No cruzamento entre ciência e saúde pública, pesquisadores do Incor e da USP propõem uma mudança silenciosa, mas profunda, na lógica da vacinação: em vez de apenas proteger o organismo contra a doença grave, bloquear o vírus já na porta de entrada — o nariz. A vacina em spray contra a Covid-19, ainda aguardando autorização da Anvisa para testes humanos, carrega consigo não apenas uma promessa terapêutica, mas uma reflexão sobre o que significa realmente interromper uma cadeia de transmissão. Por trás da inovação, porém, persiste uma questão mais antiga: a capacidade do Brasil de transformar o
Vacina em spray contra Covid-19 desenvolvida por USP e Incor deve chegar ao mercado até 2023
O vírus não penetra no organismo e não dá nem infecção nem doença
Por que uma vacina em spray seria melhor que a injeção que já temos?
Porque a injeção protege você de ficar muito doente, mas não impede que o vírus viva no seu nariz. Você pode estar vacinado e ainda transmitir para outras pessoas. O spray fortalece a defesa exatamente onde o vírus entra.
Então é como colocar um guarda na porta em vez de dar um colete à prova de balas?
Exatamente. O colete protege seu corpo. O guarda na porta impede que o inimigo entre.
E como eles vão adaptar isso para novas variantes?
Já desenharam a tecnologia para ser modificável. Quando uma nova variante aparecer, não precisam reinventar tudo — ajustam a fórmula e pronto.
Qual é o maior problema agora?
Dois, na verdade. Primeiro, precisam da aprovação da Anvisa para testar em pessoas. Segundo, o Brasil é bom em descobrir coisas, mas ruim em transformar descobertas em remédios que as pessoas possam comprar.
Então essa vacina pode ficar só no papel?
Pode. A menos que a universidade e a indústria aprendam a conversar melhor.
O Pulso
- Vacinas intramusculares protegem contra doença grave, mas deixam o vírus livre para se instalar nas mucosas — e ser transmitido por quem já está vacinado.
- A vacina em spray ataca esse ponto cego ao fortalecer a imunidade local no nariz e na boca, onde o coronavírus tenta sua primeira entrada.
- A tecnologia foi desenhada para se adaptar a novas variantes sem recomeçar do zero, tornando a plataforma potencialmente durável frente a mutações futuras.
- O projeto aguarda aprovação da Anvisa para avançar a testes em humanos — um passo incerto que define se o imunizante pode chegar ao mercado até 2023.
- O pesquisador Jorge Kalil alerta para um problema estrutural: o Brasil descobre muito, mas converte pouco em produtos reais, preso na lacuna entre universidade e indústria.
No cruzamento entre ciência e saúde pública, pesquisadores do Incor e da USP propõem uma mudança silenciosa, mas profunda, na lógica da vacinação: em vez de apenas proteger o organismo contra a doença grave, bloquear o vírus já na porta de entrada — o nariz. A vacina em spray contra a Covid-19, ainda aguardando autorização da Anvisa para testes humanos, carrega consigo não apenas uma promessa terapêutica, mas uma reflexão sobre o que significa realmente interromper uma cadeia de transmissão. Por trás da inovação, porém, persiste uma questão mais antiga: a capacidade do Brasil de transformar o que descobre em algo que chega às mãos das pessoas.
Pesquisadores do Instituto do Coração e da Universidade de São Paulo estão desenvolvendo uma vacina contra a Covid-19 que não é injetada, mas pulverizada diretamente no nariz. A ideia parte de uma limitação reconhecida das vacinas tradicionais: elas protegem contra a doença grave, mas não impedem que o vírus se instale nas mucosas nasais e bucais. Isso significa que uma pessoa vacinada pode, sem saber, carregar e transmitir o vírus a outros.
O pesquisador Jorge Kalil, do Incor, explica que a vacina em spray fortalece o sistema imunológico exatamente no ponto de entrada do vírus. Se a defesa local for suficientemente robusta, o vírus não consegue se estabelecer — e sem infecção, não há transmissão. A tecnologia também foi desenvolvida com flexibilidade: pode ser adaptada quando novas variantes surgirem, sem necessidade de reconstruir a plataforma do zero.
O principal obstáculo imediato é a autorização da Anvisa para iniciar testes em seres humanos. Kalil acredita que, dependendo de como os próximos passos se desenrolarem, o imunizante poderia estar disponível até 2023 — um prazo ambicioso e ainda incerto.
Além do desafio regulatório, o pesquisador aponta um problema mais amplo: o Brasil tem histórico de realizar descobertas científicas relevantes, mas raramente as transforma em produtos que chegam ao mercado. A distância entre o que é desenvolvido nas universidades e o que a indústria consegue levar adiante representa um gargalo que, se não enfrentado, pode deixar inovações promissoras restritas ao papel enquanto outros países as concretizam.
Pesquisadores do Instituto do Coração e da Universidade de São Paulo estão desenvolvendo uma vacina contra a Covid-19 que não será injetada no braço, mas pulverizada no nariz. O projeto representa uma mudança fundamental na forma como os imunizantes poderiam funcionar — não apenas protegendo contra a doença, mas bloqueando a infecção no ponto onde o vírus primeiro tenta entrar no corpo.
Jorge Kalil, pesquisador do Incor, explica o raciocínio por trás da inovação com clareza: as vacinas intramusculares tradicionais protegem contra a doença grave, mas nem sempre impedem que o vírus se instale nas mucosas do nariz e da boca. Uma pessoa completamente vacinada pode estar carregando o vírus nessas regiões e transmitindo-o para outras sem saber. A vacina em spray muda essa equação ao fortalecer o sistema imunológico localmente, exatamente onde o vírus tenta penetrar. Se o sistema de defesa estiver suficientemente robusto naquele ponto, o vírus não consegue estabelecer infecção — e sem infecção, não há transmissão.
O que torna o projeto particularmente inteligente é sua flexibilidade. Os pesquisadores desenvolveram a tecnologia de forma que possa ser modificada quando novas variantes do coronavírus surgirem em circulação. Não seria necessário começar do zero a cada mutação; a plataforma já está construída para se adaptar.
Mas há um obstáculo imediato no caminho. A pesquisa aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para avançar para testes em seres humanos. Kalil não consegue prever com precisão quando essa aprovação chegará, mas acredita que o imunizante poderia estar disponível no mercado até 2023 — um prazo ambicioso que depende de como os próximos passos se desenrolarem.
O pesquisador também toca em um problema maior que vai além dessa vacina específica. O Brasil, segundo ele, tem um histórico de fazer grandes descobertas científicas mas transformar muito poucas delas em produtos reais. A lacuna existe entre o que é desenvolvido nas universidades e o que a indústria consegue levar adiante. Sem uma comunicação mais forte entre esses dois mundos, inovações promissoras podem ficar presas no papel enquanto outros países as transformam em medicamentos que chegam às pessoas.
Citações Notáveis
As vacinas protegem contra a doença, mas nem sempre protegem contra a infecção no nariz. Mesmo vacinado, posso estar com o vírus no nariz e na boca e estar transmitindo para outras pessoas.— Jorge Kalil, pesquisador do Incor
O Brasil já fez grandes descobertas e fez pouquíssimos produtos, porque ainda não existe uma boa comunicação entre o que nós fazemos na Universidade com a ciência e o que é industrializado depois.— Jorge Kalil