Centenários com Covid-19 positivo mas sem sintomas e jovens saudáveis que morreram da doença revelam extremos que apontam para fatores genéticos determinantes. A pesquisa estuda múltiplos genes do sistema imunológico, não apenas um, sugerindo que a resistência à Covid-19 é mais complexa que em outras doenças como Aids.
Pesquisa da USP investiga genes que explicam por que centenários resistem à Covid enquanto jovens morrem
Centenários parecem frágeis, mas são o grupo mais resistente
Por que esses centenários assintomáticos importam tanto para a pesquisa? Eles não são apenas casos raros de sorte?
Não. Se um centenário com comorbidades consegue resistir à Covid-19 sem sintomas, isso sugere que há algo em seu código genético que o protege. Estudar isso pode revelar mecanismos que funcionam em qualquer pessoa.
Mas quantos centenários assintomáticos existem de verdade? O artigo menciona treze no estudo da Zatz. Como sabemos que são representativos e não apenas outliers?
E quanto aos jovens que morreram? O que o estudo encontrou neles?
Duas crianças tiveram seu genoma sequenciado e não apresentavam qualquer variação genética conhecida associada à vulnerabilidade. Mesmo assim morreram. Isso significa que há algo que a ciência ainda não consegue ver.
Exatamente. O artigo diz que o sequenciamento de duas crianças não revelou nada — mas isso é uma amostra muito pequena. Quarenta e cinco jovens foram autopsiados, mas só dois tiveram genoma sequenciado? Não sabemos o que os outros quarenta e três tinham.
Então a pesquisa está ainda no começo?
Muito. Zatz fala em um estudo de longo prazo. Eles estão coletando dados, sequenciando genomas, cultivando células. A meta é entender o sistema HLA, que tem mais de vinte e dois mil variações conhecidas.
Isso é importante notar: o sistema HLA é tão complexo que encontrar o que importa é literalmente procurar agulha em palheiro. Não há garantia de que vão encontrar algo útil em tempo hábil.
Mas se encontrarem, o que muda?
Tudo. Novas vacinas, medicamentos, e talvez um dia conseguir prever quem vai ter resposta forte à vacinação e quem não vai.
Ou seja: a pesquisa promete muito, mas ainda está no estágio de perguntas, não de respostas.
El Pulso
- Treze centenários estão sendo estudados pela USP, incluindo uma mulher de 114 anos que foi a pessoa mais velha a sobreviver à Covid-19
- Quarenta e cinco jovens sem comorbidades que morreram de Covid-19 foram autopsiados; dois tiveram genoma sequenciado
- Cem casais discordantes estão sendo investigados — situações em que um cônjuge adoeceu gravemente ou morreu enquanto o outro nada teve
- O sistema HLA tem mais de 22.548 alelos conhecidas, tornando a busca por variações genéticas de resistência extremamente complexa
Centenários com Covid-19 positivo mas sem sintomas e jovens saudáveis que morreram da doença revelam extremos que apontam para fatores genéticos determinantes. A pesquisa estuda múltiplos genes do sistema imunológico, não apenas um, sugerindo que a resistência à Covid-19 é mais complexa que em outras doenças como Aids.
Estudo da USP liderado por Mayana Zatz analisa genes de centenários assintomáticos e jovens que morreram de Covid-19 para identificar fatores de resistência ou vulnerabilidade ao coronavírus.
Parouhi Darakjian Kouyoumdjian contraiu dengue e Covid-19 ao mesmo tempo em agosto de 2020, mas os sintomas que desenvolveu pareciam mais compatíveis com a dengue. Ela se recuperou bem. O que torna seu caso notável não é apenas a coinfecção rara, mas o fato de que ela tinha cem anos de idade quando isso aconteceu. Hoje, seus genes e células continuam a interessar cientistas da Universidade de São Paulo que tentam desvendar um dos mistérios mais perturbadores da pandemia: por que alguns centenários aparentemente frágeis são infectados e nem sequer apresentam sintomas, enquanto jovens saudáveis, sem qualquer fator de risco conhecido e com acesso a bom atendimento médico, morrem da doença.
A pesquisa é liderada pela geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco da USP. Seu trabalho investiga quais genes podem tornar as pessoas mais resistentes ou vulneráveis ao coronavírus. A ciência está procurando nos extremos da pandemia — nos casos de resistência extraordinária e nos de suscetibilidade extrema — para encontrar os pontos fracos do Sars-CoV-2. O vírus é um assassino em massa, mas deixa flancos expostos, visíveis mais facilmente nessas situações limite.
Zatz está convencida, baseada em dados epidemiológicos recentes, de que os resistentes são mais frequentes do que os suscetíveis a agravamento. O problema é que ainda assim são milhões os vulneráveis, e até agora não há como identificá-los. Tampouco é fácil encontrar os resistentes porque não há como saber quem foi ou não exposto ao vírus, devido à baixa testagem no Brasil. Os centenários com teste PCR positivo são resistentes evidentes, assim como jovens sem comorbidades que faleceram — esses são os casos que a equipe estuda com prioridade.
