Brasil é o maior prêmio para EUA e Lula é a barreira, diz historiador Vijay Prashad

O Brasil é o maior prêmio para os Estados Unidos capturarem as Américas
Historiador Vijay Prashad analisa a estratégia geopolítica americana e o papel central do Brasil nela.
Mark

Então você está dizendo que Trump literalmente quer "capturar" as Américas? Isso não soa um pouco exagerado?

Mimi

Não é exagero. Trump articulou publicamente um corolário à Doutrina Monroe — disse que as Américas são propriedade dos Estados Unidos. Já declarou que vai tomar a Groenlândia, a Venezuela, Cuba. Quando um presidente americano diz isso em público, não é retórica vazia.

Luke

Mas há uma diferença entre declarações provocativas e capacidade real de ação. Trump conseguiu tomar a Venezuela? Conseguiu Cuba? Essas coisas não aconteceram.

Mimi

Verdade, mas o contexto mudou. Na primeira vez que Bolsonaro foi presidente, Trump ainda estava encontrando seu caminho. Agora Trump e Marco Rubio parecem muito mais mobilizados e têm uma estratégia clara: o Brasil é a chave.

Mark

E por que o Brasil é tão importante assim?

Mimi

É a maior economia das Américas depois dos EUA, âncora da América Latina, ator de peso no BRICS. Se os americanos conseguirem colocar um Bolsonaro lá, moldaria o continente por uma geração. Além disso, o Brasil tem minerais críticos e petróleo novo que os EUA querem controlar.

Luke

Mas você está falando de intenções americanas. O que temos de concreto sobre financiamento ou interferência direta na campanha de Flávio?

Mimi

Temos o memorando "Prosperity Partnership" de André Marinho, que detalha um alinhamento Brasil-EUA para exploração de minerais. Marinho se encontrou com J.D. Vance, vice-presidente, três semanas depois de escrever o documento. A rede Rockbridge, fundada por Vance, é conhecida como estrutura de financiamento da extrema direita.

Luke

Mas você disse "é conhecida como". Quem diz isso? Há investigação formal? Há dinheiro rastreado?

Mimi

Não há investigação formal no Brasil. É por isso que Prashad diz que deveria haver. O que sabemos é que Marinho escreveu um memorando estratégico, se encontrou com o vice-presidente americano, e a rede Rockbridge existe e tem dinheiro. As conexões estão lá.

Mark

E se Flávio vencer, o que muda para o Brasil no BRICS?

Mimi

Provavelmente sai do BRICS. Trump odeia o BRICS. E se sair, perde a chance de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU — algo que Xi Jinping já sinalizou apoiar.

Luke

Mas isso é especulação. Você não sabe que Flávio sairia do BRICS.

Mimi

Verdade. Mas Prashad duvida que Flávio tenha habilidade política para ser simultaneamente o principal aliado de Washington e manter-se no BRICS. O Brasil não tem poder econômico para isso — depende de mercados asiáticos que não podem ser substituídos pelos EUA.

  • Trump e Marco Rubio buscam "capturar" as Américas; Brasil é o maior prêmio após EUA
  • André Marinho elaborou memorando "Prosperity Partnership" em março de 2026 propondo alinhamento Brasil-EUA para minerais críticos
  • Marinho se encontrou com J.D. Vance, vice-presidente americano, três semanas após escrever o memorando
  • Xi Jinping sinalizou apoio a assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, condicionado a não alinhamento radical com EUA
  • Flávio Bolsonaro aderiria aos Acordos de Isaac no dia seguinte à posse, normalizando relações com Israel

Trump e Marco Rubio buscam capturar as Américas; Brasil é o maior prêmio após EUA, sendo âncora da América Latina e economia formidável. Flávio Bolsonaro propõe alinhamento radical com EUA para exploração de minerais críticos e terras raras, afastando China e comprometendo soberania brasileira.

Historiador Vijay Prashad analisa o Brasil como peça central na estratégia americana de captura das Américas, vendo Lula como barreira à extrema direita e alertando para riscos de alinhamento radical com Washington sob Flávio Bolsonaro.

O historiador Vijay Prashad vê o Brasil não como um país entre muitos, mas como o prêmio final numa estratégia que Washington vem montando há anos. Quando Donald Trump e seu secretário de Estado Marco Rubio falam em "capturar as Américas", não estão sendo metafóricos — Trump já declarou publicamente que tomará a Groenlândia, a Venezuela e Cuba. Mas o verdadeiro objetivo, segundo Prashad, é o Brasil. Maior economia das Américas depois dos próprios Estados Unidos, âncora da América Latina, ator de peso no BRICS: o Brasil é a peça que, se cair nas mãos certas do ponto de vista americano, moldaria o continente por uma geração.

