Em meio à maior crise sanitária do século, o câncer não esperou — e o sistema de saúde, sobrecarregado, tampouco pôde. Um estudo publicado no JAMA Oncology revela que pacientes diagnosticados com câncer em 2020 e 2021 nos Estados Unidos sobreviveram menos no primeiro ano do que as tendências históricas indicavam, resultando em cerca de 17,4 mil mortes além do esperado. A pandemia não criou o câncer, mas perturbou os caminhos que levam ao seu diagnóstico e tratamento — e esse intervalo, por menor que pareça, custou vidas. A pergunta que permanece é se essas perdas foram uma cicatriz passageira
Interrupções na saúde durante pandemia pioraram sobrevivência de pacientes com câncer
As interrupções podem ter mudado o acesso e a rapidez com que as pessoas recebiam tratamento
Por que um estudo sobre sobrevivência em um ano importa tanto? Parece um período curto.
Porque é o primeiro indicador de como o tratamento inicial funcionou. Se alguém não sobrevive ao primeiro ano, nunca terá a chance de se recuperar a longo prazo. É onde o sistema de saúde faz sua diferença mais imediata.
Mas o estudo não conseguiu determinar exatamente o que causou a piora. Poderia ter sido covid-19 em pacientes já debilitados, atrasos no diagnóstico, atrasos no tratamento, ou uma combinação. Não sabemos.
Verdade. Mas os pesquisadores tentaram excluir mortes principalmente atribuídas ao coronavírus. E sabemos que exames de rastreamento foram adiados em massa.
Se as mortes gerais por câncer continuaram caindo, como a sobrevivência de curto prazo piorou?
Porque o sistema de saúde não esqueceu como tratar câncer. Mas o acesso e a velocidade mudaram. Pessoas diagnosticadas em 2020 e 2021 podem ter esperado mais tempo entre o diagnóstico e o tratamento.
Ainda assim, não temos dados sobre atrasos específicos. Sabemos que colonoscopias e mamografias foram adiadas, mas não sabemos quanto tempo as pessoas esperaram após o diagnóstico para começar o tratamento.
Exato. Por isso Hyuna Sung está certa em dizer que precisamos saber se isso foi temporário. Se as taxas de sobrevivência já se recuperaram em 2022 e 2023, talvez o sistema tenha se adaptado.
E se não se recuperaram?
Então temos um problema duradouro que ninguém está rastreando adequadamente ainda.
Le Pouls
- Mais de um milhão de diagnósticos de câncer foram analisados nos anos de pandemia, revelando um déficit silencioso de sobrevivência que só agora ganha contornos precisos.
- Colonoscopias adiadas, mamografias canceladas e hospitais à beira do colapso criaram brechas fatais no cuidado de pacientes já vulneráveis.
- O paradoxo inquieta os pesquisadores: as mortes gerais por câncer continuaram caindo nos EUA, mas os recém-diagnosticados durante a pandemia morreram mais do que o esperado no primeiro ano.
- Especialistas debatem se os impactos foram temporários — uma queda que se recupera — ou se os efeitos da pandemia ainda reverberam nos resultados de longo prazo dos pacientes.
- A comunidade científica pede que o sistema de saúde aprenda com esse episódio para estar mais preparado diante de futuras crises de escala semelhante.
Em meio à maior crise sanitária do século, o câncer não esperou — e o sistema de saúde, sobrecarregado, tampouco pôde. Um estudo publicado no JAMA Oncology revela que pacientes diagnosticados com câncer em 2020 e 2021 nos Estados Unidos sobreviveram menos no primeiro ano do que as tendências históricas indicavam, resultando em cerca de 17,4 mil mortes além do esperado. A pandemia não criou o câncer, mas perturbou os caminhos que levam ao seu diagnóstico e tratamento — e esse intervalo, por menor que pareça, custou vidas. A pergunta que permanece é se essas perdas foram uma cicatriz passageira ou uma ferida que ainda sangra.
Um estudo financiado pelo governo dos Estados Unidos e publicado na revista JAMA Oncology oferece a primeira avaliação sistemática do impacto da pandemia na sobrevivência de pacientes com câncer. Os dados são perturbadores: pessoas diagnosticadas em 2020 e 2021 tiveram taxas de sobrevivência no primeiro ano inferiores às daquelas diagnosticadas entre 2015 e 2019, padrão que se repetiu em múltiplos tipos de câncer e em diferentes estágios da doença.
A pesquisa analisou mais de um milhão de diagnósticos de câncer maligno registrados nos EUA durante a pandemia. Cerca de 144 mil desses pacientes morreram dentro de um ano após o diagnóstico — aproximadamente 17,4 mil a mais do que as tendências históricas sugeriam. Os cânceres colorretal, de próstata e de pâncreas apresentaram as diferenças mais pronunciadas.
