Há histórias em que a medicina e a fé não competem, mas caminham juntas por estradas longas. Lívia nasceu com uma forma rara de epilepsia que a fazia convulsionar até cem vezes por dia, e sua mãe Rosana percorreu centenas de quilômetros entre santuários e hospitais em busca de uma resposta. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, uma dieta cetogênica rigorosa foi proposta; em Aparecida, pedidos foram depositados numa caixinha. No dia 12 de outubro de 2002, as convulsões cessaram — e não voltaram mais.
Fé em Nossa Senhora Aparecida marca fim das convulsões de menina com síndrome rara
A fé move montanhas, e é verdade
O que torna esse caso tão significativo? É a fé que curou, ou foi a dieta cetogênica?
Rosana não separa as duas coisas. Para ela, a fé sustentou a esperança durante o tratamento. A dieta cetogênica foi o instrumento médico, mas a fé foi o que manteve a família em movimento, viajando oitocentos quilômetros regularmente.
Mas precisamos ser precisos aqui. A síndrome de West é uma condição rara, e a resposta à dieta cetogênica varia muito entre pacientes. Não sabemos se Lívia teria respondido assim sem a fé, ou se a fé teria importado sem o tratamento específico.
Então é impossível separar os dois?
Para essa família, sim. Rosana fala da fé como o que a manteve buscando tratamento, o que a levou a Ribeirão Preto, o que a fez acreditar que havia esperança quando os medicamentos convencionais não funcionavam.
Justo. Mas o texto não deixa claro se havia outras crianças com síndrome de West e deleção do cromossomo 18 que também fizeram dieta cetogênica. Não sabemos se o resultado de Lívia é típico ou excepcional.
E quanto aos vinte e quatro anos sem convulsões? Isso é permanente?
Segundo Rosana, sim. Lívia recebeu alta do tratamento com a dieta cetogênica e nunca mais apresentou convulsões. Mas ela ainda convive com as limitações da síndrome de West e do autismo nível 3.
Isso é importante notar. A ausência de convulsões não significa cura completa. Lívia ainda precisa de apoio em atividades cotidianas, ainda tem limitações na fala, ainda depende de terapias e acompanhamento.
Então a história não é de cura, mas de controle?
É de controle e de uma vida possível. Antes, cem convulsões por dia tornavam qualquer vida impossível. Agora, sem as convulsões, Lívia pode passear, interagir, participar de atividades. Não é perfeito, mas é uma transformação real.
E a mudança para Curitiba em 2022? Isso afetou o acompanhamento médico?
O texto não deixa claro. Sabemos que ela recebeu alta e que agora aguarda uma vaga em um serviço para adultos com deficiência, mas não há detalhes sobre se continua sendo acompanhada por neurologistas ou se mantém algum tipo de monitoramento.
O Pulso
- Uma menina de dois anos convulsionava até cem vezes por dia, num ritmo que tornava cada hora uma emergência silenciosa dentro de casa.
- O diagnóstico tardio — confundido inicialmente com cólica — revelou uma combinação rara e grave: síndrome de West e deleção cromossômica, condições que desafiam até os especialistas.
- A família percorreu oitocentos quilômetros repetidamente entre Juiz de Fora e Ribeirão Preto, recusando-se a aceitar que não havia mais nada a tentar.
- A dieta cetogênica, monitorada com precisão cirúrgica em cada refeição pesada e registrada, foi reduzindo as crises progressivamente — de vinte pela manhã para cinco, depois para nenhuma.
- Aos 26 anos, Lívia vive sem convulsões há mais de duas décadas, com autismo nível 3 e limitações no desenvolvimento, mas caminhando, interagindo e vivendo a vida que sua mãe um dia imaginou num santuário.
Há histórias em que a medicina e a fé não competem, mas caminham juntas por estradas longas. Lívia nasceu com uma forma rara de epilepsia que a fazia convulsionar até cem vezes por dia, e sua mãe Rosana percorreu centenas de quilômetros entre santuários e hospitais em busca de uma resposta. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, uma dieta cetogênica rigorosa foi proposta; em Aparecida, pedidos foram depositados numa caixinha. No dia 12 de outubro de 2002, as convulsões cessaram — e não voltaram mais.
Rosana Almeida guarda o 12 de outubro de 2002 como uma data sagrada. Naquele dia, sua filha Lívia — que chegou a convulsionar cem vezes por dia — teve a última crise. O que veio antes foi uma jornada de anos entre o desespero e a determinação.
Lívia nasceu com síndrome de West, uma encefalopatia epiléptica rara e grave que compromete profundamente o desenvolvimento neurológico, agravada por uma deleção genética no cromossomo 18. Os primeiros sinais apareceram aos quatro meses, durante um banho — um grito, o corpo encolhido, o rosto vermelho. O pediatra disse que era cólica. Levou tempo e um neurologista para que a família entendesse o que realmente estava acontecendo. As crises foram se intensificando até chegar a oitenta ou cem por dia.
A família, de Juiz de Fora, encontrou um especialista em epilepsia no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Passaram a fazer aquela viagem de oitocentos quilômetros regularmente. Rosana fazia questão de parar na Basílica de Nossa Senhora Aparecida no caminho — entrava, deixava seus pedidos escritos numa caixinha e pedia que os médicos encontrassem uma saída. Imaginava o dia em que Lívia subiria a rampa do santuário caminhando sozinha.
