No limiar de 2022, quatro estados brasileiros viram seus sistemas de saúde curvarem-se sob o peso de uma onda que, embora menos mortal que as anteriores, movia-se com uma velocidade que a vacinação ainda não conseguia conter. Ceará, Goiás, Pernambuco e Espírito Santo ultrapassaram 80% de ocupação nas UTIs, enquanto profissionais de saúde adoeciam em massa e filas de espera por leitos voltavam a se formar — lembrando ao país que a pandemia ainda não havia terminado de escrever sua história.
Quatro estados atingem ocupação de UTI acima de 80% com explosão de casos de Covid-19
um tsunami de pessoas infectadas em curto intervalo de tempo
Por que esses quatro estados em particular chegaram a 80% de ocupação ao mesmo tempo?
A ômicron tem transmissibilidade sem precedentes. Ela não escolhe estado. O que varia é como cada rede de saúde estava estruturada antes disso chegar.
Mas a gente não sabe se é realmente "ao mesmo tempo" ou se os dados foram coletados em dias diferentes. A reportagem cita segunda, terça... são datas diferentes.
Verdade. Mas o padrão é claro: janeiro de 2022 foi quando a variante explodiu em vários lugares simultaneamente.
E as medidas que os governos tomaram — passaporte vacinal, limite de pessoas — elas funcionaram?
A reportagem não diz. Ela registra que as medidas foram implementadas, mas não há dados sobre o impacto.
Exatamente. Sabemos que Pernambuco limitou eventos a 3 mil pessoas, mas não sabemos se isso desacelerou a ocupação de UTI depois.
O que mais me chocou foi a fila de espera. Sete pessoas em Pernambuco, 32 em Goiás. Isso é muito ou pouco?
Depende do contexto. Sete em um estado inteiro é relativamente controlado. Mas o ponto é que havia fila. Havia gente esperando.
E em Manaus, onde havia mais de 500 pessoas na fila um ano antes, agora havia menos pressão absoluta. Mas a reportagem não explica se é porque a vacinação funcionou ou porque o sistema aprendeu a lidar melhor.
Os profissionais de saúde afastados — 15% no Ceará, 20% no Rio — isso prejudicou o atendimento?
Claramente. Cirurgias foram canceladas, escalas foram reorganizadas, tiveram que contratar gente de emergência.
Mas a reportagem não quantifica o impacto real. Não diz quantas cirurgias foram adiadas, quantas pessoas foram prejudicadas por isso.
E a vacinação? 72% do Amazonas com esquema completo — isso é suficiente?
Segundo os especialistas citados, a vacina ajuda a frear o agravamento. Mas a ômicron é tão transmissível que mesmo com vacinação alta, você tem um "tsunami" de casos.
Mas "tsunami" é uma metáfora. O número exato de casos novos por dia não está claro em todos os estados. Temos 2.674 para o Amazonas em um dia, mas não temos comparação com outros estados.
O Pulso
- A variante ômicron provocou um 'tsunami' de infectados em poucas semanas, elevando a ocupação de UTIs a níveis comparáveis aos piores momentos de 2021, mesmo com vacinação avançada.
- Profissionais de saúde adoeceram em proporções alarmantes — 15% no Ceará e 20% no Rio de Janeiro —, forçando suspensão de cirurgias eletivas, cancelamento de atendimentos de emergência e contratações emergenciais.
- Governos estaduais responderam com restrições: limite de público em eventos, exigência de passaporte vacinal, proibição de festas de Carnaval e retorno ao trabalho remoto para servidores públicos.
- São Paulo e Rio de Janeiro, com ocupações de UTI em alta acelerada, ampliaram leitos e contrataram pessoal, mas especialistas alertaram que o ritmo de contágio sem precedentes continuava pressionando o sistema além de sua capacidade de resposta.
No limiar de 2022, quatro estados brasileiros viram seus sistemas de saúde curvarem-se sob o peso de uma onda que, embora menos mortal que as anteriores, movia-se com uma velocidade que a vacinação ainda não conseguia conter. Ceará, Goiás, Pernambuco e Espírito Santo ultrapassaram 80% de ocupação nas UTIs, enquanto profissionais de saúde adoeciam em massa e filas de espera por leitos voltavam a se formar — lembrando ao país que a pandemia ainda não havia terminado de escrever sua história.
