Rita Lee, rainha do rock brasileiro, morre aos 75 anos

Rita Lee faleceu aos 75 anos após lutar contra câncer de pulmão diagnosticado em 2021, deixando três filhos e um legado de quase 60 anos de carreira artística.
Me aposento dos shows, mas da música nunca
Rita Lee anunciou sua aposentadoria dos palcos em 2012, mas continuou criando até o fim da vida.
Mark

Por que os Mutantes importaram tanto para a música brasileira e mundial?

Mimi

Porque eles fizeram algo que parecia impossível: pegaram a psicodelia, aquela coisa experimental que vinha da Inglaterra e dos EUA, e a enfiaram dentro dos ritmos locais brasileiros. Não era cópia, era fusão real. E Rita estava no centro disso, com a voz dela, a criatividade dela.

Mark

Ela deixou a banda aos 24 anos. Como alguém tão jovem conseguiu construir uma carreira solo que durasse décadas?

Mimi

Porque ela já era completa como artista. Não era só voz. Ela compunha, ela tinha ideias, ela sabia o que queria. E quando começou a trabalhar com Roberto de Carvalho, encontrou um parceiro que a entendia. Mas antes disso, ela já tinha provado que conseguia fazer sucesso sozinha.

Mark

A autobiografia dela, em 2016, revelou coisas muito pesadas — abuso sexual na infância, luta contra drogas e álcool. Por que ela decidiu contar tudo isso?

Mimi

Acho que porque Rita nunca foi alguém que fingisse ser outra coisa. A irreverência dela era real. Ela não tinha medo de mostrar as cicatrizes. E isso tornou o livro poderoso — não era só a história de uma estrela, era a história de uma pessoa que sobreviveu a coisas muito difíceis.

Mark

Qual era a diferença entre Rita e outras mulheres na música brasileira da época?

Mimi

Rita não pedia permissão. Ela abaixava a calça no palco se quisesse, ela discutia com policial, ela saía de banda quando achava que tinha que sair. Num tempo em que mulheres na música eram frequentemente controladas, Rita era selvagem. E isso inspirou gerações.

Mark

Ela se aposentou dos shows em 2012, mas continuou criando. O que isso diz sobre ela?

Mimi

Que a música não era um trabalho para Rita, era quem ela era. Mesmo quando o corpo não aguentava mais fazer turnês, ela ainda estava compondo, ainda estava pensando em arte. A música era inseparável dela.

  • Rita Lee morreu aos 75 anos em 9 de maio de 2023, após diagnóstico de câncer de pulmão em maio de 2021
  • Liderou os Mutantes de 1966 a 1972, banda brasileira mais cultuada no mundo, idolatrada por Kurt Cobain, David Byrne e Jack White
  • Gravou 40 álbuns ao longo de quase 60 anos de carreira: 6 com os Mutantes e 34 na carreira solo
  • Ganhou Grammy Latino em 2001 e prêmio de Excelência Musical em 2022; também foi escritora e ativista ambiental
  • Deixa três filhos: Roberto, João e Antônio

Rita Lee foi fundamental no tropicalismo e liderou os Mutantes, banda brasileira mais cultuada no mundo, idolatrada por Kurt Cobain, David Byrne e Jack White. Após deixar os Mutantes em 1972, ela construiu carreira solo de grande sucesso comercial com álbuns como 'Rita Lee' (1979) e 'Saúde' (1981), totalizando 40 álbuns.

Rita Lee, uma das maiores cantoras e compositoras da história da música brasileira, morreu aos 75 anos após diagnóstico de câncer de pulmão em 2021. Sua carreira de quase 60 anos incluiu passagem marcante pelos Mutantes e sucesso na carreira solo.

Rita Lee morreu na terça-feira, 9 de maio, aos 75 anos. A notícia chegou após dois anos de luta contra o câncer de pulmão, diagnosticado em maio de 2021, quando ela já era uma figura monumental na história da música brasileira — quase seis décadas de carreira que a transformaram em símbolo vivo de criatividade, irreverência e liberdade feminina.

