Em janeiro deste ano, uma mulher submeteu-se a uma histerectomia de rotina em Bragança Paulista, no interior de São Paulo — e saiu da sala cirúrgica com uma tesoura de dezoito centímetros esquecida dentro do abdômen. Por três meses, Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz viveu um calvário de dor inexplicável, até que o instrumento foi finalmente descoberto, já tendo causado necrose intestinal e desencadeado uma série de quatro cirurgias. O caso ilumina uma das falhas mais graves e mais humanas da medicina: o erro que não se admite até que o corpo do paciente force a confissão.
Tesoura cirúrgica de 18 cm é esquecida em abdômen de paciente por três meses
Parecia que tinha algo querendo sair de dentro de mim
Como é que uma tesoura de dezoito centímetros simplesmente desaparece dentro de um corpo durante uma cirurgia?
É uma falha nos protocolos de contagem. Antes de fechar o paciente, deveria haver uma contagem dupla de todos os instrumentos — o que foi usado, o que sai. Alguém não fez isso, ou fez e anotou errado.
E ninguém notou em três meses?
Érica estava com dor intensa, vômitos, mas os sintomas foram tratados como complicações pós-cirúrgicas comuns. Ninguém pediu um raio-X. Ela voltava ao hospital, recebia medicação, e mandavam embora. A tesoura só foi descoberta quando a situação ficou crítica o suficiente para uma nova cirurgia.
O que a tesoura fez dentro dela?
Causou inflamação, infecção. Parte do intestino delgado necrosou — morreu. Isso levou a abscessos, acúmulo de pus no intestino e depois no fígado. Cada complicação exigiu outra cirurgia. Quatro no total.
E agora, o que acontece com o médico?
Há um processo criminal em andamento. Mas Érica ainda está se recuperando, ainda processando o trauma. O hospital ofereceu assistência, mas isso não desfaz o que aconteceu.
Ela vai processar?
Ela recusou uma proposta de acordo no início. Agora há um processo na Justiça. Mas o que ela quer mesmo é entender como isso aconteceu e garantir que não aconteça com outra pessoa.
Le Pouls
- Uma tesoura cirúrgica de 18 cm permaneceu esquecida no abdômen de uma paciente por três meses após uma histerectomia, causando dor intensa e vômitos que nenhum medicamento conseguia controlar.
- O instrumento só foi descoberto em abril, quando Érica foi levada às pressas para o centro cirúrgico na madrugada — e o raio-X revelou o que seu corpo vinha gritando desde janeiro.
- O dano acumulado foi severo: parte do intestino delgado necrosou, e a paciente precisou passar por quatro cirurgias no total, incluindo remoção da tesoura, correção de hérnia e drenagem de abscessos intestinal e hepático.
- Dois dias após a remoção, advogados do médico responsável já buscavam um acordo; o profissional, visto atendendo normalmente no hospital em julho, não se pronunciou publicamente.
- O caso tramita na Justiça desde maio, enquanto o hospital custeia os atendimentos e oferece apoio psicológico à paciente e aos seus três filhos — reconhecimento que chegou tarde demais para evitar o sofrimento.
Em janeiro deste ano, uma mulher submeteu-se a uma histerectomia de rotina em Bragança Paulista, no interior de São Paulo — e saiu da sala cirúrgica com uma tesoura de dezoito centímetros esquecida dentro do abdômen. Por três meses, Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz viveu um calvário de dor inexplicável, até que o instrumento foi finalmente descoberto, já tendo causado necrose intestinal e desencadeado uma série de quatro cirurgias. O caso ilumina uma das falhas mais graves e mais humanas da medicina: o erro que não se admite até que o corpo do paciente force a confissão.
Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz entrou em janeiro para uma histerectomia de rotina na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista e saiu com uma tesoura cirúrgica de dezoito centímetros esquecida dentro do abdômen. Ninguém lhe disse. Os meses que se seguiram foram um calvário: dor que não cedia, vômitos persistentes, a sensação de que algo tentava sair de dentro dela. Ela voltava ao hospital, recebia medicação, e voltava para casa sem resposta.
Em abril, três meses depois, Érica foi levada às pressas para o centro cirúrgico na madrugada. Desta vez, o raio-X não deixou dúvidas. A tesoura estava lá — e o dano já era grave. Parte do intestino delgado havia necrosado. O que se seguiu foi uma cascata de intervenções: remoção do instrumento, correção de hérnia, drenagem de abscesso intestinal, tratamento de abscesso hepático. Quatro cirurgias no total. Quatro vezes o corpo aberto e reconstruído.