Todd Burus, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Kentucky, reconheceu que não é possível apontar um único fator responsável pela piora. Ainda assim, destacou que as interrupções no sistema de saúde — exames adiados, hospitais sobrecarregados, acesso reduzido a tratamentos — provavelmente foram determinantes. A própria covid-19 representou risco adicional para pacientes já fragilizados pelo câncer.
Um paradoxo emerge dos dados: as mortes gerais por câncer nos EUA continuaram em queda durante a pandemia, sem grandes aumentos nos diagnósticos em estágio avançado. Burus sugere que as interrupções não apagaram décadas de avanços médicos, mas alteraram o ritmo e o acesso ao cuidado — e esse intervalo foi suficiente para custar vidas.
Pesquisadoras como Recinda Sherman e Hyuna Sung elogiaram o estudo e levantaram a questão central para o futuro: os impactos observados foram temporários ou duradouros? A resposta determinará se o sistema de saúde conseguiu se recuperar — ou se os ecos da pandemia ainda moldam, silenciosamente, o destino de pacientes com câncer.
Um estudo financiado pelo governo dos Estados Unidos, publicado na quinta-feira na revista médica JAMA Oncology, oferece a primeira avaliação sistemática de como as interrupções causadas pela pandemia afetaram a sobrevivência imediata de pacientes com câncer. Os dados são claros e perturbadores: pessoas diagnosticadas com câncer em 2020 e 2021 tiveram taxas de sobrevivência no primeiro ano inferiores às daqueles diagnosticados entre 2015 e 2019. O padrão se repetiu em múltiplos tipos de câncer e em pacientes com doença em estágio inicial e avançado.
O estudo analisou mais de um milhão de diagnósticos de câncer maligno realizados em 2020 e 2021, usando registros nacionais de câncer dos EUA. Aproximadamente 144 mil desses pacientes morreram no período de um ano após o diagnóstico. Quando os pesquisadores compararam essas taxas com as tendências observadas de 2015 a 2019, encontraram um déficit significativo: cerca de 17,4 mil mortes a mais do que o esperado. As diferenças mais pronunciadas apareceram em cânceres colorretal, de próstata e de pâncreas.
Todas as análises levaram em conta o estágio da doença no momento do diagnóstico. No geral, mais de 96% das pessoas diagnosticadas com câncer em estágio inicial durante a pandemia sobreviveram além de um ano, assim como mais de 74% daquelas com doença avançada. Esses números, porém, ficaram abaixo do que as tendências históricas sugeriam que deveriam ser. Todd Burus, da Universidade de Kentucky e autor principal da pesquisa, reconheceu que o estudo não conseguiu determinar com certeza qual fator específico causou a piora. "Mas as interrupções no sistema de saúde provavelmente foram um fator-chave", afirmou Burus, especialista em análise de dados médicos.
Durante a pandemia, muitas pessoas adiaram exames de rastreamento de câncer — colonoscopias, mamografias, exames de pulmão — enquanto hospitais e médicos enfrentavam sobrecarga, particularmente em 2020. A própria covid-19 representou um risco especial para pacientes já enfraquecidos pelo câncer. Os pesquisadores tentaram excluir mortes atribuídas principalmente ao coronavírus de suas análises para avaliar se outros fatores também influenciaram os resultados.
Um paradoxo emerge dos dados: as mortes gerais por câncer nos EUA continuaram em queda durante a pandemia, e não houve grandes aumentos nos diagnósticos em estágio avançado. Como, então, a sobrevivência de curto prazo piorou entre os recém-diagnosticados? Burus oferece uma explicação. As medidas de prevenção, diagnóstico e tratamento que vinham reduzindo as mortes por câncer há anos não desapareceram de repente. "Não esquecemos como fazer essas coisas", disse. "Mas as interrupções podem ter mudado o acesso e a rapidez com que as pessoas recebiam tratamento."
Recinda Sherman, pesquisadora de um estudo anterior sobre o tema e vinculada à Associação Norte-Americana de Registros Centrais de Câncer, elogiou o novo trabalho. "Como este é o primeiro estudo a documentar a sobrevivência específica relacionada à pandemia, acho que ele é importante", afirmou Sherman. "Quanto mais entendermos o impacto da covid-19, melhor poderemos nos preparar para a próxima."
Hyuna Sung, da Sociedade Americana do Câncer, levantou uma questão crítica para o futuro: se os impactos observados foram temporários ou duradouros. "Quedas temporárias na sobrevivência que se recuperam rapidamente podem ter pouco efeito nas tendências de mortalidade a longo prazo", observou. A resposta a essa pergunta determinará se o sistema de saúde conseguiu se recuperar ou se os efeitos da pandemia continuam a reverberar nos resultados dos pacientes com câncer.
Citations marquantes
As interrupções no sistema de saúde provavelmente foram um fator-chave— Todd Burus, Universidade de Kentucky
Quanto mais entendermos o impacto da covid-19, melhor poderemos nos preparar para a próxima— Recinda Sherman, Associação Norte-Americana de Registros Centrais de Câncer