No hospital, a equipe propôs a dieta cetogênica: alta proporção de gorduras, restrição severa de carboidratos, usada em epilepsias de difícil controle. Rosana pesquisou, acreditou, e aprendeu a pesar cada refeição com precisão. A redução foi gradual mas real. Onde havia vinte crises pela manhã, passaram a ser cinco. E então, naquele 12 de outubro, o dia passou inteiro sem nenhuma. Rosana pediu ao marido que não comemorasse antes do anoitecer — queria ter certeza. Dali em diante, as convulsões não voltaram.
Hoje, aos 26 anos, Lívia vive em Curitiba com a família, sem convulsões há mais de duas décadas. Tem autismo nível 3 e depende de apoio para o cotidiano, mas caminha em parques, vai ao shopping, fala, interage. Rosana é cuidadosa ao falar sobre fé: acredita na intercessão, mas não acha que sua filha foi mais merecedora que outras crianças. Para ela, aquele momento era uma oportunidade de mostrar algo que pudesse ajudar outros. A vida que ela imaginou naquele santuário — a filha caminhando, vivendo — tornou-se real.
Rosana Almeida marca o 12 de outubro de 2002 como o dia que mudou tudo. Naquela data, sua filha Lívia teve a última convulsão. Até então, a menina de dois anos convulsionava até cem vezes por dia — um número que parecia impossível de suportar, mas que a família enfrentava com a rotina de hospitais, medicamentos e uma fé que não arredava.
Lívia havia nascido com síndrome de West, uma forma rara e grave de encefalopatia epiléptica que afeta bebês e interfere profundamente no desenvolvimento neurológico. Além disso, ela carregava uma deleção do braço curto do cromossomo 18, uma condição genética que multiplicava as complicações. Aos 26 anos, ela também recebeu diagnóstico de autismo nível 3 e depende de apoio para as atividades do dia a dia. Mas naquele outubro de 2002, o que importava era parar as crises que a consumiam.
Os primeiros sinais surgiram quando Lívia tinha apenas quatro meses. Rosana estava dando banho na filha quando a menina ficou vermelha, encolheu os membros e soltou um grito que a mãe descreve como se fosse explodir. O primeiro pediatra consultado atribuiu tudo a uma cólica. Levou tempo, consultas adicionais e a orientação de um neurologista para que a família descobrisse a verdade: uma convulsão, e não uma simples cólica infantil. Quando as crises se intensificaram, chegando a oitenta ou cem por dia no primeiro ano de vida, a busca por respostas se tornou obsessiva. Rosana e o marido percorreram caminhos longos, tentaram medicamentos anticonvulsivos diferentes, mas nada parecia frear aquilo.
A família é de Juiz de Fora, em Minas Gerais, mas a história começou a mudar quando encontraram informações sobre um médico ligado à Universidade de São Paulo. A indicação os levou a um neurologista especialista em epilepsia no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, a oitocentos quilômetros de distância. Passaram a fazer essa jornada regularmente, levando Lívia para consultas. Durante essas viagens, Rosana fazia questão de parar na Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Entrava no santuário, deixava seus pedidos escritos numa caixinha, pedia que a santa intercedesse junto a Jesus para que os médicos encontrassem um tratamento. Imaginava o dia em que Lívia conseguiria subir a rampa da basílica caminhando sozinha.
No hospital, a equipe propôs algo radical: a dieta cetogênica, um tratamento alimentar com proporção elevada de gorduras e restrição severa de carboidratos, usado em casos de epilepsia de difícil controle. Rosana pesquisou, encontrou histórias positivas vindas do exterior, e decidiu tentar. Lívia foi internada, monitorada com um vídeo eletroencefalograma de vinte e quatro horas, e Rosana aprendeu a preparar e pesar cada refeição conforme as orientações da equipe. As convulsões não pararam de imediato, mas a redução foi progressiva. Onde havia vinte crises pela manhã, passaram a ser cinco. A esperança voltou.
E então chegou o 12 de outubro de 2002. Rosana e o marido saíram para passear de carro no final da tarde. Ele perguntou se ela tinha reparado em algo. Ela tinha reparado — Lívia não havia convulsionado o dia inteiro — mas pediu ao marido que não falasse nada, que deixasse o dia acabar para poderem comemorar. Dali em diante, ela não convulsionou mais. A família manteve a dieta cetogênica por cerca de dois anos e meio, período em que Lívia também apresentou avanços no desenvolvimento, melhorando em fisioterapia e fonoaudiologia.
Rosana é clara ao falar sobre o papel da fé nessa história. Ela acredita na intercessão, diz que a fé move montanhas, e é verdade. Mas faz questão de esclarecer que não considera Lívia mais merecedora que outras crianças que sofrem. Para ela, aquele momento era a oportunidade de sua filha mostrar algo que pudesse ajudar outras crianças. Hoje, aos 26 anos, Lívia vive sem convulsões há mais de duas décadas. A família se mudou para Curitiba em 2022. Ela recebeu alta do tratamento, frequentou uma escola especial por um ano e meio, e agora aguarda uma vaga em um serviço voltado a pessoas com deficiência adultas. Gosta de caminhar em parques, ir ao shopping, passear. Fala, interage, embora com limitações. A vida que Rosana imaginava naquele santuário — a filha caminhando, vivendo — virou realidade.
Citações Notáveis
Eu creio na intercessão. Eu tenho fé e ela move montanhas, e é verdade— Rosana Almeida, mãe de Lívia
Pedi que Nossa Senhora pedisse a Jesus que mostrasse aos médicos da Livinha um tratamento para ela— Rosana Almeida, sobre seus pedidos na Basílica de Nossa Senhora Aparecida