Após a descoberta, a Santa Casa reconheceu o ocorrido e passou a custear todos os atendimentos relacionados ao caso, além de oferecer acompanhamento psicológico a Érica e aos seus três filhos. Dois dias depois da remoção da tesoura, advogados do médico responsável já a procuravam com proposta de acordo. Érica preferiu não negociar naquele momento. O que também a perturbou foi ver o mesmo médico — que antes e depois da cirurgia havia insistido numa cirurgia estética particular de oito mil e quinhentos reais — atendendo normalmente no hospital durante uma internação em julho.
O caso tramita na esfera criminal desde maio, com um Termo Circunstanciado registrado na Vara do Juizado Especial Cível e Criminal de Bragança Paulista. A Santa Casa afirma não comentar casos individualizados, mas diz estar à disposição das autoridades. O médico responsável não respondeu aos contatos da imprensa.
Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz chegou ao hospital em abril desnorteada de dor. Três meses antes, em janeiro, ela havia se submetido a uma histerectomia na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista, no interior de São Paulo — uma cirurgia de rotina para remover o útero. O que ninguém lhe disse era que uma tesoura cirúrgica de dezoito centímetros havia sido deixada dentro de seu abdômen.
Os primeiros meses foram um calvário silencioso. A dor não cedia aos medicamentos. Os vômitos continuavam. Érica descreve a sensação como algo tentando sair de dentro dela, um desespero que os analgésicos não conseguiam cortar. Ela voltava ao hospital repetidamente, medicada, mas sem alívio. Ninguém havia descoberto o instrumento esquecido.
Em abril, três meses depois da cirurgia original, Érica foi levada às pressas para o centro cirúrgico na madrugada do dia onze. Desta vez, os médicos encontraram a tesoura. O raio-X confirmava o que seu corpo vinha gritando: o instrumento estava lá, e o dano colateral era grave. Parte de seu intestino delgado havia necrosado — o tecido havia morrido por falta de circulação.
O que se seguiu foi uma cascata de intervenções cirúrgicas. Além da cirurgia para remover a tesoura, Érica precisou passar por uma operação para corrigir uma hérnia, outra para drenar um abscesso que se formou no intestino, e uma quarta para tratar um abscesso no fígado. Quatro cirurgias no total. Quatro vezes sob anestesia, quatro vezes o corpo sendo aberto e reconstruído. Ela está ainda em recuperação, ainda processando o risco de vida que enfrentou, ainda tentando entender psicologicamente tudo que atravessou.
Após a descoberta, a Santa Casa reconheceu o ocorrido e passou a oferecer assistência. Como Érica havia perdido seu convênio de saúde durante esse período, o hospital começou a custear todos os atendimentos relacionados ao caso. Seus três filhos também recebem acompanhamento psicológico oferecido pela instituição. Mas o reconhecimento veio tarde demais para evitar o sofrimento.
Dois dias após a remoção da tesoura, advogados do médico responsável a procuraram com uma proposta de acordo. A Santa Casa também tentou intermediar uma reunião entre ela e representantes do profissional. Érica preferiu não avançar nas negociações naquele momento. Há também outra questão que a incomoda: antes e depois da cirurgia, o mesmo médico havia insistido para que ela realizasse uma cirurgia estética de retirada de excesso de pele e gordura abdominal, com custo particular de oito mil e quinhentos reais. Durante uma internação em julho, ela o viu novamente no hospital, atendendo normalmente, e isso a perturbou.
O caso agora tramita na esfera criminal. Um Termo Circunstanciado foi registrado na Vara do Juizado Especial Cível e Criminal de Bragança Paulista desde vinte e oito de maio, e o procedimento está em andamento. A Santa Casa informou que, em cumprimento ao sigilo assistencial e à proteção de dados, não se manifesta publicamente sobre casos individualizados, mas permanece à disposição das autoridades competentes. O médico responsável não respondeu aos contatos da imprensa até o momento da publicação.
Citations marquantes
Eu já cheguei no hospital desnorteada de dor. Eles me medicaram, mas não passava. Não cortava o vômito, não cortava a dor.— Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz
Agora que tá caindo minha ficha, né? De todo risco de vida que eu tive. Eu tô me recuperando, eu tô tentando entender psicologicamente ainda tudo que eu tô passando.— Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz