Num momento em que a guerra comercial entre Washington e Ottawa redefine alianças e dependências, Donald Trump anunciou um 'acordo massivo' para importar potássio bielorrusso a preços mais baixos do que os canadianos — apresentando-o como uma vitória para os agricultores norte-americanos. O paradoxo revelou-se quase imediatamente: horas antes, o próprio Lukashenko admitira não ter volumes disponíveis para os mercados ocidentais. Entre sanções europeias, rotas bloqueadas e contratos já comprometidos, o anúncio ilumina menos um negócio consumado do que a geometria frágil das aproximações geopolí
Trump anuncia acordo de potássio com Bielorrússia, mas Lukashenko diz que não tem produto
O potássio parece ter ficado preso no porto
Porque é que Trump anuncia um acordo se a Bielorrússia não tem potássio para vender?
Porque o anúncio não é realmente sobre potássio. É sobre reduzir a dependência do Canadá numa altura de guerra comercial. Trump está a sinalizar que tem alternativas.
Mas espera — Lukashenko disse que não tem volumes disponíveis. Isso é uma negação clara ou apenas uma limitação temporária?
É uma negação clara. A produção está comprometida com contratos existentes. Não é uma questão de "talvez no futuro".
E quanto aos agricultores norte-americanos que Trump diz que vão beneficiar?
Aí está o problema. Um analista da StoneX diz que os EUA não têm dificuldades em encontrar potássio agora. As maiores necessidades são em azoto e fosfato.
Portanto, o anúncio é mais político do que prático?
Exatamente. É sobre reposicionar a Bielorrússia como parceira comercial e pressionar o Canadá. O potássio é quase um pretexto.
E a logística? Como é que o potássio chegaria aos EUA?
Aí está outro problema. A Bielorrússia não tem acesso ao mar. Teria de passar por portos russos. E a Lituânia está contra qualquer flexibilização das sanções europeias.
Portanto, mesmo que houvesse potássio disponível, os custos de transporte poderiam tornar o negócio economicamente inviável?
Sim. Os custos pelo Báltico e depois pelo Atlântico poderiam ser proibitivos face ao preço actual do produto.
Então isto é apenas um anúncio vazio?
Não é vazio — tem consequências reais. Sinaliza uma aproximação entre Trump e Lukashenko, e pressiona a Europa a reconsiderar as sanções. Mas como negócio de potássio, é mais ficção do que realidade.
O Pulso
- Trump proclamou um 'acordo massivo' de potássio com a Bielorrússia na Truth Social, mas Lukashenko admitiu horas antes que Minsk não tem volumes disponíveis para o Ocidente — criando uma contradição pública embaraçosa.
- O Canadá forneceu 85% do potássio importado pelos EUA em 2025, mas tarifas de 50% aplicadas desde agosto tornaram urgente encontrar um fornecedor alternativo numa guerra comercial que se agrava.
- As sanções internacionais continuam a bloquear as exportações bielorrussas, a Lituânia opõe-se a qualquer flexibilização europeia, e a única rota viável passa por portos russos — tornando a logística um obstáculo potencialmente fatal.
- Analistas apontam que os EUA não enfrentam escassez de potássio e que os custos de transporte pelo Báltico e Atlântico podem inviabilizar economicamente a operação, mesmo que os obstáculos políticos sejam superados.
- Por detrás do fertilizante, o verdadeiro negócio é diplomático: para Trump, reduzir a dependência canadiana; para Lukashenko, recuperar acesso a mercados ocidentais após a libertação de 250 presos políticos num acordo com Washington.
Num momento em que a guerra comercial entre Washington e Ottawa redefine alianças e dependências, Donald Trump anunciou um 'acordo massivo' para importar potássio bielorrusso a preços mais baixos do que os canadianos — apresentando-o como uma vitória para os agricultores norte-americanos. O paradoxo revelou-se quase imediatamente: horas antes, o próprio Lukashenko admitira não ter volumes disponíveis para os mercados ocidentais. Entre sanções europeias, rotas bloqueadas e contratos já comprometidos, o anúncio ilumina menos um negócio consumado do que a geometria frágil das aproximações geopolíticas em tempo de tensão.
Donald Trump anunciou na segunda-feira um 'acordo massivo' para importar potássio da Bielorrússia a preços inferiores aos canadianos, apresentando-o como uma vitória para os agricultores norte-americanos. O problema surgiu quase de imediato: horas antes do comunicado, o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko tinha declarado que Minsk não dispunha de grandes volumes disponíveis para os mercados ocidentais, com a produção já comprometida com contratos existentes.
O contexto explica a urgência norte-americana. O Canadá forneceu cerca de 85% das importações de potássio dos EUA em 2025, num valor próximo de 2,9 mil milhões de dólares. Desde agosto, Washington aplica tarifas de 50% sobre importações canadianas, após o colapso das negociações comerciais. Ottawa respondeu com tarifas recíprocas e aproximou-se da Europa, o que irritou Trump. Neste clima, um fornecedor alternativo de potássio ganha peso estratégico.
A aproximação entre Trump e Lukashenko tem avançado por via diplomática — em setembro, a Bielorrússia libertou 250 presos políticos num acordo com Washington, o maior grupo de uma só vez. Lukashenko pediu ainda o desbloqueio de mais de 40 milhões de dólares retidos no sistema bancário norte-americano. Mas os obstáculos práticos são consideráveis: a Bielorrússia não tem acesso ao mar, as rotas bálticas estão bloqueadas por sanções europeias, e qualquer exportação teria de passar por portos russos. A Lituânia opõe-se explicitamente a qualquer flexibilização, invocando repressão política, direitos humanos e o apoio de Minsk à Rússia na guerra contra a Ucrânia.