No início de 2022, Ceará e Goiás registravam 87% de ocupação nos leitos de UTI para Covid-19, enquanto Pernambuco marcava 86% e Espírito Santo, 80%. A pressão sobre os hospitais remetia ao cenário de julho de 2021, desta vez impulsionada pela variante ômicron — menos letal, mas de transmissibilidade sem precedentes.
Em Pernambuco, a taxa de testes positivos saltou de 3% para 23% em apenas duas semanas, e filas de quatro horas se formavam nos postos de testagem gratuita do Recife. O governo limitou eventos a 3 mil pessoas e exigiu passaporte vacinal em bares, restaurantes e espaços culturais. Goiás proibiu festas de Carnaval, limitou estabelecimentos a 500 pessoas e autorizou parte dos servidores a retornar ao home office, enquanto 32 pacientes aguardavam leito de UTI na rede pública estadual.
No Ceará, além da alta ocupação, cerca de 15% dos profissionais de saúde estavam afastados desde dezembro com sintomas gripais ou Covid-19, levando o governo a abrir mais de 150 vagas temporárias para médicos. O Espírito Santo, com 80% de ocupação, iniciou a oferta de 470 testes rápidos diários na capital Vitória.
O Amazonas, que um ano antes havia vivido o colapso com mortes por asfixia, registrava 77% de ocupação nas UTIs públicas e alta de mais de 1.000% na média móvel de casos em menos de duas semanas — mas ainda distante do pico anterior, quando mais de 500 pacientes aguardavam leito. O governo adiou o início presencial do ano letivo e cancelou os desfiles de Carnaval.
Em São Paulo, a ocupação de UTIs para Covid saltou de 25% no dia 1º de janeiro para 54% no dia 17, chegando a 69% na capital — patamar não visto desde junho de 2021. O estado ampliou em 11% o número de leitos intensivos em dez dias. No Rio de Janeiro, o número de internados mais que triplicou em seis dias, e 20% dos profissionais de saúde estavam afastados. Todas as cirurgias eletivas da rede estadual foram suspensas, e a prefeitura contratou emergencialmente mais de 1.600 profissionais para cobrir as ausências. O hospital Cardoso Fontes chegou a suspender atendimentos de emergência porque 45% de sua equipe estava doente.
Especialistas alertaram que, embora a ômicron causasse formas menos graves da doença, seu ritmo de contágio traduzia-se em um volume diário de pessoas buscando atendimento hospitalar capaz de sobrecarregar qualquer sistema de saúde — vacinado ou não.
No início de 2022, quatro estados brasileiros enfrentavam uma crise simultânea nos seus sistemas de saúde. Ceará e Goiás lideravam o cenário crítico, ambos com 87% de ocupação nos leitos de terapia intensiva destinados a pacientes graves. Pernambuco vinha logo atrás com 86%, seguido pelo Espírito Santo com 80%. A escalada de casos de Covid-19 naquelas primeiras semanas do ano havia reproduzido uma pressão hospitalar comparável àquela registrada em julho de 2021, quando a segunda onda da pandemia começava a recuar no país.
Em Pernambuco, o governo respondeu anunciando a abertura de novos leitos para síndrome respiratória aguda grave. Com 952 leitos disponíveis, o estado enfrentava uma fila de espera de sete pacientes apenas na segunda-feira 17 de janeiro. A proporção de testes positivos havia saltado dramaticamente: em duas semanas, o percentual de pessoas testadas que recebiam diagnóstico de Covid passou de 3% para 23%. Nas unidades de testagem gratuita do Recife, filas chegavam a quatro horas de espera. Diante desse cenário, a administração estadual limitou a capacidade de eventos a 3 mil pessoas e determinou a exigência de passaporte vacinal para acesso a bares, restaurantes, cinemas, teatros e museus até 31 de janeiro.
Goiás enfrentava pressão semelhante. Na rede pública estadual, 87% dos 163 leitos de UTI para Covid-19 destinados a adultos estavam ocupados, com 32 pessoas aguardando internação na terça-feira 18 de janeiro. A capital goiana respondeu proibindo festas de Carnaval e publicando decreto que limitava a ocupação de qualquer estabelecimento a 500 pessoas, afetando principalmente grandes eventos. Parte dos servidores públicos da prefeitura recebeu autorização para retornar ao trabalho remoto.