Flávio Bolsonaro, na leitura de Prashad, colocou-se deliberadamente à disposição desse projeto. O historiador chama de "carta de amor a Trump" a correspondência que Flávio enviou ao secretário Rubio. Mais revelador ainda é o memorando intitulado "Prosperity Partnership", elaborado por André Marinho — filho do suplente de Flávio ao Senado — em março de 2026. O documento, redigido em inglês, detalha como um governo Bolsonaro exploraria minerais críticos e terras raras em alinhamento total com Washington, afastando a China. Três semanas após escrever o memorando, Marinho se encontrou pessoalmente com J.D. Vance, vice-presidente americano e fundador da rede Rockbridge, uma estrutura de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício. Prashad questiona: por que esse memorando existe? Por que Marinho foi ver Vance? O que tudo isso tem a ver com o governo dos EUA?

A aposta americana no Brasil é concreta. Os Estados Unidos estão profundamente interessados nos minerais críticos brasileiros — essenciais para defesa e tecnologia — e nas novas descobertas de petróleo no delta do Amazonas. Sob um governo Bolsonaro, essas riquezas passariam para empresas americanas como a ExxonMobil e a Raw Materials USA, não para empresas brasileiras ou chinesas. Prashad nota que Trump já sinalizou desinteresse em importações brasileiras — "se compramos dois milhões de bananas do Brasil, ficamos dois milhões mais pobres" — sugerindo que o interesse americano é exclusivamente em recursos naturais estratégicos.

O contraste com Lula é nítido. Lula prometeu estabilidade dentro do Brasil; Flávio promete abertamente estabilidade para os Estados Unidos. Lula demonstrou, em quatro mandatos, que não atacará os interesses das elites domésticas — não mexeu com o agronegócio, não avançou na reforma agrária apesar das pressões da base. Isso o torna aceitável para setores importantes da classe dominante brasileira que vivem no país e preferem a previsibilidade. Já a fração Rio-Miami da elite, mais integrada aos circuitos americanos, sonha com Bolsonaro e Trump caminhando pelas ruas de Brasília.

Um governo Bolsonaro teria consequências imediatas e profundas. Flávio aderiria aos Acordos de Isaac no dia seguinte à posse — a normalização com Israel que já avança pela América Latina. Isso significaria não apenas relações comerciais com Israel, mas também leis que criminalizariam atividades pró-Palestina sob a rubrica de "antissemitismo". O Brasil é um país dividido, com uma parcela grande da população comprometida em denunciar o genocídio em Gaza. Essas vozes seriam silenciadas.

Mas talvez o custo geopolítico seja ainda maior. Xi Jinping declarou na última reunião do BRICS em Nova Délhi que apoiaria candidaturas da Índia e do Brasil a assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU. Se Flávio chegar ao poder e se alinhar radicalmente com Washington, é improvável que China e Índia continuem apoiando o Brasil. Prashad duvida que Flávio tenha a habilidade política para ser simultaneamente o principal aliado de Washington na América Latina e manter-se firme no BRICS. O Brasil não tem poder econômico para isso — é principalmente exportador de matérias-primas, dependente de mercados asiáticos que não podem ser substituídos pelos Estados Unidos.

Flávio também é mais jovem e imaturo que o pai, cercado por assessores americanos ou treinados pelos americanos. Sem Jair ao seu lado para aconselhá-lo — e Jair está em prisão domiciliar — ele será ainda mais vulnerável à influência externa. Prashad vê Lula como uma barreira real à extrema direita que quer transformar as Américas por uma geração. Não é retórica hiperbólica, diz; há evidências materiais. O que está em jogo é se o Brasil permanecerá um ator independente na ordem multipolar ou se se tornará um satélite americano, moldado por um jovem político imaturo sob a tutela de Washington.

Lula prometeu estabilidade dentro do Brasil. Flávio Bolsonaro, por outro lado, promete abertamente a um estrangeiro, Marco Rubio, estabilidade para os Estados Unidos
— Vijay Prashad
Lula pode ser uma barreira à extrema direita que quer transformar as Américas por uma geração. Há evidências materiais aqui, e podemos vê-las no que aconteceu na Venezuela
— Vijay Prashad
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