Com o passar dos anos, as células que sustentam o sangue e a imunidade acumulam erros silenciosos que podem abrir caminho para leucemias, cânceres e doenças do coração. Pesquisadores do Broad Institute, ligado ao MIT e Harvard, publicaram na revista Nature um mapeamento das variantes genéticas hereditárias que tornam esse acúmulo mais provável — revelando que o destino de certas doenças da velhice pode estar inscrito, em parte, desde o nascimento. A descoberta aponta para um horizonte em que a prevenção começa muito antes dos primeiros sintomas.
Mutações genéticas hereditárias aumentam risco de leucemia e doenças cardíacas
Prevenir o início dessas mutações antes que ocorram pode beneficiar múltiplas doenças
Por que essas mutações aparecem especificamente com a idade? É inevitável?
As células-tronco do sangue se dividem constantemente ao longo da vida. Cada divisão é uma oportunidade para erros genéticos. O que o estudo mostra é que algumas pessoas herdam variantes que aceleram esse processo — suas células se renovam mais rapidamente, aumentando as chances de mutações prejudiciais se acumularem.
Mas o estudo não prova que essas mutações causam a doença, certo? Mostra associação e risco aumentado.
Exato. As pessoas com as variantes têm mais células-tronco hematopoéticas antes de desenvolver a doença, o que é um sinal de risco. Mas nem todos que herdam a variante desenvolverão leucemia ou CHIP.
E quanto ao CHIP? Afeta muita gente?
Quase 10% das pessoas com mais de 70 anos. E aumenta o risco de morte em 40%, além de predispor a ataques cardíacos e derrames.
Esses números de risco — são absolutos ou relativos? Um aumento de 40% em um risco já pequeno é diferente de um aumento em um risco grande.
O estudo não detalha isso. Sabemos que CHIP aumenta o risco de morte, mas não temos a taxa de base.
Então o grande valor aqui é preventivo? Bloquear essas mutações antes que apareçam?
Sim. Se conseguissem intervir cedo, antes que as mutações se acumulem, poderiam prevenir leucemia, cânceres e doenças cardíacas. É um alvo terapêutico completamente novo.
Mas ainda não existe tratamento. Isso é pesquisa fundamental, não clínica.
Correto. Natarajan deixa claro que são necessários mais estudos. Identificar as variantes é o primeiro passo.
Il Polso
- Quase 10% das pessoas com mais de 70 anos carregam uma condição chamada CHIP, que eleva em 40% o risco de morte e predispõe a ataques cardíacos, derrames e cânceres sanguíneos.
- Pesquisadores identificaram 17 variantes genéticas ligadas a distúrbios que fazem o corpo produzir glóbulos brancos em excesso, sendo 7 delas completamente inéditas na literatura científica.
- Algumas dessas variantes hereditárias fazem as células-tronco do sangue se multiplicarem mais agressivamente, criando uma janela maior para que mutações perigosas se acumulem ao longo da vida.
- Um segundo estudo analisou quase 100 mil pessoas e encontrou regiões do genoma associadas ao CHIP, incluindo uma variante presente exclusivamente em pessoas de ascendência africana.
- O caminho até tratamentos ainda é longo: muitas variantes estão em regiões regulatórias do genoma, não em genes codificadores, tornando a compreensão dos mecanismos mais complexa e exigindo experimentos adicionais.
Com o passar dos anos, as células que sustentam o sangue e a imunidade acumulam erros silenciosos que podem abrir caminho para leucemias, cânceres e doenças do coração. Pesquisadores do Broad Institute, ligado ao MIT e Harvard, publicaram na revista Nature um mapeamento das variantes genéticas hereditárias que tornam esse acúmulo mais provável — revelando que o destino de certas doenças da velhice pode estar inscrito, em parte, desde o nascimento. A descoberta aponta para um horizonte em que a prevenção começa muito antes dos primeiros sintomas.
Conforme envelhecemos, as células-tronco responsáveis por gerar o sangue e o sistema imunológico acumulam mutações que podem desencadear leucemias, cânceres ou doenças cardíacas. Um estudo publicado na revista Nature mapeou as variantes genéticas hereditárias que predispõem as pessoas a esse acúmulo perigoso, abrindo a possibilidade de intervenções antes que o dano se instale.
Pesquisadores do Broad Institute, em parceria com especialistas do Hospital Infantil de Boston e do Dana-Farber Cancer Institute, identificaram 17 variantes associadas a neoplasias mieloproliferativas — distúrbios em que o corpo produz glóbulos brancos em excesso, elevando o risco de leucemia. Sete delas nunca haviam sido descritas. O estudo também investigou a hematopoiese clonal de potencial indeterminado, o CHIP, condição que afeta quase 10% das pessoas acima dos 70 anos e aumenta em 40% o risco de morte, além de predispor a eventos cardiovasculares graves.