O Ceará registrava taxa de ocupação de 86,6% e enfrentava um problema adicional: cerca de 15% dos profissionais de saúde da rede pública estavam afastados desde dezembro com sintomas gripais, incluindo Covid-19. Essa escassez de pessoal levou o governo estadual a abrir seleção para mais de 150 vagas temporárias para médicos de diversas especialidades. No Espírito Santo, com 80% de ocupação, a Prefeitura de Vitória começou a disponibilizar 470 testes rápidos diários a partir de 18 de janeiro, com agendamento pela internet.
O Amazonas, que um ano antes havia vivido colapso do sistema de saúde com mortes por asfixia em hospitais, registrava ocupação de 77% dos leitos públicos de UTI para Covid-19. O número de leitos intensivos ocupados havia saltado de 18 no início do mês para 58 na segunda-feira 17. A média móvel de casos teve alta de 1.007% entre 1º e 13 de janeiro, com crescimento ainda maior em Manaus, de 2.493%. Apenas naquele dia 17, foram confirmados 2.674 casos no estado. Ainda assim, a pressão estava longe de equiparar-se ao pico anterior: no auge da transmissão da variante gama, as redes pública e privada haviam chegado a 753 leitos de UTI e 1.977 leitos clínicos ocupados, com fila de espera superior a 500 pacientes. O Amazonas havia aplicado 5,6 milhões de doses de vacina, com cerca de 72% da população acima de 12 anos com esquema vacinal completo. O governo adiou para 14 de fevereiro o início presencial do ano letivo nas escolas da rede pública estadual e cancelou o desfile das escolas de samba.
Em São Paulo, a taxa de ocupação de leitos de UTI para Covid-19 havia alcançado 54% na segunda-feira 17 de janeiro, com tendência de alta. O índice era de 39% em 10 de janeiro e 25% no primeiro dia do ano. Na capital paulista, o cenário era mais preocupante, com ocupação de 69% dos leitos para pacientes graves com Covid-19. Wallace Casaca, coordenador da plataforma SP Covid-19 Info Tracker, observou que a última vez que a capital havia registrado taxa de 69% foi no final de junho de 2021, quando grande parte da população ainda não tinha esquema vacinal completo. O estado havia aumentado o número de leitos de UTI para Covid-19 de 4.021 para 4.455 entre 7 e 17 de janeiro, crescimento de 11%. Casaca alertava que embora menos letal que outras variantes, a ômicron tinha ritmo de contágio sem precedentes, levando a um "tsunami" de pessoas infectadas em curto intervalo de tempo, traduzindo-se em grande volume de pessoas diariamente procurando leitos hospitalares e causando sobrecarga no sistema de saúde.
No Rio de Janeiro, enquanto a rede estadual enfrentava apenas 10% de ocupação de leitos de terapia intensiva por Covid-19, a capital vivia situação distinta. A taxa de ocupação de UTIs públicas havia subido rapidamente para 64% na segunda-feira 17. O número de internados em enfermarias e leitos intensivos para Covid havia mais que triplicado em seis dias, passando de 163 para 624 entre 11 e 17 de janeiro. Estado e capital sofriam grande baixa de profissionais de saúde afastados pela doença. Todas as cirurgias eletivas foram suspensas por um mês na rede estadual pela falta de funcionários, que já atingia 20%, pelo risco de contaminação e pela redução de doações de sangue. Na rede municipal, 4.888 profissionais foram dispensados em menos de 20 dias, obrigando as unidades a reorganizar escalas e levando a prefeitura a contratar 1.280 pessoas para reforço, com outras 400 em processo de admissão. A rede federal também sentia as consequências: o Rio tinha seis hospitais da União, o maior número do país. O hospital Cardoso Fontes havia suspendido atendimentos de emergência na sexta-feira 17 porque 45% dos profissionais estavam com Covid ou influenza.
Citações Notáveis
Já prevíamos um aumento exponencial de casos, mas não tão grande. A variante ômicron tem uma transmissibilidade muito elevada e provoca uma quantidade bem menor de quadros graves, mas é diferente de não provocar quadros graves.— Anoar Samad, secretário estadual de Saúde do Amazonas
Embora menos letal que as demais variantes, a ômicron tem um ritmo de contágio sem precedentes, levando a um 'tsunami' de pessoas infectadas em um curto intervalo de tempo.— Wallace Casaca, coordenador da plataforma SP Covid-19 Info Tracker