António Vitorino, antigo diretor-geral da OIM, lança um aviso que transcende a política sanitária: a pandemia de Covid-19 não foi apenas uma crise de saúde, mas uma fratura civilizacional que expôs a despreparação universal e aprofundou desigualdades que persistirão por gerações. Falando no Congresso Nacional da Hotelaria em fevereiro de 2024, na Madeira, Vitorino argumenta que o mundo aprendeu — ou deveria ter aprendido — que a próxima crise exige antecipação, cooperação internacional e uma nova hierarquia de prioridades, onde a saúde é fundamento e não apêndice.
Vitorino alerta: impactos da Covid-19 são de longa duração e mundo não aceita novo confinamento
Ninguém vai aceitar que se feche o mundo outra vez
Quando Vitorino diz que ninguém vai aceitar um novo confinamento, está a falar de realidade política ou de esperança?
De ambas. Politicamente, nenhum governo conseguiria impor o que foi imposto em 2020 sem enfrentar resistência massiva. Mas há também uma verdade mais profunda: as pessoas aprenderam que o isolamento total tem custos que ninguém quer repetir.
Então a preparação que ele propõe — essa prevenção a montante — é basicamente tentar evitar que chegue ao ponto de confinamento?
Exatamente. Se conseguirmos identificar ameaças mais cedo, se tivermos sistemas de resposta rápida, talvez nunca precisemos de fechar tudo. É uma estratégia de contenção antes da explosão.
Mas ele menciona que as desigualdades foram aprofundadas. Como é que a preparação resolve isso?
Não resolve diretamente. O que ele está a dizer é que desta vez temos de ser conscientes disso. A próxima crise não pode repetir os erros de deixar grupos inteiros para trás.
A cooperação internacional que ele descreve — é realista? Os países realmente trabalham juntos em saúde?
Teoricamente sim, existem estruturas. Mas a Covid-19 mostrou que quando a crise é real, muitos países fecham-se sobre si mesmos. Vitorino está a dizer que temos de fazer melhor desta vez.
E se a próxima ameaça vier antes de estarmos prontos?
Então estaremos numa posição muito mais frágil. Por isso o tom dele é urgente. Não é um aviso distante — é um apelo para agir agora.
El Pulso
- Com 121 mil restrições de mobilidade registadas globalmente, a Covid-19 foi a primeira vez na história moderna em que o planeta inteiro literalmente parou — e nenhum país tinha um manual para reagir.
- As cicatrizes não desapareceram com o fim dos confinamentos: as desigualdades aprofundadas pela pandemia continuam a moldar sociedades e sistemas políticos em todo o mundo.
- Vitorino lança um aviso político direto: a população mundial não voltará a aceitar isolamentos totais e encerramentos económicos, tornando a próxima resposta a uma pandemia um desafio de legitimidade tanto quanto de logística.
- A cooperação internacional em saúde surge como a única via capaz de identificar ameaças antes que se tornem crises globais, mas exige vontade política que ainda está por construir.
- A prevenção a montante — antecipar problemas antes de se tornarem emergências — é apresentada como a única forma de manter mobilidade, comércio e coesão social em cenários de crise futura.
- A mensagem é inequívoca: a despreparação que foi desculpável em 2020 seria imperdonável numa próxima pandemia, e o tempo para agir é agora.
António Vitorino, antigo diretor-geral da OIM, lança um aviso que transcende a política sanitária: a pandemia de Covid-19 não foi apenas uma crise de saúde, mas uma fratura civilizacional que expôs a despreparação universal e aprofundou desigualdades que persistirão por gerações. Falando no Congresso Nacional da Hotelaria em fevereiro de 2024, na Madeira, Vitorino argumenta que o mundo aprendeu — ou deveria ter aprendido — que a próxima crise exige antecipação, cooperação internacional e uma nova hierarquia de prioridades, onde a saúde é fundamento e não apêndice.
António Vitorino, antigo diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, usou o Congresso Nacional da Associação da Hotelaria de Portugal, realizado na Madeira em fevereiro de 2024, para lançar um alerta que vai além da saúde pública. A Covid-19 foi, na sua perspetiva, um 'grande disruptor' sem precedentes — a primeira vez que o mundo inteiro parou. Os números falam por si: 121 mil restrições de mobilidade em todo o planeta. Mas o que mais preocupa Vitorino não é o passado. É o que ficou.
