Pacientes com cânceres hematológicos têm sistema imune comprometido pelos tratamentos imunossupressores contínuos, aumentando risco de complicações por covid-19. Dos 1.044 pacientes oncológicos estudados no Reino Unido, 319 morreram; aqueles com quimioterapia recente apresentaram risco aumentado de morte hospitalar.
Pacientes com câncer hematológico têm risco maior de covid-19 grave
O tratamento adiciona risco, mas sem ele, o paciente fica mais distante da remissão
Por que exatamente pacientes com cânceres hematológicos correm mais risco com covid-19 do que outros pacientes com câncer?
O sistema imunológico deles já está enfraquecido pelos tratamentos contínuos que recebem. Quando o coronavírus chega, o corpo tem menos capacidade de responder adequadamente.
Mas o estudo mostra correlação ou causalidade? Quer dizer, é o câncer hematológico em si, ou é o tratamento que torna a covid mais grave?
O especialista aponta para os tratamentos imunossupressores como o fator principal. E o estudo mostrou que quem tinha feito quimioterapia recente teve risco ainda maior de morte.
Então interromper o tratamento do câncer seria a solução?
Não. Maiolino deixa claro que pausar a terapia prejudicaria ainda mais o paciente. É um dilema: o tratamento adiciona risco de covid grave, mas sem ele, o câncer avança.
Quantos dos 1.044 pacientes tinham cânceres hematológicos especificamente? O estudo não detalha essa proporção.
Não, o estudo não separa esse número. Sabemos que 319 morreram no total, mas não temos a mortalidade específica do grupo hematológico.
E a vacinação? Funciona bem em quem tem o sistema imune comprometido?
Maiolino recomenda vacinação para esse grupo, com raras exceções. Ele até sugere que deveriam ter prioridade. Mas o estudo em si não avalia eficácia vacinal.
Porque o estudo é de agosto de 2020, antes das vacinas chegarem.
Exato. É por isso que as recomendações de vacinação vêm de especialistas interpretando os dados, não do próprio estudo.
Qual é o próximo passo? Como isso muda o cuidado desses pacientes?
Médicos agora têm evidências para orientar decisões sobre isolamento e proteção. E pacientes com cânceres hematológicos sabem que precisam de vigilância extra e vacinação prioritária.
Il Polso
- Estudo publicado na The Lancet em agosto de 2020 avaliou 1.044 pacientes oncológicos no Reino Unido
- 319 dos 1.044 pacientes morreram por covid-19
- Pacientes com cânceres hematológicos tiveram trajetória mais grave da doença que pacientes com tumores sólidos
- No Brasil, espera-se 10.810 novos casos de leucemia por ano (2020-2022) e 12.030 de linfoma não Hodgkin
Pacientes com cânceres hematológicos têm sistema imune comprometido pelos tratamentos imunossupressores contínuos, aumentando risco de complicações por covid-19. Dos 1.044 pacientes oncológicos estudados no Reino Unido, 319 morreram; aqueles com quimioterapia recente apresentaram risco aumentado de morte hospitalar.
Estudo publicado na The Lancet revela que pacientes com cânceres hematológicos como mieloma, leucemia e linfoma desenvolvem formas mais graves de covid-19 comparado a outros tipos de câncer, com maior necessidade de oxigênio e ventilação.
Um estudo publicado na revista The Lancet em agosto de 2020 trouxe uma descoberta preocupante: pacientes em tratamento de cânceres hematológicos — mieloma múltiplo, leucemia e linfoma — enfrentam risco significativamente maior de desenvolver formas graves de covid-19 do que aqueles diagnosticados com tumores sólidos como câncer de pulmão, próstata ou mama. A pesquisa, conduzida no Reino Unido, avaliou 1.044 pacientes oncológicos de ambos os sexos, com idades entre 40 e 80 anos, todos infectados pelo novo coronavírus.
Os números revelam a gravidade da situação. Entre os 1.044 pacientes estudados, 319 morreram pela doença, com associação clara ao aumento da idade. Mas o que distingue os pacientes com cânceres hematológicos é a trajetória mais severa da infecção: eles apresentaram necessidade significativamente maior de oxigênio de alto fluxo e ventilação não invasiva em comparação com pacientes que tinham tumores de órgãos sólidos. Ainda mais preocupante, aqueles que haviam recebido quimioterapia recentemente mostraram risco aumentado de morte durante a internação hospitalar associada à covid-19.
Angelo Maiolino, hematologista e coordenador da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, além de professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica o mecanismo por trás dessa vulnerabilidade aumentada. Segundo ele, esses pacientes correm mais riscos de complicações porque seu sistema imunológico já está comprometido pelos tratamentos imunossupressores contínuos necessários para controlar a doença de base. O desafio, porém, é delicado: o tratamento do câncer adiciona risco, mas interrompê-lo seria ainda mais prejudicial.
Maiolino ressalta a importância crítica de manter a continuidade terapêutica. "O tratamento adiciona o risco, mas sem ele, o paciente fica mais distante da remissão. Com a extensão da pandemia, vimos que seguir pausando as terapias acarretaria em um prejuízo enorme para os diagnosticados." Essa tensão — entre proteger o paciente de uma infecção potencialmente letal e permitir que ele continue lutando contra o câncer — definiu grande parte das decisões clínicas durante a pandemia.
Os pesquisadores apontam que os resultados do estudo podem ser úteis para orientar médicos sobre os riscos específicos da covid-19 em pacientes com cânceres hematológicos e para informar políticas de isolamento social baseadas em evidências. Maiolino reforça a importância da vacinação como medida preventiva essencial para esse grupo, além das precauções tradicionais: isolamento social, uso de máscaras e higienização das mãos. "Nós indicamos a vacinação para pessoas com câncer hematológico, salvo poucas exceções. Os pacientes com câncer, inclusive, deveriam ter prioridade," afirma o hematologista.
No Brasil, a incidência de cânceres hematológicos é considerável. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, espera-se uma média de 10.810 novos casos de leucemia por ano no triênio 2020-2022, em ambos os sexos. Para linfoma não Hodgkin, a projeção é de 12.030 novos registros anuais. A incidência do mieloma múltiplo permanece desconhecida no país, principalmente porque não integra as estimativas anuais do INCA. Esses números sublinham a relevância clínica do estudo para a população brasileira, onde milhares de pacientes enfrentam simultaneamente o desafio de tratar um câncer hematológico em contexto de pandemia.
Citazioni salienti
Esses pacientes com cânceres hematológicos correm mais riscos de complicações por conta do sistema imune já comprometido, em função dos tratamentos imunossupressores contínuos— Angelo Maiolino, hematologista e coordenador da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular
Nós indicamos a vacinação para pessoas com câncer hematológico, salvo poucas exceções. Os pacientes com câncer, inclusive, deveriam ter prioridade— Angelo Maiolino