Em meio à circulação da variante Ômicron, pesquisadores da Universidade de São Paulo acompanharam mais de dois milhões de crianças brasileiras e encontraram uma evidência difícil de ignorar: três doses da vacina Pfizer/BioNTech eliminaram praticamente todas as mortes por Covid-19 grave entre bebês e crianças pequenas. O estudo, publicado na revista Vaccine, lembra que a proteção coletiva não é abstrata — ela se mede em vidas que continuaram, especialmente as mais vulneráveis e silenciosas.
Três doses da vacina Pfizer reduzem em 97% casos graves de Covid-19 em crianças, diz estudo USP
Nenhuma morte entre crianças com três doses completas
O que torna esse estudo diferente de outras pesquisas sobre vacinação infantil que já tínhamos?
É o primeiro a olhar especificamente para crianças de 6 meses a 4 anos no Brasil durante a Ômicron. Acompanharam mais de 2 milhões de crianças por mais de dois anos, usando dados reais de hospitalizações e vacinação.
Mas 2 milhões é 18% da população nessa idade. Isso significa que 82% das crianças não estão no estudo. Como sabemos que o grupo estudado é representativo?
É uma pergunta justa. Os pesquisadores focaram em 24 municípios que tiveram os maiores números de casos graves. Então não é uma amostra aleatória do Brasil inteiro.
E quanto àquele número de 97% de redução? Como exatamente eles chegaram nele?
Compararam a taxa de síndrome respiratória aguda grave entre crianças com três doses e crianças sem nenhuma dose. A diferença foi de 97%.
Mas tem um detalhe importante: 28% da população já tinha tido Covid antes. Então algumas das crianças "não vacinadas" no estudo já tinham imunidade natural. Isso pode ter inflado o número de proteção da vacina.
Exatamente. Os próprios pesquisadores reconhecem isso como uma limitação. Infecções anteriores podem ter reduzido a diferença entre os grupos.
E a CoronaVac? Por que não funcionou tão bem?
Duas doses de CoronaVac não mostraram redução significativa em casos graves. Os pesquisadores dizem que, como é feita com vírus inativado, pode precisar ser reavaliada diante de novas variantes.
Mas quantas crianças receberam três doses de CoronaVac? O estudo diz que a cobertura foi insuficiente para estimar o efeito.
Pouquíssimas. Então não sabemos se três doses funcionariam melhor.
O que mais impressiona é que nenhuma criança com três doses da Pfizer morreu.
Verdade. Das 27 mortes registradas, 23 foram em crianças não vacinadas. Isso é um dado muito forte.
Mas também é importante notar: 27 mortes em 2 milhões de crianças é uma taxa muito baixa de morte por Covid nessa idade, vacinadas ou não. A doença grave é rara em crianças pequenas.
Il Polso
- Entre as 27 mortes registradas no período, 23 ocorreram em crianças que nunca receberam nenhuma dose — um contraste que define o peso da não vacinação.
- Nenhuma criança com o esquema completo de três doses da Pfizer/BioNTech morreu, revelando uma proteção quase absoluta contra os desfechos mais graves.
- A CoronaVac, por outro lado, não demonstrou redução estatisticamente significativa em casos graves com duas doses, levantando dúvidas sobre sua eficácia frente às novas variantes.
- Com cobertura vacinal incompleta e imunidade natural interferindo nos dados, os pesquisadores alertam que as estimativas de proteção podem ainda estar subestimadas.
- O estudo reforça a urgência de ampliar a cobertura vacinal infantil completa no Brasil, onde esquemas incompletos ainda deixam crianças pequenas desprotegidas.
Em meio à circulação da variante Ômicron, pesquisadores da Universidade de São Paulo acompanharam mais de dois milhões de crianças brasileiras e encontraram uma evidência difícil de ignorar: três doses da vacina Pfizer/BioNTech eliminaram praticamente todas as mortes por Covid-19 grave entre bebês e crianças pequenas. O estudo, publicado na revista Vaccine, lembra que a proteção coletiva não é abstrata — ela se mede em vidas que continuaram, especialmente as mais vulneráveis e silenciosas.
Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP acompanharam mais de dois milhões de crianças de 6 meses a 4 anos em 24 municípios brasileiros entre julho de 2022 e dezembro de 2024. O objetivo era entender, com dados reais e em larga escala, o que acontecia com as crianças vacinadas e não vacinadas durante a circulação da variante Ômicron. A resposta chegou em números expressivos: três doses da Pfizer/BioNTech reduziram em 97% os casos graves de síndrome respiratória aguda por Covid-19 nessa faixa etária.
