'Uma nova pandemia vai acontecer, a questão é quando', alerta ex-ministra

A pandemia de Covid-19 resultou em 715 mil mortes no Brasil, com proteção inadequada da população pelo governo federal.
A próxima pandemia virá; a questão é quando estamos prontos
Trindade enfatiza que preparação global é urgente, não opcional, diante da inevitabilidade de futuras crises sanitárias.
Mark

Por que um livro agora, sete anos depois? O que mudou que permitiu falar o que não podia antes?

Mimi

Havia uma posição institucional que me constrangia. Agora posso nomear claramente: o governo federal não levou a pandemia a sério, e 715 mil brasileiros morreram por isso. A memória é ferramenta política — sem ela, repetimos os mesmos erros.

Mark

Você fala muito em preparação. Mas o mundo parece menos preparado agora do que estava em 2020. Como isso é possível?

Mimi

Porque a preparação exige investimento contínuo, confiança nas instituições, acordo internacional. Tudo isso está enfraquecido. Os EUA saíram da OMS. Os investimentos em saúde caem. Vivemos sem regras.

Mark

A dengue em áreas subtropicais — isso é um aviso?

Mimi

É mais que um aviso. É evidência de que os fatores socioambientais estão mudando o mapa das doenças. Desmatamento, aquecimento global, circulação de pessoas — tudo cria as condições para que vírus se movam para onde antes não iam. A próxima pandemia não será surpresa biológica, será consequência de escolhas que fazemos agora.

Mark

O negacionismo científico como projeto político — você acha que é reversível?

Mimi

Não é simples hesitação. É construção deliberada, com forte dimensão política. No Brasil, virou política de governo. Mas a sociedade também se movimentou durante a pandemia. Há forças em jogo. Tudo depende de escolhas que fazemos nos próximos anos.

Mark

Se você pudesse mudar uma coisa para a próxima pandemia, qual seria?

Mimi

O compartilhamento equitativo de informações e benefícios. Em 2021, dez países tinham 75% das vacinas. Isso não pode acontecer novamente. É urgente que a próxima Assembleia Mundial da Saúde complete esse acordo.

  • Uma nova pandemia é inevitável, e o mundo está menos preparado do que deveria: investimentos em saúde caem, países se retiram da OMS e conflitos globais fragilizam a capacidade de resposta coletiva.
  • O Brasil pagou 715 mil vidas pela desproteção do governo federal durante a Covid-19, e a vulnerabilidade estrutural ficou exposta — o país não conseguia produzir nem respiradores, nem máscaras.
  • O negacionismo científico deixou de ser hesitação individual e se tornou projeto político institucionalizado, distorcendo decisões de saúde pública com argumentos falsos e colocando vidas em risco.
  • Fatores socioambientais como desmatamento e aquecimento global ampliam o risco de novas epidemias — a dengue avançando para áreas subtropicais é o sinal mais visível dessa tendência.
  • Um acordo internacional sobre pandemias foi aprovado, mas sua parte mais crítica — o compartilhamento equitativo de informações e vacinas — ainda está pendente, repetindo o risco da desigualdade que marcou a Covid-19.
  • A saída apontada combina memória, ciências sociais, produção local de tecnologias em saúde e escuta ativa dos territórios — uma preparação que precisa ser política, científica e humana ao mesmo tempo.

Nísia Trindade, ex-presidente da Fiocruz e ex-ministra da Saúde, lança um livro sobre a pandemia de Covid-19 não como exercício de nostalgia, mas como ato de responsabilidade coletiva: a próxima pandemia não é hipótese, é certeza. Diante de 715 mil mortes no Brasil, do avanço do negacionismo científico e de um mundo que desinveste em saúde pública, ela convoca a memória como instrumento de preparação — porque esquecer, neste caso, tem preço em vidas.

Nísia Trindade dirigiu a Fiocruz durante os anos mais duros da pandemia. Agora, com distância institucional e um livro nas mãos, ela diz o que antes não podia: o Brasil perdeu 715 mil pessoas em grande parte por falhas de resposta do governo federal, e a memória desse trauma não pode ser desperdiçada. Escrever sobre a Covid-19, para ela, é um ato político e ético — porque sociedades que esquecem seus traumas estão condenadas a repeti-los.

A próxima pandemia, avisa Trindade, não é questão de possibilidade, mas de tempo. As condições que a tornam provável já estão em curso: desmatamento, aquecimento global e a circulação acelerada de pessoas e mercadorias criam o ambiente ideal para que doenças infecciosas se transformem em crises globais. A dengue chegando a regiões subtropicais é um exemplo concreto dessa mudança de padrão.

O Brasil avançou em algumas frentes desde a pandemia — vigilância em saúde, imunização, produção farmacêutica —, mas uma avaliação da OMS também identificou pontos críticos, como a vulnerabilidade desproporcional das mulheres e a falta de integração de dados. No cenário internacional, o quadro é ainda mais frágil: países se retiram de organismos multilaterais, investimentos em saúde caem e um acordo global sobre pandemias foi aprovado sem sua parte mais essencial — o mecanismo que garantiria acesso equitativo a vacinas e informações sobre novos vírus.

Para Trindade, um dos maiores obstáculos é o negacionismo científico, que no Brasil ganhou força institucional — manifesto na defesa da cloroquina quando sua ineficácia já era conhecida. Não se trata de dúvida legítima, mas de um projeto político que fabrica controvérsias onde não existem. Enfrentá-lo exige mais do que ciência biomédica: exige ciências sociais, antropologia, escuta dos territórios. Países como Reino Unido e França já integram sociólogos e antropólogos em seus programas de vacinação — porque uma vacina sem adesão da população perde sua razão de existir.