Nascida em São Paulo no último dia de 1947, filha de um dentista americano e de uma pianista italiana, Rita cresceu cercada de música. Aos 16 anos já cantava profissionalmente, integrada a um trio vocal feminino. Mas foi em 1966, quando ajudou a formar os Mutantes junto com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, que sua trajetória ganhou dimensão histórica. O trio se tornou o veículo perfeito para unir a psicodelia aos ritmos locais, tornando-se peça fundamental do tropicalismo — aquele movimento que redefiniu a música brasileira no final dos anos 60. Eles acompanharam Gilberto Gil em "Domingo no parque" e Caetano Veloso em "É proibido proibir", dois marcos do movimento, e participaram do álbum "Tropicália ou Panis et Circensis", em 1968, a gravação que consolidou tudo aquilo. Os Mutantes se tornaram a banda brasileira de rock mais cultuada no mundo, idolatrados por Kurt Cobain, David Byrne, Jack White e Beck — músicos que reconheciam neles algo que transcendia fronteiras.

Rita permaneceu nos Mutantes de 1966 a 1972, período em que a banda gravou cinco álbuns memoráveis. Quando saiu do grupo, em 1972, já havia lançado seu primeiro disco solo, "Build up", em 1970. O que veio depois foi uma carreira solo que provou sua capacidade de criar canções com enorme apelo popular sem abrir mão da liberdade e da irreverência que a definiam. Trabalhou com o grupo Tutti Frutti, depois se firmou definitivamente a partir de 1979, quando começou a parceria com o marido Roberto de Carvalho. Álbuns como "Rita Lee" (1979) e "Saúde" (1981) a consolidaram como uma força do pop-rock brasileiro. "Mania de Você", "Chega mais", "Lança perfume", "Baila comigo" — essas canções não apenas tocavam nas rádios, elas definiam gerações. Ao todo, Rita gravou 40 álbuns: seis com os Mutantes, 34 na carreira solo.

Sua vida pessoal foi tão intensa quanto sua obra. Em 1996, caiu da varanda de seu sítio sob efeito de medicamentos e quebrou a mandíbula. Lutou contra o alcoolismo e as drogas durante anos, conseguindo se libertar apenas em janeiro de 2006. Em 2016, lançou sua autobiografia e revelou publicamente que havia sido abusada sexualmente aos seis anos de idade. O livro se tornou um sucesso de vendas, e nele ela falou com sinceridade brutal sobre episódios da carreira e da vida pessoal — incluindo sua expulsão dos Mutantes em 1972.

Além de música, Rita foi escritora. Publicou a série "Dr. Alex", focada em causas ambientais e animais, livros infantis como "Amiga Ursa", e outras obras como "FavoRita", "Dropz" e "Storynhas". Participou de novelas como "Top Model", "Malu Mulher", "Vamp" e "Celebridade". Em 2001, ganhou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa com "3001", e receberia em 2022 o prêmio de Excelência Musical pelo conjunto da obra.

Em 2012, anunciou que se aposentaria dos shows por fragilidade física — "Me aposento dos shows, mas da música nunca", escreveu no Twitter. Seu último show anunciado como final aconteceu em janeiro de 2012, no Festival de Verão de Sergipe, onde se envolveu em uma discussão com um policial e foi acusada de desacato à autoridade. Mas Rita nunca foi alguém que respeitasse limites convencionais. Fez ainda um show no Distrito Federal no fim daquele ano, onde abaixou a calça para o público, e cantou no aniversário de São Paulo em 2013, ovacionada. Seu último álbum de inéditas em estúdio, "Reza", saiu em abril de 2012.

Quando foi diagnosticada com câncer de pulmão em maio de 2021, Rita continuou criando. Quatro meses depois, lançou o single "Changes", em parceria com Roberto de Carvalho e o produtor Gui Boratto. Em abril de 2022, seu filho Beto Lee anunciou que ela estava curada. Nos últimos anos, viveu em um sítio no interior de São Paulo com a família. Deixa três filhos: Roberto, João e Antônio. O título de "rainha do rock brasileiro" veio quase naturalmente ao longo dos anos, mas Rita sempre achou a expressão "cafona". Preferia ser chamada de "padroeira da liberdade".

Preferia ser chamada de 'padroeira da liberdade' em vez de 'rainha do rock brasileiro'
— Rita Lee
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