estava longe do fim.

Giovanni Reggi Bortolani, estudante de veterinária em Matão, São Paulo, completou seu ciclo de vacinação contra a Covid-19 em abril de 2021, dois meses após receber a segunda dose da CoronaVac. Um mês depois, durante um jantar em família onde todos os presentes contraíram o vírus, ele também se infectou. Casos como o seu geraram dúvidas crescentes sobre a real efetividade das vacinas disponíveis — mas especialistas alertam que a questão é mais nuançada do que parece à primeira vista.

Médicos e infectologistas são claros: é totalmente possível contrair e transmitir a Covid-19 mesmo após completar o esquema vacinal de duas doses. Isso não representa falha das vacinas, mas sim uma característica fundamental de como funcionam. As vacinas atualmente disponíveis protegem principalmente contra o desenvolvimento de formas graves da doença, não contra a infecção em si. Rosana Richtmann, infectologista do Hospital Emílio Ribas e membro do comitê de imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que o objetivo da vacinação não é deixar a pessoa completamente livre de contrair a doença, mas reduzir drasticamente as chances de internação, intubação e complicações. Essa redução expressiva no número de casos graves é o que permite combater a pandemia em escala populacional.

Nenhuma vacina alcança 100% de eficácia — este é um princípio fundamental da imunologia. Apesar das diferenças entre os imunizantes, todos os disponíveis no Brasil oferecem proteção de 75% a 80% contra casos moderados e graves quando aplicadas as duas doses. Um estudo do Ministério da Saúde do Chile sobre a CoronaVac mostrou 67% de efetividade contra infecção sintomática, 85% contra internações e 80% contra mortes. A vacina Oxford/AstraZeneca, por sua vez, apresenta entre 85% e 90% de efetividade contra o desenvolvimento da doença, conforme dados da Public Health England.

Mas a eficácia da vacina é apenas parte da equação. O fator determinante é o próprio organismo de cada pessoa. Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, descreve três grupos de resposta imunológica: aqueles que desenvolvem boa imunidade celular e não adoecem; os que criam resposta parcial e podem ter casos leves; e uma minoria que desenvolve poucas células de defesa e pode sofrer casos moderados ou graves. Idosos, pessoas imunodeprimidas e aquelas com comorbidades como obesidade e diabetes compõem esse último grupo, com menor capacidade de resposta às vacinas.

Cacilda Vendramini Ferreira, funcionária do setor de saúde em Franca, interior de São Paulo, é exemplo dessa vulnerabilidade. Aos 68 anos, diabética e hipertensa, recebeu a segunda dose em 2 de março e começou a se sentir mal em 10 de abril. Ficou oito dias internada, cinco deles na UTI, embora não tenha precisado ser entubada. Ela reconhece que sem a vacinação a situação teria sido muito pior. Laudicéia Satler Duarte, colega de 53 anos, também se infectou após vacinação completa no final de maio, apresentando dor de garganta, sinusite e fraqueza leve — sintomas que ela atribui à proteção oferecida pela vacina.

Daniel Mansur, imunologista da Universidade Federal de Santa Catarina, oferece uma metáfora esclarecedora: quando nos vacinamos, treinamos nossas células para combater o vírus. Mas em alguns casos, essas células treinadas não são suficientes para neutralizar o antígeno. O vírus não é uma entidade estática — ele se multiplica, possui mecanismos próprios de defesa e usa de tudo para continuar se replicando. É uma corrida armamentista onde o vírus encontra brechas em qualquer ponto de menor resistência.

Por essa razão, especialistas insistem que a vacinação não é um ato individual, mas coletivo. Quando muitas pessoas estão vacinadas, as internações diminuem e a circulação do vírus tende a reduzir, protegendo justamente aqueles cujo sistema imunológico não respondeu adequadamente à vacina. Em junho de 2021, apenas 11,11% da população brasileira havia recebido as duas doses. Rosana Richtmann recomenda que as pessoas completem o ciclo com a segunda dose e continuem usando máscara em locais aglomerados — observa que muitos relaxam após a primeira dose e acabam se contaminando antes de completar a imunização.

A chance dela ser internada, intubada e ter complicações cai expressivamente e assim combatemos a pandemia
— Rosana Richtmann, infectologista do Hospital Emílio Ribas
A gente insiste que a vacinação não é um ato individual, mas coletivo
— Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp
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