O achado central é que certas variantes hereditárias estimulam a autorrenovação das células-tronco do sangue, fazendo-as se multiplicar com mais agressividade e criando uma janela maior para o acúmulo de mutações prejudiciais. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão analisando dados de quase 3 mil casos de neoplasias e mais de 835 mil controles, observando que portadores dessas variantes já apresentam mais células-tronco hematopoéticas mesmo antes de desenvolver qualquer doença.
Em um segundo estudo focado no CHIP, a equipe analisou informações genéticas de 97.691 pessoas e identificou três regiões do genoma associadas à condição — uma delas exclusiva em pessoas de ascendência africana. Pradeep Natarajan, do Broad Institute, explica que uma única mutação raramente basta para causar o CHIP, mas quando combinada a uma variante hereditária que favorece o crescimento celular, uma célula mutante pode se expandir de forma muito mais intensa.
O potencial preventivo da descoberta é o que mais entusiasma os pesquisadores: se for possível impedir o início dessas mutações antes que se manifestem, os benefícios poderiam se estender de cânceres a doenças cardiovasculares. Ainda assim, Natarajan ressalta que estudos complementares são necessários, especialmente porque muitas das variantes identificadas estão em regiões regulatórias do genoma — não em genes codificadores —, o que torna a compreensão de seus mecanismos mais desafiadora e os alvos terapêuticos ainda distantes.
Conforme envelhecemos, nossas células-tronco hematopoéticas — aquelas que geram as células do sangue e do sistema imunológico — acumulam mutações genéticas que podem desencadear leucemia, cânceres ou doenças do coração. Um estudo publicado na revista Nature na quinta-feira passada mapeou as variantes hereditárias que predispõem as pessoas a esse acúmulo perigoso, abrindo a possibilidade de intervenções preventivas antes que o dano ocorra.
Pesquisadores do Broad Institute, vinculado ao MIT e Harvard, junto com especialistas do Hospital Infantil de Boston e do Dana-Farber Cancer Institute, identificaram 17 variantes genéticas associadas a neoplasias mieloproliferativas — distúrbios em que o corpo produz glóbulos brancos em excesso, elevando o risco de leucemia. Sete dessas variantes nunca haviam sido descritas antes. O trabalho também investigou a hematopoiese clonal de potencial indeterminado, conhecida como CHIP, uma condição que afeta quase 10% das pessoas com mais de 70 anos e aumenta em 40% o risco de morte, além de predispor a ataques cardíacos, derrames e cânceres sanguíneos.
O achado central é que algumas dessas variantes hereditárias promovem a autorrenovação das células-tronco do sangue, fazendo com que elas se multipliquem mais agressivamente. Isso cria uma janela maior para que mutações prejudiciais se acumulem ao longo do tempo. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram dados de 2.949 casos de neoplasias mieloproliferativas e 835.554 controles de três grandes coortes. Descobriram que pessoas portadoras dessas variantes de risco, mesmo antes de desenvolver a doença, já apresentam mais células-tronco hematopoéticas do que aquelas sem as variantes.
Em um segundo estudo focado especificamente em CHIP, os pesquisadores utilizaram informações genéticas e de saúde de 97.691 pessoas, identificando 4.229 com a condição. Nessa análise, encontraram três regiões do genoma associadas ao CHIP, sendo uma variante observada exclusivamente em pessoas com ascendência africana. Pradeep Natarajan, membro associado do Broad Institute e diretor de cardiologia preventiva no Massachusetts General Hospital, explica que a simples presença de uma mutação em uma ou poucas células geralmente não é suficiente para causar CHIP. Mas quando uma pessoa herda uma variante que promove o crescimento celular, uma célula mutante pode se expandir de forma muito mais agressiva, facilitando a aquisição de mutações adicionais.
O potencial clínico dessa descoberta reside na prevenção. Se os pesquisadores conseguirem desenvolver formas de impedir que essas mutações relacionadas à idade se iniciem, antes que se manifestem, poderiam oferecer benefícios para uma série de condições — desde cânceres até doenças cardiovasculares. Natarajan ressalta, porém, que ainda são necessários estudos complementares para compreender a função exata de cada variante e como essas descobertas podem ser traduzidas em tratamentos. Muitas das variantes identificadas localizam-se em regiões do genoma que não codificam proteínas, mas sim regulam genes, o que torna a tarefa de entender seus mecanismos ainda mais complexa. Os próximos passos envolvem experimentos adicionais para determinar as consequências biológicas de cada uma dessas variantes e, eventualmente, identificar alvos terapêuticos viáveis.
Citazioni salienti
Se você pode prevenir o início dessas mutações relacionadas à idade, antes que elas ocorram, você pode potencialmente ter benefícios para uma série de condições, de câncer a doenças cardiovasculares— Pradeep Natarajan, membro associado do Broad Institute
Não achamos que a aquisição de mutações por si só seja suficiente para causar CHIP. Mas quando você tem uma variante que promove o crescimento celular, isso faz com que uma célula com uma mutação se expanda de forma mais agressiva— Pradeep Natarajan