Trump e Marco Rubio buscam capturar as Américas; Brasil é o maior prêmio após EUA, sendo âncora da América Latina e economia formidável. Flávio Bolsonaro propõe alinhamento radical com EUA para exploração de minerais críticos e terras raras, afastando China e comprometendo soberania brasileira.
Brasil é o maior prêmio para EUA e Lula é a barreira, diz historiador Vijay Prashad
O Brasil é o maior prêmio para os Estados Unidos capturarem as Américas
Então você está dizendo que Trump literalmente quer "capturar" as Américas? Isso não soa um pouco exagerado?
Não é exagero. Trump articulou publicamente um corolário à Doutrina Monroe — disse que as Américas são propriedade dos Estados Unidos. Já declarou que vai tomar a Groenlândia, a Venezuela, Cuba. Quando um presidente americano diz isso em público, não é retórica vazia.
Mas há uma diferença entre declarações provocativas e capacidade real de ação. Trump conseguiu tomar a Venezuela? Conseguiu Cuba? Essas coisas não aconteceram.
Verdade, mas o contexto mudou. Na primeira vez que Bolsonaro foi presidente, Trump ainda estava encontrando seu caminho. Agora Trump e Marco Rubio parecem muito mais mobilizados e têm uma estratégia clara: o Brasil é a chave.
E por que o Brasil é tão importante assim?
É a maior economia das Américas depois dos EUA, âncora da América Latina, ator de peso no BRICS. Se os americanos conseguirem colocar um Bolsonaro lá, moldaria o continente por uma geração. Além disso, o Brasil tem minerais críticos e petróleo novo que os EUA querem controlar.
Mas você está falando de intenções americanas. O que temos de concreto sobre financiamento ou interferência direta na campanha de Flávio?
Temos o memorando "Prosperity Partnership" de André Marinho, que detalha um alinhamento Brasil-EUA para exploração de minerais. Marinho se encontrou com J.D. Vance, vice-presidente, três semanas depois de escrever o documento. A rede Rockbridge, fundada por Vance, é conhecida como estrutura de financiamento da extrema direita.
Mas você disse "é conhecida como". Quem diz isso? Há investigação formal? Há dinheiro rastreado?
Não há investigação formal no Brasil. É por isso que Prashad diz que deveria haver. O que sabemos é que Marinho escreveu um memorando estratégico, se encontrou com o vice-presidente americano, e a rede Rockbridge existe e tem dinheiro. As conexões estão lá.
E se Flávio vencer, o que muda para o Brasil no BRICS?
Provavelmente sai do BRICS. Trump odeia o BRICS. E se sair, perde a chance de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU — algo que Xi Jinping já sinalizou apoiar.
Mas isso é especulação. Você não sabe que Flávio sairia do BRICS.
Verdade. Mas Prashad duvida que Flávio tenha habilidade política para ser simultaneamente o principal aliado de Washington e manter-se no BRICS. O Brasil não tem poder econômico para isso — depende de mercados asiáticos que não podem ser substituídos pelos EUA.
Il Polso
- Trump e Marco Rubio buscam "capturar" as Américas; Brasil é o maior prêmio após EUA
- André Marinho elaborou memorando "Prosperity Partnership" em março de 2026 propondo alinhamento Brasil-EUA para minerais críticos
- Marinho se encontrou com J.D. Vance, vice-presidente americano, três semanas após escrever o memorando
- Xi Jinping sinalizou apoio a assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, condicionado a não alinhamento radical com EUA
- Flávio Bolsonaro aderiria aos Acordos de Isaac no dia seguinte à posse, normalizando relações com Israel
Trump e Marco Rubio buscam capturar as Américas; Brasil é o maior prêmio após EUA, sendo âncora da América Latina e economia formidável. Flávio Bolsonaro propõe alinhamento radical com EUA para exploração de minerais críticos e terras raras, afastando China e comprometendo soberania brasileira.
Historiador Vijay Prashad analisa o Brasil como peça central na estratégia americana de captura das Américas, vendo Lula como barreira à extrema direita e alertando para riscos de alinhamento radical com Washington sob Flávio Bolsonaro.
O historiador Vijay Prashad vê o Brasil não como um país entre muitos, mas como o prêmio final numa estratégia que Washington vem montando há anos. Quando Donald Trump e seu secretário de Estado Marco Rubio falam em "capturar as Américas", não estão sendo metafóricos — Trump já declarou publicamente que tomará a Groenlândia, a Venezuela e Cuba. Mas o verdadeiro objetivo, segundo Prashad, é o Brasil. Maior economia das Américas depois dos próprios Estados Unidos, âncora da América Latina, ator de peso no BRICS: o Brasil é a peça que, se cair nas mãos certas do ponto de vista americano, moldaria o continente por uma geração.
