Lottenberg afirma que fará gestão técnica pautada em ciência, mesmo que contrarie base antivacina de Flávio, e critica falta de execução de políticas de saúde digital do governo Lula. Aliados de Flávio veem indicação como estratégia de blindar campanha contra críticas ao negacionismo de Jair na pandemia, mas admitem que função pode ser temporária e voltada apenas à campanha.
Indicado para Saúde por Flávio trata negacionismo de Bolsonaro na pandemia como 'capítulo superado'
Fui criado na evidência, sou médico. Não vou romper com meus princípios.
Por que a indicação de um médico que criticou Bolsonaro na pandemia é vista como estratégia para blindar a campanha de Flávio?
Porque Lottenberg representa competência técnica e credibilidade científica — exatamente o oposto do que marcou a gestão de Jair. Ao indicá-lo, Flávio sinaliza que não seguirá o mesmo caminho negacionista.
Mas o próprio Lottenberg diz que a função pode ser temporária e voltada apenas à campanha. Isso não esvazia a promessa?
Ele promete gestão baseada em ciência, mas a base de Flávio é antivacina. Como resolve isso?
Ele fala em diálogo e convencimento, não imposição. Diz que pode trabalhar com pessoas que pensam diferente, desde que use a melhor ciência.
O problema é que diálogo pressupõe que ambos os lados estejam abertos a evidências. Se a base rejeita vacinação, como convence sem ceder?
Ele critica a Secretaria de Saúde Digital do governo Lula. Isso é crítica legítima ou posicionamento político?
Ele reconhece que a proposta foi adequada, mas questiona a execução. Diz que pouco se vê dela acontecendo no dia a dia após quatro anos.
Mas ele não apresenta dados sobre o que não funcionou. É uma crítica genérica que qualquer opositor faria. Precisaríamos de números para avaliar.
Sobre vacinação infantil contra Covid, ele diz que "não foi superado" mas será enfrentado "no momento certo". O que significa isso?
Significa que reconhece o problema, mas não promete ação imediata. Talvez espere estabilização da situação ou mudança de contexto político.
Isso é vago demais. "Momento certo" pode significar nunca. E os índices continuam baixos — qual é o custo de esperar?
Ele foi secretário municipal de Saúde de São Paulo em 2005. Por que isso importa?
Mostra experiência em gestão pública, não apenas privada. Mas também mostra que viu a atenção básica estagnada — e agora, 20 anos depois, diz que continua igual.
Exatamente. Se ele estava lá em 2005 e vê a mesma coisa agora, qual é sua responsabilidade nessa continuidade? Não fica claro.
A indicação é firme ou pode mudar se Flávio vencer?
Aliados admitem que pode ser temporária. Outro nome poderia ser indicado após a vitória, dependendo de pressões políticas.
Então a promessa de gestão técnica pode desaparecer assim que a campanha terminar. Isso muda tudo o que ele está dizendo agora.
Il Polso
- Claudio Lottenberg, 66 anos, oftalmologista indicado para Ministério da Saúde em eventual governo de Flávio Bolsonaro
- Foi secretário municipal de Saúde de São Paulo em 2005 e presidiu Einstein Hospital Israelita
- Aliados de Flávio admitem que função pode ser temporária e voltada apenas à campanha
- Índices de vacinação contra Covid, especialmente em crianças, continuam baixos
Lottenberg afirma que fará gestão técnica pautada em ciência, mesmo que contrarie base antivacina de Flávio, e critica falta de execução de políticas de saúde digital do governo Lula. Aliados de Flávio veem indicação como estratégia de blindar campanha contra críticas ao negacionismo de Jair na pandemia, mas admitem que função pode ser temporária e voltada apenas à campanha.
Claudio Lottenberg, oftalmologista indicado para ministério da Saúde em eventual governo de Flávio Bolsonaro, trata a condução da pandemia por Jair Bolsonaro como "capítulo superado" e promete gestão técnica baseada em evidências científicas.
Claudio Lottenberg, oftalmologista de 66 anos, foi indicado para comandar o Ministério da Saúde caso Flávio Bolsonaro vença a disputa presidencial. Em entrevista exclusiva à Folha, ele prefere caracterizar a condução da pandemia de Covid pela gestão de Jair Bolsonaro — marcada pelo negacionismo científico — como um "capítulo superado". A escolha revela uma tensão fundamental: Lottenberg promete uma gestão rigorosamente técnica, baseada em evidências científicas, mesmo que isso contrarie segmentos da base aliada de Flávio que mantêm discurso antivacina.