A pandemia aprofundou desigualdades de renda, raça e educação, mas também mostrou a sociedade civil capaz de se articular. Trindade vê nessa combinação — políticas públicas robustas e iniciativas que emergem dos próprios territórios — a melhor esperança de que, quando a próxima crise chegar, o mundo esteja um pouco mais preparado.

Nísia Trindade, que dirigiu a Fiocruz enquanto o coronavírus devastava o Brasil, está lançando um livro sobre a pandemia de Covid-19 — e sua mensagem é clara: outra virá. A questão não é se, mas quando. Em conversa com O GLOBO, ela reflete sobre as 715 mil vidas perdidas no país, as falhas de resposta do governo federal e o que precisa mudar para que o mundo esteja melhor preparado na próxima crise sanitária.

O livro, diz ela, existe porque a memória importa. Quando uma sociedade passa por um trauma como uma pandemia, é fácil deixar as lições caírem no esquecimento — e perigoso. Estudos mostram que a qualidade da resposta governamental faz diferença real na quantidade de pessoas que morrem. No Brasil, as ações de proteção não foram adequadas, e o custo foi medido em centenas de milhares de vidas. Trindade não pode ter dito tudo o que pensava naquela época, dada sua posição institucional. Agora, pelo livro, pode.

Mas a próxima pandemia não virá do nada. Trindade aponta para as raízes: fatores socioambientais que criam as condições para que doenças infecciosas se transformem em crises globais. O desmatamento, o aquecimento global, a forma como as pessoas e mercadorias circulam pelo mundo — tudo isso interfere. A dengue oferece um exemplo vivo. Epidemias que antes ocorriam apenas em regiões tropicais agora aparecem em áreas subtropicais. O padrão está mudando, e o vírus está se movimentando.

A Fiocruz criou um memorial da pandemia de Covid-19 no Rio de Janeiro e iniciou ações de preparação para a próxima emergência. Houve investimentos significativos em vigilância do sistema de saúde, no Programa Nacional de Imunizações e no complexo industrial farmacêutico brasileiro. A pandemia expôs uma vulnerabilidade profunda: o Brasil não conseguia produzir nem mesmo itens simples como respiradores e máscaras, muito menos tecnologias complexas como vacinas. Uma avaliação da Organização Mundial da Saúde reconheceu avanços em várias áreas, mas também apontou pontos críticos — a vulnerabilidade desproporcional das mulheres, a falta de integração de dados, lacunas que precisam ser fechadas.

O mundo atual, porém, oferece pouco conforto. Como observou o embaixador Celso Amorim, vivemos numa era sem regras. Os investimentos em saúde estão caindo. Conflitos globais impactam fortemente a capacidade de resposta. Países como os Estados Unidos se retiraram da OMS. Nesse contexto frágil, um acordo internacional sobre pandemias foi aprovado, mas sua parte mais substantiva ainda está pendente — exatamente aquela que trata do compartilhamento de informações e benefícios, garantindo que todos os países tenham acesso a tratamentos e dados sobre novos vírus. Trindade considera urgente que a próxima Assembleia Mundial da Saúde complete esse quadro.

A razão é histórica. Durante a Covid-19, a ciência desenvolveu vacinas seguras e eficazes que salvaram vidas. Mas a distribuição foi profundamente desigual. Em setembro de 2021, apenas dez países concentravam 75% das doses aplicadas. O Brasil assumiu a agenda de pensar como atuar melhor em saúde global, fortalecendo a produção local e regional de vacinas, medicamentos e tecnologias. São caminhos que precisam ser trilhados para que o mundo chegue melhor preparado à próxima crise.

Mas há um obstáculo que Trindade vê como fundamental: o negacionismo científico. Não é simplesmente hesitação vacinal ou dúvida — é um projeto político que busca negar descobertas científicas com base em argumentos falsos, como se houvesse lados opostos numa questão de saúde pública. Isso é inédito na história brasileira. Desde Oswaldo Cruz e a revolta da vacina, houve momentos de desconfiança na imunização, mas nunca um projeto político estruturado como vemos hoje. No Brasil, infelizmente, isso apareceu como política de governo — na indicação da cloroquina, por exemplo, quando era sabidamente ineficaz. É um fenômeno mundial, mas aqui ganhou força institucional.

Para enfrentar isso, Trindade defende a interdisciplinaridade. Ela tem 40 anos de trabalho em saúde pública na Fiocruz, e vê nas Ciências Sociais uma ferramenta essencial. Desde o pós-Segunda Guerra, sociólogos e antropólogos trabalham em programas de saúde, não apenas com conhecimento biomédico, mas com compreensão profunda da sociedade. Isso é absolutamente necessário na vacinação: pode-se desenvolver uma ótima vacina, mas sem adesão da população, ela perde sua finalidade. Países como Reino Unido e França já integram sociólogos e antropólogos em seus programas. Essa abordagem é cada vez mais urgente num mundo que envelhece, que nega a ciência por razões políticas, que muda rapidamente em tecnologia e comunicação.

Por fim, Trindade insiste que a pandemia não afetou todos igualmente. Há desigualdades de renda, educação, étnico-raciais que a crise aprofundou. Mas também viu a sociedade se mover, movimentos sociais se articularem. As políticas públicas são importantes, mas ela defende uma via de mão dupla — escutando também as iniciativas e propostas que vêm dos vários territórios do país. É nessa combinação que reside a esperança de estar melhor preparado quando a próxima pandemia chegar.

A memória é fundamental quando passamos por um processo como a pandemia. Está respaldado em vários estudos que as ações de governo fizeram diferença.
— Nísia Trindade
O negacionismo científico é um projeto que busca negar descobertas científicas com base em falsos argumentos, como se houvesse lados opostos numa política de saúde pública.
— Nísia Trindade
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