Economicamente, o negócio também levanta dúvidas. O analista Josh Linville, da StoneX, considera que o impacto seria limitado: os EUA não enfrentam escassez de potássio, e os custos de transporte pelo Báltico e Atlântico poderiam tornar a operação pouco competitiva. Por agora, existe um anúncio grandioso, uma promessa de fertilizante mais barato — e um presidente bielorrusso a dizer que não tem produto para vender ao Ocidente.
Donald Trump anunciou na segunda-feira, 21 de setembro, um "acordo massivo" para os Estados Unidos importarem potássio da Bielorrússia a preços significativamente mais baixos do que os atualmente pagos ao Canadá. A notícia foi divulgada na rede Truth Social, apresentada como uma vitória para os agricultores e criadores de gado norte-americanos. Mas poucas horas antes, o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko tinha feito uma declaração que tornava o anúncio problemático: Minsk não dispunha de volumes disponíveis para vender aos mercados ocidentais.
O contexto comercial é claro. O Canadá forneceu cerca de 85% das importações norte-americanas de potássio em 2025, num valor aproximado de 2,9 mil milhões de dólares. Desde agosto, os Estados Unidos aplicam tarifas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares em importações canadianas, após o colapso das negociações comerciais entre os dois países. Ottawa respondeu com tarifas recíprocas e acelerou a aproximação à Europa, procurando tornar-se o primeiro membro associado da União Europeia — uma iniciativa que provocou oposição de Trump. Neste contexto de tensão bilateral, a possibilidade de um fornecedor alternativo de potássio ganha peso estratégico.
O problema é que Lukashenko parece ter recebido a notícia do anúncio de Trump sem ter sido previamente consultado. Segundo a Meduza, o líder bielorrusso afirmou, horas antes do comunicado norte-americano, que mesmo que a Bielorrússia recuperasse plenamente o acesso aos mercados ocidentais não teria grandes volumes disponíveis. A razão é simples: a produção está já comprometida com contratos existentes. A Bielorrússia é um dos grandes produtores mundiais de potássio, mas as sanções internacionais têm limitado severamente o acesso do país aos mercados ocidentais. A Rússia representa cerca de 12% das importações norte-americanas de potássio, enquanto a Bielorrússia, apesar da sua capacidade produtiva, tem visto as suas exportações bloqueadas.
Trump está a tentar abrir uma porta para um fornecedor que Washington tinha começado a reintegrar no comércio internacional. Em setembro, Lukashenko já tinha anunciado a retoma das vendas de potássio aos Estados Unidos após o levantamento de sanções norte-americanas e pediu ainda a Washington que desbloqueasse mais de 40 milhões de dólares retidos no sistema bancário norte-americano. A aproximação entre Trump e Lukashenko tem avançado através de um processo de libertação de presos políticos e alívio de sanções — em setembro, a Bielorrússia libertou 250 presos num acordo com Washington, o maior grupo libertado de uma só vez.
Mas o negócio enfrenta obstáculos práticos significativos. A Bielorrússia não tem acesso ao mar, e as sanções europeias continuam a dificultar a utilização das rotas tradicionais através do Báltico. Um aumento das exportações bielorrussas para os Estados Unidos teria de passar por portos russos. A própria Lituânia está contra uma flexibilização das sanções europeias. O ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, Kęstutis Budrys, afirmou que não é altura para a União Europeia aliviar a pressão sobre Minsk, defendendo que continuam a existir razões relacionadas com a repressão política, os direitos humanos e o apoio da Bielorrússia à Rússia na guerra contra a Ucrânia.
Há ainda questões económicas mais diretas. Josh Linville, analista da StoneX, considera que o impacto de uma eventual entrada de potássio bielorrusso no mercado norte-americano poderá ser limitado. Os Estados Unidos não têm actualmente dificuldades em encontrar este fertilizante. As maiores necessidades estão antes nos fertilizantes à base de azoto e fosfato. Mesmo que a Lituânia reabrisse o porto de Klaipėda ao potássio bielorrusso, os custos de transporte pelo Báltico e depois pelo Atlântico poderiam tornar a operação pouco atraente face ao actual valor do produto.
O eventual acordo tem, portanto, uma dimensão que vai muito além do preço do fertilizante. Para Trump, permitiria reduzir a dependência do Canadá num momento de nova guerra comercial entre os dois países. Para Minsk, representaria uma oportunidade de recuperar espaço num mercado ocidental e acelerar a aproximação a Washington. A União Europeia, pelo contrário, mantém as sanções sobre o potássio bielorrusso. Por enquanto, há um anúncio de um "acordo massivo", uma promessa de potássio mais barato e um presidente bielorrusso a dizer que não tem produto disponível para o Ocidente. O negócio pode estar a aquecer, mas o potássio parece ter ficado preso no porto.
Citações Notáveis
O preço seria substancialmente inferior ao que estamos actualmente a pagar ao Canadá— Donald Trump, Truth Social, 21 de setembro
Mesmo que a Bielorrússia recuperasse plenamente o acesso aos mercados ocidentais não teria grandes volumes disponíveis, uma vez que a produção está já comprometida com contratos existentes— Alexander Lukashenko, segundo a Meduza