O dado mais impactante do estudo, publicado na revista Vaccine, está nas mortes. Das 27 registradas no período, 23 ocorreram entre crianças que nunca foram vacinadas, e quatro entre aquelas com esquema incompleto. Entre as que completaram as três doses, nenhuma morte foi registrada. Isaac Negretto Schrarstzhaupt, cientista de dados que liderou a pesquisa, destacou que os resultados confirmam o que a ciência já esperava: coberturas vacinais altas e esquemas completos são essenciais para proteger as crianças mais pequenas.
O cenário foi diferente para a CoronaVac. Entre crianças de 3 e 4 anos, o esquema de duas doses não apresentou redução estatisticamente significativa em casos graves, e a adesão à terceira dose foi tão baixa que seu efeito não pôde ser estimado. O professor Fredi Diaz-Quijano, orientador do estudo, ponderou que isso não apaga o papel da CoronaVac no início da pandemia, mas indica que sua proteção pode precisar ser reavaliada diante das variantes mais recentes.
Os pesquisadores também reconheceram limitações: a imunidade natural adquirida por infecções anteriores pode ter reduzido a diferença observada entre os grupos, já que dados paralelos indicam que cerca de 28% da população brasileira havia sido infectada pelo SARS-CoV-2 até meados de 2024. Ainda assim, a direção apontada pelo estudo é clara — e urgente.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo acompanharam mais de dois milhões de crianças pequenas ao longo de dois anos e meio e chegaram a uma conclusão clara: três doses da vacina Pfizer/BioNTech reduziram em 97% os casos graves de Covid-19 em meninos e meninas de 6 meses a 4 anos. O estudo, publicado na revista científica Vaccine, é o primeiro a investigar especificamente a efetividade da vacinação nessa faixa etária no Brasil durante a circulação da variante Ômicron.
Os pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP analisaram dados de crianças em 24 municípios brasileiros que registraram os maiores números de hospitalizações e casos graves entre julho de 2022 e dezembro de 2024. No total, acompanharam 2.093.745 crianças — aproximadamente 18% de toda a população brasileira nessa idade, segundo o Censo 2022. Durante esse período, acumularam mais de 37,6 milhões de crianças-mês de observação, comparando constantemente o que acontecia com as vacinadas e as não vacinadas.
Os números revelam o peso da doença naquele período. Foram registradas 1.384 hospitalizações por síndrome respiratória aguda grave causada pela Covid-19 e 27 mortes associadas à doença. Mas aqui está o dado que mais chama atenção: entre as crianças que completaram o esquema de três doses da Pfizer/BioNTech, não houve nenhuma morte. Das 27 mortes registradas no conjunto todo, 23 ocorreram entre crianças que nunca foram vacinadas, e as outras quatro aconteceram entre crianças que receberam apenas uma ou duas doses.
Isaac Negretto Schrarstzhaupt, cientista de dados que liderou o trabalho como primeiro autor, explicou que os resultados reforçam o que a comunidade científica já esperava: as vacinas funcionam, e coberturas vacinais altas são essenciais para reduzir a gravidade da doença em crianças pequenas. Os pesquisadores também avaliaram dados da CoronaVac, mas encontraram um cenário diferente. Entre crianças de 3 e 4 anos vacinadas com a CoronaVac, o esquema de duas doses não mostrou redução estatisticamente significativa em casos graves. A cobertura de uma terceira dose foi tão baixa que os pesquisadores não conseguiram estimar seu efeito.
Fredi Diaz-Quijano, professor que orientou o estudo, ressaltou que esses resultados não diminuem a importância da CoronaVac, que teve papel relevante no início da pandemia. Mas alertou que, por ser produzida com vírus inativado, sua proteção pode precisar ser reavaliada conforme novas variantes circulam. O trabalho também reconheceu suas próprias limitações. Uma delas é a chamada imunidade natural — pessoas que já tiveram contato com o vírus desenvolvem proteção. Dados de outro estudo indicam que 28% da população brasileira havia passado por pelo menos uma infecção por SARS-CoV-2 entre março e junho de 2024. Para os autores, infecções anteriores entre crianças não vacinadas podem ter reduzido a diferença observada entre os grupos e influenciado as estimativas de efetividade.
O estudo é parte do doutorado de Schrarstzhaupt e representa a primeira investigação sistemática sobre a efetividade da vacinação contra Covid-19 especificamente em crianças dessa idade no Brasil, em um contexto marcado pela circulação da Ômicron. Os resultados apontam para uma direção clara: a vacinação infantil completa funciona, mas exige cobertura alta e esquemas completos para proteger as crianças mais pequenas.
Citazioni salienti
O nosso estudo traz mais informações de que as vacinas realmente funcionam e que precisamos de uma cobertura vacinal para diminuir casos graves da doença— Isaac Negretto Schrarstzhaupt, cientista de dados da Faculdade de Saúde Pública da USP