As consequências da pandemia estendem-se muito além dos meses de confinamento. As desigualdades que a Covid-19 aprofundou continuarão a marcar sociedades durante anos. E se há algo que distingue esta crise de outras, é a igualdade involuntária da despreparação: todos os países, ricos ou pobres, estavam igualmente desarmados. Ninguém tinha um manual. Mas essa desculpa, argumenta Vitorino, já não existe.
O mundo aprendeu — ou deveria ter aprendido. A saúde tem de ocupar o topo absoluto das prioridades internacionais, não como um item numa lista, mas como o alicerce sobre o qual tudo o resto se constrói. A cooperação entre países é essencial para identificar ameaças antes que se tornem crises globais. E a estratégia tem de ser de prevenção a montante: antecipar problemas antes que se tornem emergências, permitindo que a sociedade continue a funcionar mesmo em cenários de crise sanitária.
O que Vitorino deixa implícito é igualmente poderoso: as pessoas não voltarão a aceitar isolamentos totais e encerramentos económicos. A pressão política e social seria insustentável. Preparar-se para a próxima pandemia não é apenas uma questão técnica — é uma questão de sobrevivência política e de manutenção da confiança pública. A próxima crise pode estar mais próxima do que se pensa, e desta vez a preparação não é opcional.
António Vitorino, antigo diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, apresentou um aviso claro durante o Congresso Nacional da Associação da Hotelaria de Portugal, realizado na Madeira em fevereiro: o mundo não voltará a aceitar o que viveu entre 2020 e 2021. A pandemia de Covid-19 foi, na sua perspetiva, um "grande disruptor" — a primeira vez que o planeta inteiro literalmente parou. Os números refletem a escala: 121 mil restrições de mobilidade foram contabilizadas em todo o mundo. Mas o que preocupa Vitorino não é apenas o que já passou. É o que fica.
Os impactos da pandemia, sublinhou, estendem-se muito para além dos meses de confinamento. Do ponto de vista sanitário e político, as cicatrizes são profundas e duradouras. A Covid-19 aprofundou as desigualdades de forma que continuará a marcar sociedades nos anos vindouros. Vitorino insistiu num ponto que distingue esta crise de outras: a igualdade involuntária da despreparo. Todos os países, independentemente do seu desenvolvimento económico ou capacidade de resposta, estavam igualmente desarmados. Ninguém sabia como reagir. Ninguém tinha um manual.
Mas essa desculpa, argumenta Vitorino, já não existe. O mundo aprendeu — ou deveria ter aprendido — as lições. A próxima vez não pode ser uma repetição da primeira. Por isso, a saúde tem de estar no topo absoluto das prioridades das comunidades internacionais. Não como um item numa lista de preocupações, mas como o fundamento sobre o qual se constrói tudo o resto.
A cooperação internacional em saúde é a chave para antecipar ameaças futuras. Se os países conseguirem trabalhar juntos de forma eficaz, poderão identificar onde a próxima ameaça pode emergir antes que se torne uma crise global. Mas há um desafio político implícito nesta visão: como manter a mobilidade, o comércio, o movimento de pessoas e bens, se uma nova pandemia surgir? A resposta de Vitorino é a prevenção a montante — uma postura que antecipa problemas antes que se tornem emergências, permitindo que a sociedade continue a funcionar mesmo em cenários de crise sanitária.
O que Vitorino não diz explicitamente, mas está implícito em cada palavra, é que o mundo mudou. As pessoas não aceitarão novamente o isolamento total, os confinamentos domiciliários, o encerramento de economias inteiras. A pressão política e social seria insustentável. Portanto, a preparação não é apenas uma questão técnica ou administrativa. É uma questão de sobrevivência política e social. Os governos têm de estar prontos não apenas para responder a uma crise, mas para o fazer de uma forma que mantenha a confiança pública e a coesão social.
A mensagem final é simultaneamente um aviso e um apelo: o mundo tem agora a responsabilidade de aprender com o que viveu. Não há desculpa para ser apanhado desprevenido novamente. A próxima pandemia pode estar mais próxima do que se pensa, e desta vez, a preparação não é opcional — é imperativa.
Citas Notables
A pandemia é o grande disruptor. Pela primeira vez, o mundo literalmente parou. Todos os países estavam igualmente impreparados. Nós já não temos desculpa.— António Vitorino
A questão da saúde deve estar no topo das prioridades da comunidade— António Vitorino