Noah sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e permaneceu 40 minutos em reanimação antes de ser declarado morto pelos médicos da Santa Casa de Araçatuba. Funcionários da funerária encontraram o bebê respirando dentro do invólucro no necrotério, cinco horas após a declaração de óbito e início dos preparativos do funeral.
Bebê dado como morto volta a respirar no necrotério após cinco horas de luto
Foram cinco horas de luto. Como é que é recuar nesse luto?
Como os pais conseguem processar emocionalmente passar de um funeral planejado para uma criança viva em questão de horas?
Nildo diz que é impossível explicar. Ele viveu cinco horas de luto completo — contratou caixão, flores, tudo — e depois teve que recuar daquele luto. Ele usa a palavra "surreal". Letícia fala de gratidão e medo ao mesmo tempo. Não é alegria pura. É algo mais complexo.
Os médicos realmente não têm nenhuma explicação?
O diretor da Santa Casa foi bem claro: não encontraram justificativa. Fizeram investigação administrativa, a comissão de ética está analisando. Mas ninguém consegue explicar por que um bebê declarado morto, após 40 minutos de reanimação, voltou a respirar cinco horas depois.
E essa Síndrome de Lázaro que mencionam — é uma explicação real ou mais uma tentativa de dar nome ao inexplicável?
É uma hipótese discutida na literatura médica. Retorno espontâneo da circulação após encerramento das manobras. Mas o especialista deixa claro que o padrão descrito na ciência envolve minutos, não horas. E raramente em crianças. Noah foge completamente do padrão.
Os funcionários da funerária — como eles reagiram ao encontrar o bebê vivo?
Mateus e Regina estavam fazendo seu trabalho rotineiro. Ouviram movimento no invólucro, escutaram o som de respiração. Regina percebeu na terceira vez que algo estava errado e chamou Mateus. Eles agiram rápido, levaram o bebê de volta. Depois, Mateus refletiu: "Estamos habituados a lidar com o fim da vida. Dessa vez, lidamos com a vida."
E agora, qual é o estado do Noah?
Ele segue internado em UTI, intubado, em um hospital de referência para anomalias congênitas. Precisa de um procedimento na língua antes de continuar o tratamento. Sem previsão de alta. Os pais aguardam, vivendo entre a gratidão de tê-lo de volta e o medo do que ainda pode acontecer.
El Pulso
- Noah sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e permaneceu 40 minutos em reanimação antes de ser declarado morto
- Funcionários da funerária encontraram o bebê respirando no necrotério, cinco horas após a declaração de óbito
- Bebê prematuro com fenda palatina congênita permanece internado em UTI aguardando procedimento cirúrgico
- Síndrome de Lázaro é extremamente rara em crianças; retorno espontâneo após horas não tem precedentes na literatura médica
Noah sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e permaneceu 40 minutos em reanimação antes de ser declarado morto pelos médicos da Santa Casa de Araçatuba. Funcionários da funerária encontraram o bebê respirando dentro do invólucro no necrotério, cinco horas após a declaração de óbito e início dos preparativos do funeral.
Pais de Noah recebem declaração de óbito e iniciam preparativos para velório, mas descobrem filho vivo no necrotério após funcionários da funerária perceberem movimentos. Caso intriga médicos e pode envolver síndrome rara.
José Nildo dos Santos e Letícia da Cruz Santos receberam uma declaração de óbito no dia 15 de julho. Seu filho Noah, um bebê prematuro de um mês de vida, havia sofrido duas paradas cardiorrespiratórias na Santa Casa de Araçatuba. Os médicos o mantiveram em manobras de reanimação por mais de 40 minutos. Todos os aparelhos indicavam morte. A equipe clínica confirmou o óbito. Os pais foram autorizados a se despedir do corpo. Nildo viu apenas um corpo sem vida. O hospital entregou aos pais uma mensagem de condolências: "O amor que sentimos será para sempre".