O que torna a Covid-19 diferente de outras doenças é sua complexidade genética. Na Aids, a resistência está associada a uma mutação específica no gene CCR5, que bloqueia o vírus. Na Covid-19, não é um único gene que explica por que centenários com comorbidades escapam ilesos enquanto jovens morrem. É um conjunto de genes que parece estar envolvido. A vulnerabilidade também não está associada a um gene só. Identificar essas características promete revelar mecanismos fundamentais da doença e abrir caminho para novas vacinas e medicamentos. Há também aplicações mais imediatas: Zatz quer entender, por exemplo, por que algumas pessoas produzem mais anticorpos em resposta à vacina do que outras.
O estudo examina múltiplos grupos. Além de centenários sobreviventes e jovens que faleceram, a pesquisa investiga mais de oitenta nonagenários que se curaram ou sequer manifestaram sintomas mesmo testando positivo; cem casais discordantes, definidos como aqueles em que um cônjuge adoeceu com gravidade ou morreu enquanto o outro nada teve; e gêmeos igualmente expostos ao coronavírus. O trabalho com jovens que morreram sem qualquer comorbidade — quarenta e cinco indivíduos até o momento — é realizado em parceria com Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP.
Os centenários parecem frágeis, mas são o grupo mais resistente, segundo Zatz. Aguentam qualquer desaforo do ambiente. Seu grupo estuda treze centenários. A meta é sequenciar o genoma deles, multiplicar suas células em laboratório, obter células-tronco e estudar como essas células respondem ao Sars-CoV-2, inclusive às variantes. Parouhi foi uma das primeiras participantes. Nasceu no que hoje é a Armênia, mas chegou ao Brasil aos seis anos fugindo do massacre dos armênios pelos turcos. Seu filho, o médico João Aris Kouyoumdjian, de sessenta e sete anos, conta que a mãe passou fome e muitas dificuldades, mas sempre teve saúde férrea. Ela continua muito bem, com apenas alguns problemas de visão e audição naturais do envelhecimento, já tomou as duas doses da vacina e está ansiosa pelo fim da pandemia.
Outra participante é uma mulher de cento e seis anos que sobreviveu à gripe espanhola de 1918-1919 e à Covid-19 em 2020. Há também uma senhora de cento e quatro anos que não tem um rim e nem por isso a Covid-19 agravou. Ainda mais notável é uma idosa de cento e quatorze anos, da Paraíba, que faleceu no ano passado por causas não relacionadas à pandemia. Segundo Zatz, era a pessoa mais velha a sobreviver à Covid-19. Suas células extraídas da pele para cultivo em laboratório normalmente morreriam se não fossem congeladas em poucas horas, mas as dela demoraram cinco dias para chegar a São Paulo e não apenas não morreram como se mostraram excepcionalmente ativas.
Nos jovens que agravam terrivelmente e morrem de Covid-19 sem comorbidades conhecidas, cientistas especulam que pode haver uma resposta imunológica deficiente controlada por uma configuração genética desfavorável. O trabalho de Saldiva com Marisa Dolhnikoff e Renata Monteiro é pioneiro em autópsias não-invasivas de vítimas da Covid-19. Entre o grupo inicial de quarenta e cinco vítimas jovens autopsiadas estavam quatro gestantes, dois bebês de mães com Covid-19 e seis crianças com menos de doze anos. O sequenciamento genético de duas dessas crianças já revelou que não apenas elas não tinham qualquer doença além da Covid-19 como tampouco apresentavam qualquer variação genética conhecida associada à vulnerabilidade. Saldiva enfatiza que nunca é fácil — é impossível se acostumar com autópsias de crianças — mas seu grupo é o que mais publicou estudos com autópsias de Covid-19 no mundo, mais de cento e dez.
Zatz acrescenta que estudos nos EUA indicaram a existência de pelo menos três genes do sistema imunológico que podem estar associados a uma maior vulnerabilidade. A resistência pode ser ainda mais complexa. Há pistas de que o chamado sistema HLA está envolvido. O sistema HLA é crucial nas defesas — é ele que identifica e reage a invasores como vírus. Mas caçar alterações no HLA é como procurar agulha em palheiro. Seus genes, seis principais e mais de cem relacionados, estão no cromossomo 6, e há mais de vinte e dois mil alelos conhecidas. Esse é um estudo de longo prazo que pode ajudar a combater esta e as próximas pandemias.
Citas Notables
Os centenários com PCR positivo são resistentes evidentes, assim como jovens sem comorbidades que faleceram. Por isso, os estudamos.— Mayana Zatz, geneticista e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco da USP
Nunca é fácil. Impossível se acostumar com autópsias de crianças. Nosso grupo é o que mais publicou estudos com autópsias de covid no mundo, mais de 110 autópsias.— Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP