81% dos idosos de 60-69 anos possuem celular no Brasil, com disseminação acelerada pós-pandemia quando aparelhos se tornaram essenciais para serviços bancários e governamentais. Uso excessivo causa redução do sono, depressão, ansiedade e aumenta risco de Alzheimer; idosos também ficam vulneráveis a fake news, cassinos online e quedas físicas enquanto usam o aparelho.
Vício de idosos em celular eleva risco de doenças cognitivas e golpes digitais
O celular na mão se torna uma bomba quando há queda de cognição
Por que esse problema com idosos e celulares surgiu agora, de repente? Eles não usavam tecnologia antes.
Não foi de repente. A pandemia acelerou tudo. De repente, serviços essenciais — banco, governo — só funcionavam pelo celular. Idosos que resistiam tiveram que aprender. E quando aprenderam, encontraram plataformas deliberadamente projetadas para viciar.
Mas a pesquisa mostra que 81% dos idosos de 60 a 69 anos têm celular. Isso é bastante disseminado. Quantos deles realmente têm dependência problemática? O artigo fala de casos, mas não dá números sobre a prevalência real.
Verdade. Sabemos que o ambulatório está recebendo mais idosos, mas não temos dados sobre quantos idosos brasileiros enfrentam dependência clínica. É um sinal de alerta, não uma medição precisa.
E quanto aos danos? O artigo conecta uso de celular a Alzheimer. Essa conexão é direta?
Não é tão direto assim. O que os especialistas dizem é que uso excessivo causa depressão, ansiedade, reduz sono — e esses fatores aumentam o risco de declínio cognitivo e Alzheimer. É uma cadeia causal, não uma causa direta. Importante distinguir.
Mas a cadeia é real. Um idoso isolado, deprimido, dormindo mal — sim, isso aumenta risco de Alzheimer. O celular não causa Alzheimer diretamente, mas pode criar as condições que aumentam o risco.
E os golpes? Quantos idosos estão perdendo dinheiro?
O artigo diz que histórias de idosos caindo em golpes e perdendo aposentadorias "tornaram-se cada vez mais comuns". Mas não há números. É uma observação qualitativa de profissionais que trabalham com idosos, não uma estatística.
Mesmo assim, a vulnerabilidade é real. Um idoso com declínio cognitivo, passando horas em plataformas que exploram a solidão — sim, fica vulnerável a fake news e cassinos online.
Então qual é a solução? Tirar o celular?
Não. O exemplo de Conceição mostra que é possível usar o celular de forma saudável se você tem atividades presenciais, sociais, que estruturam seu dia. O celular vira ferramenta, não protagonista.
E a recomendação dos especialistas é clara: atividades presenciais e coletivas. Mas isso pressupõe que existem essas atividades disponíveis, que o idoso tem mobilidade, que há ONGs e núcleos de convivência na região. Nem todo idoso tem acesso a isso.
Verdade. O artigo mostra casos de sucesso em São Paulo, com acesso a grupos, cursos, saraus. Mas e o idoso isolado em uma cidade pequena, ou com mobilidade reduzida? A solução não é universal.
Le Pouls
- 81% dos idosos de 60-69 anos possuem celular no Brasil (TIC Domicílios 2025)
- Homem de 70 anos perdeu quantias significativas em compras virtuais no TikTok
- Uso excessivo causa redução de sono, depressão, ansiedade e aumenta risco de Alzheimer
- Ambulatório de dependências tecnológicas do Hospital das Clínicas registra aumento crescente de pacientes idosos
- Idosos caminham com celular na mão, aumentando risco de quedas físicas
81% dos idosos de 60-69 anos possuem celular no Brasil, com disseminação acelerada pós-pandemia quando aparelhos se tornaram essenciais para serviços bancários e governamentais. Uso excessivo causa redução do sono, depressão, ansiedade e aumenta risco de Alzheimer; idosos também ficam vulneráveis a fake news, cassinos online e quedas físicas enquanto usam o aparelho.
Dependência de smartphones entre idosos cresce silenciosamente, causando declínio cognitivo, depressão e vulnerabilidade a golpes. Especialistas alertam que plataformas exploram a solidão e o isolamento dessa população.
Um homem de 70 anos chegou ao ambulatório de dependências tecnológicas do Hospital das Clínicas da FMUSP carregando uma história que ninguém esperava ouvir com tanta frequência. Havia perdido quantias consideráveis de dinheiro no TikTok, viciado em comprar presentes virtuais para influenciadores que fingem ser personagens de videogames durante transmissões ao vivo. Seu caso não era isolado. Enquanto especialistas e famílias focavam a atenção no uso excessivo de tecnologia entre crianças e adolescentes, um problema social grave emergia nas sombras: o vício de idosos em smartphones.
Os aparelhos se espalharam rapidamente entre os mais velhos. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, 81% das pessoas entre 60 e 69 anos possuem um celular. Entre 70 e 79 anos, esse número cai para 66%, e entre os com 80 anos ou mais, chega a 35%. Nas classes sociais mais altas, a penetração é ainda maior: 96% na faixa de 60 a 69 anos na classe AB. A disseminação acelerou especialmente após a pandemia, quando os smartphones se tornaram ferramentas essenciais não apenas para comunicação, mas para acessar serviços bancários e plataformas governamentais como o Gov.br. O que começou como resistência à novidade transformou-se em dependência quase inevitável.
O problema reside na vulnerabilidade específica dessa população. Enquanto crianças e adolescentes ainda estão em desenvolvimento cerebral e emocional, idosos enfrentam desafios distintos: isolamento, tempo ocioso abundante e, frequentemente, declínio cognitivo. Quando a capacidade de detectar perigos diminui, um smartphone na mão se torna, nas palavras de especialistas, uma bomba. Rodrigo Machado, psiquiatra coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP, explica que o aparelho apresenta uma contradição fundamental. Aprender a usar novas ferramentas pode estimular conexões cerebrais e proteger contra declínio cognitivo. Mas as plataformas e aplicativos foram deliberadamente projetados para capturar atenção, e muitos exploram especificamente a solidão dos idosos. Jogos aparentemente inofensivos como Candy Crush funcionam como máquinas caça-níqueis disfarçadas: começam fáceis, ficam progressivamente mais difíceis, e quando o usuário se frustra por não avançar, a plataforma oferece "facilitadores" pagos. Cassinos online e redes sociais seguem a mesma lógica predatória.
Os danos acumulam-se rapidamente. Uso excessivo de smartphones reduz a qualidade e a duração do sono, alimenta depressão e ansiedade, aumenta o estresse geral. Esses fatores, por sua vez, elevam significativamente o risco de perda cognitiva e até mesmo do surgimento de Alzheimer. Há também o risco físico concreto: idosos caminham pelas ruas olhando para a tela, com uma mão ocupada, reduzindo sua capacidade de se equilibrar ou se apoiar em caso de queda. Jeane Silva, psicóloga especialista em gerontologia com 49 anos, já presenciou idosos caindo na rua enquanto usavam o celular. A conexão social online frequentemente substitui a presencial, mantendo pessoas dentro de casa quando deveriam estar se movimentando, socializando, participando de atividades que as mantêm cognitivamente ativas.
Manuela, 92 anos, exemplifica essa transformação. Professora aposentada, ela costumava colocar uma caixa no meio da sala durante festas familiares para que filhos, netos e bisnetos guardassem seus celulares. Adorava sair com amigas. Mas quando desenvolveu dor no joelho, começou a se comunicar com elas principalmente pelo telefone. Agora joga até de madrugada, e o smartphone ganhou até uma bolsinha de crochê feita por ela, presa ao andador. Jeane Silva, que participa de vários grupos de idosos em aplicativos de mensagem, relata ver pessoas online até 1h, 2h da madrugada fazendo postagens, e às 4h ou 5h da manhã já enviando "bom dia" no WhatsApp. As histórias de idosos caindo em golpes e perdendo aposentadorias inteiras em cassinos online tornaram-se cada vez mais comuns.
O ambulatório de dependências tecnológicas do Hospital das Clínicas registra essa mudança. No início, os pacientes eram principalmente jovens. Depois vieram adultos. Mais recentemente, a proporção de idosos aumentou significativamente. Famílias chegam preocupadas com avós deprimidos e ansiosos, incapazes de largar o celular. Machado relata ter recebido o filho de uma idosa que não conseguia controlar o uso do aparelho e queria orientação sobre como intervir.
A solução não é simplesmente confiscar o dispositivo. Machado recomenda que as famílias respeitem a autonomia ao máximo, dialoguem sobre os perigos reais e busquem orientação profissional. Quando há perda cognitiva que configure risco, algum controle parental pode ser necessário. A recomendação geral é estimular atividades presenciais e coletivas. Uma idosa que enfrentava ansiedade começou a fazer hidroginástica e dança, passou a se socializar, e o celular ganhou um papel saudável em sua vida em vez de ser o protagonista. Conceição Costa do Carmo, 74 anos, demonstra esse equilíbrio possível. Ativa em grupos de WhatsApp e redes sociais, ela não abandona atividades presenciais organizadas por ONGs, participa de grupos de convivência, faz atividade física, anda de bicicleta e já lançou dois livros de poesia através do grupo Sarau 60+. "A gente resolve muita coisa pelo celular, mas os saraus são presenciais", diz. "Gosto do cara a cara, e não posso ficar no celular até tarde porque acordo cedo para as atividades." Seu exemplo sugere que a questão não é eliminar a tecnologia, mas reintegrá-la em uma vida que permanece fundamentalmente ancorada no mundo presencial.
Citations marquantes
O processo de aprender algo novo auxilia na proteção contra o declínio cognitivo do idoso, porque estimula novas conexões cerebrais. Nesse sentido, o esforço para lidar com as novas ferramentas do celular pode ser algo positivo.— Rodrigo Machado, psiquiatra coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP
Os aspectos positivos estão sendo subvertidos por plataformas e aplicativos que levam rapidamente ao adoecimento.— Rodrigo Machado