Nos dias anteriores, a história de Noah já havia sido marcada por adversidades. Durante a gravidez, um ultrassom revelou que o bebê tinha fenda palatina, uma malformação congênita que afeta o céu da boca. Letícia foi internada no sétimo mês de gestação após descobrir uma pedra nos rins. Com 35 semanas, exames mostraram batimentos cardíacos baixos no feto. Os médicos decidiram fazer uma cesariana de emergência. Noah nasceu prematuro e foi direto para a Unidade de Terapia Intensiva neonatal. Nildo acompanhou cada dia da internação. "Não faltei um dia", lembra ele. Então veio a parada cardíaca no primeiro mês de vida.
Os pais começaram a organizar o funeral. Contrataram caixão, flores, serviços de velório e sepultamento. Tudo estava acertado. Mas na madrugada do mesmo dia, algo extraordinário aconteceu no necrotério da Santa Casa. Funcionários da funerária foram buscar o corpo. Mateus Batagelo, agente funerário, abriu a porta do necrotério e acendeu a luz. Sua colega Regina Célia Pascoal entrou para retirar o bebê. "Aí eu já escutei o invólucro se mexendo e um barulho, querendo respirar", conta Regina. Ela chamou Mateus. "Na terceira vez eu falei: 'Mateus, o nenê tá vivo, Mateus, corre atrás uma enfermeira'", relembra Regina. O bebê foi retirado imediatamente do invólucro e levado de volta para atendimento médico. Cinco horas haviam se passado desde a declaração de óbito.
Poucas horas depois, o telefone dos pais tocou. Uma enfermeira os chamava de volta ao hospital. Quando chegaram, ouviram palavras que não esperavam ouvir: "Não sei no que vocês acreditam. Não sei o que aconteceu aqui. Está todo mundo em choque. O Noah está vivo." Nildo descreve o momento como surreal. "Você tem noção do que é ter uma declaração de óbito do seu filho nas mãos e depois olhar para ele e ver que ele não está morto, está vivo? Não tem explicação", diz. "Foram cinco horas de luto. Como é que é recuar nesse luto? Eu não consigo explicar. É surreal ter ele de volta."
O diretor médico da Santa Casa, Marco Aurélio Mestrinel, admite que não há explicação para o ocorrido. "A gente não encontrou nenhuma justificativa do que pode ter acontecido." O hospital concluiu uma investigação administrativa e o caso segue sendo analisado pela comissão de ética da instituição. Especialistas consultados apontam para a possível Síndrome de Lázaro, um fenômeno raro em que a circulação espontânea retorna após o encerramento das tentativas de reanimação. Nelson Horigoshi, gerente médico do Hospital Infantil Sabará, explica que casos semelhantes são extremamente raros no mundo inteiro. Uma revisão de 2020 reuniu apenas 65 casos documentados, a maioria envolvendo adultos e idosos. "Crianças já ficam fora da curva", afirma. Segundo a literatura médica, quando ocorrem retornos espontâneos da circulação, cerca de 70% das pessoas retornam até cinco minutos, e o restante em até dez minutos. O caso de Noah é excepcional porque se estendeu por horas.
Dois dias após ser encontrado respirando no necrotério, Noah foi transferido para o Hospital das Clínicas de Bauru, instituição de referência no tratamento de doenças genéticas e anomalias congênitas. O bebê permanece internado na UTI, intubado, aguardando um procedimento na língua antes de dar continuidade ao tratamento. Não há previsão de alta. Os pais vivem um misto de gratidão e apreensão. "A gente sente muita gratidão, mas também sente medo", diz Letícia. Mateus Batagelo, o agente funerário que encontrou o bebê vivo, resume a experiência de forma simples: "Estamos habituados a lidar com o fim da vida. Dessa vez, lidamos com a vida. Tivemos que salvar em vez de sepultar." Nildo e Letícia já não chamam o filho apenas pelo apelido de "Nonô". "Agora ele é o nosso bebê milagre."
Citas Notables
Não sei no que vocês acreditam. Não sei o que aconteceu aqui. Está todo mundo em choque. O Noah está vivo.— Enfermeira do hospital, ao chamar os pais de volta
Estamos habituados a lidar com o fim da vida. Dessa vez, lidamos com a vida. Tivemos que salvar em vez de sepultar.— Mateus Batagelo, agente funerário