O médico já havia sido cotado para a pasta em 2020, mas depois teceu críticas à forma como o então presidente conduziu a crise sanitária. Agora, ele afirma que não abrirá mão de fazer uma gestão pautada na ciência, ainda que isso gere atrito político. Quando questionado sobre a vacinação e o legado negacionista de Jair, Lottenberg reconhece que "não foi superado" — os índices de vacinação contra a Covid, especialmente em crianças, continuam baixos — mas insiste que o tema será enfrentado "no momento certo". Sua postura sugere uma tentativa de equilibrar compromisso científico com realismo político.
Aliados de Flávio veem a indicação de Lottenberg como estratégia para blindar a campanha contra críticas pela conduta negacionista de Jair durante a pandemia. Porém, o entorno do senador admite que a função pode ser apenas temporária e voltada especificamente à campanha. Outro nome poderia ser indicado ao comando da Saúde em caso de vitória do candidato do PL. A campanha de Flávio foi procurada para comentar, mas não se manifestou. Desde 1º de setembro, Lottenberg está licenciado da presidência do Conselho Deliberativo do Einstein Hospital Israelita — medida adotada pela instituição para preservar sua neutralidade política diante da indicação.
Em suas respostas sobre prioridades de saúde, Lottenberg enfatiza gestão técnica e uso eficiente de recursos. Ele critica a Secretaria de Informação e Saúde Digital do governo Lula, afirmando que, apesar de existir há quase quatro anos, pouco se vê dela acontecendo no dia a dia. Propõe fortalecer a atenção básica, organizar melhor a atenção especializada por região e fazer os dados clínicos funcionarem de forma integrada — incluindo prontuário único e melhor troca de informações entre serviços. Sobre o orçamento, nega que haja intenção de corte de recursos na Saúde, argumentando que o problema não é falta de dinheiro, mas utilização inadequada.
Quanto a temas sensíveis como direitos sexuais, reprodutivos e aborto legal, Lottenberg defende "maturidade" e "diálogo" com a base conservadora do Congresso, sem impor posições, mas buscando convencer com base científica. Usa como exemplo uma paciente Testemunha de Jeová que precisava de orientação sobre riscos cirúrgicos, argumentando que o diálogo não significa abandonar a ciência. Quando pressionado sobre se abriria mão de atuar fora das evidências científicas, é categórico: "Fui criado na evidência, sou médico. Essa é a minha vida."
Sobre a saúde mental, identifica-a como gargalo no SUS que tende a piorar com novos elementos como as apostas esportivas. Reconhece que a pandemia quebrou tabu sobre depressão e ansiedade, mas aponta que clínicos precisam de mais conhecimento sobre o tema — pacientes deprimidos ficam internados muito mais tempo que não deprimidos com a mesma doença. Sobre envelhecimento populacional, sugere que é pauta para toda a sociedade, envolvendo relações entre ministérios e questões de seguridade social, não apenas saúde.
Quando perguntado sobre a diferença entre sua eventual gestão e os planos de Lula e Flávio — que têm pontos parecidos na Saúde — Lottenberg aponta para "capacidade executiva". Critica a falta de "visão diagnóstica adequada do Brasil", dizendo que governos tratam sintomas em vez de causas. Sobre as filas de espera, afirma que são consequência de infraestrutura que funciona mal e que a atenção básica atual é igual à que via 20 anos atrás, quando era secretário municipal de Saúde de São Paulo em 2005, na gestão de José Serra. Defende regionalização da saúde, mas ressalva que precisa ser construída em pacto entre ministério, estados e municípios, com diálogo com Conass e Conasems, senão "vira disputa, e não sinergia".
Sobre a promessa de Flávio de levar o "padrão Einstein" ao SUS, Lottenberg esclarece que não significa replicar tudo que o hospital faz, mas sim adotar alto padrão de qualidade, segurança, equidade e acolhimento — fazer algo de que as pessoas tenham orgulho e vejam seus problemas de fato trabalhados. A indicação permanece envolta em incerteza: promessa de rigor técnico em um contexto de pressões políticas que historicamente minaram a ciência na saúde pública brasileira.
Citazioni salienti
Nesses momentos, as pessoas nem sempre têm as melhores ferramentas para tomar decisões. Eu prefiro deixar isso como capítulo superado.— Claudio Lottenberg, sobre a condução da pandemia por Jair Bolsonaro
Não vou romper com os meus princípios, com aquilo em que acredito. E as pessoas que me convidam sabem disso.— Claudio Lottenberg, sobre compromisso com evidências científicas