Flávio Bolsonaro, na leitura de Prashad, colocou-se deliberadamente à disposição desse projeto. O historiador chama de "carta de amor a Trump" a correspondência que Flávio enviou ao secretário Rubio. Mais revelador ainda é o memorando intitulado "Prosperity Partnership", elaborado por André Marinho — filho do suplente de Flávio ao Senado — em março de 2026. O documento, redigido em inglês, detalha como um governo Bolsonaro exploraria minerais críticos e terras raras em alinhamento total com Washington, afastando a China. Três semanas após escrever o memorando, Marinho se encontrou pessoalmente com J.D. Vance, vice-presidente americano e fundador da rede Rockbridge, uma estrutura de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício. Prashad questiona: por que esse memorando existe? Por que Marinho foi ver Vance? O que tudo isso tem a ver com o governo dos EUA?
A aposta americana no Brasil é concreta. Os Estados Unidos estão profundamente interessados nos minerais críticos brasileiros — essenciais para defesa e tecnologia — e nas novas descobertas de petróleo no delta do Amazonas. Sob um governo Bolsonaro, essas riquezas passariam para empresas americanas como a ExxonMobil e a Raw Materials USA, não para empresas brasileiras ou chinesas. Prashad nota que Trump já sinalizou desinteresse em importações brasileiras — "se compramos dois milhões de bananas do Brasil, ficamos dois milhões mais pobres" — sugerindo que o interesse americano é exclusivamente em recursos naturais estratégicos.
O contraste com Lula é nítido. Lula prometeu estabilidade dentro do Brasil; Flávio promete abertamente estabilidade para os Estados Unidos. Lula demonstrou, em quatro mandatos, que não atacará os interesses das elites domésticas — não mexeu com o agronegócio, não avançou na reforma agrária apesar das pressões da base. Isso o torna aceitável para setores importantes da classe dominante brasileira que vivem no país e preferem a previsibilidade. Já a fração Rio-Miami da elite, mais integrada aos circuitos americanos, sonha com Bolsonaro e Trump caminhando pelas ruas de Brasília.
Um governo Bolsonaro teria consequências imediatas e profundas. Flávio aderiria aos Acordos de Isaac no dia seguinte à posse — a normalização com Israel que já avança pela América Latina. Isso significaria não apenas relações comerciais com Israel, mas também leis que criminalizariam atividades pró-Palestina sob a rubrica de "antissemitismo". O Brasil é um país dividido, com uma parcela grande da população comprometida em denunciar o genocídio em Gaza. Essas vozes seriam silenciadas.
Mas talvez o custo geopolítico seja ainda maior. Xi Jinping declarou na última reunião do BRICS em Nova Délhi que apoiaria candidaturas da Índia e do Brasil a assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU. Se Flávio chegar ao poder e se alinhar radicalmente com Washington, é improvável que China e Índia continuem apoiando o Brasil. Prashad duvida que Flávio tenha a habilidade política para ser simultaneamente o principal aliado de Washington na América Latina e manter-se firme no BRICS. O Brasil não tem poder econômico para isso — é principalmente exportador de matérias-primas, dependente de mercados asiáticos que não podem ser substituídos pelos Estados Unidos.
Flávio também é mais jovem e imaturo que o pai, cercado por assessores americanos ou treinados pelos americanos. Sem Jair ao seu lado para aconselhá-lo — e Jair está em prisão domiciliar — ele será ainda mais vulnerável à influência externa. Prashad vê Lula como uma barreira real à extrema direita que quer transformar as Américas por uma geração. Não é retórica hiperbólica, diz; há evidências materiais. O que está em jogo é se o Brasil permanecerá um ator independente na ordem multipolar ou se se tornará um satélite americano, moldado por um jovem político imaturo sob a tutela de Washington.
Citazioni salienti
Lula prometeu estabilidade dentro do Brasil. Flávio Bolsonaro, por outro lado, promete abertamente a um estrangeiro, Marco Rubio, estabilidade para os Estados Unidos— Vijay Prashad
Lula pode ser uma barreira à extrema direita que quer transformar as Américas por uma geração. Há evidências materiais aqui, e podemos vê-las no que aconteceu na Venezuela— Vijay Prashad