No coração do Rio de Janeiro, Lula reuniu artistas e aliados num ato que misturou celebração e promessa política: o fim das plataformas de apostas esportivas e uma resposta simbólica ao discurso de poder de Donald Trump na ONU. O evento revelou, porém, que a unidade de uma coligação é sempre mais frágil do que o palco sugere — as vaias ao prefeito Cavaliere lembraram que, na política, os acordos feitos pelas lideranças nem sempre chegam inteiros até a plateia.
Lula promete fim das bets em ato com artistas no Rio; há vaias a aliado
Eu quero ganhar dele na narrativa. E nós estamos ganhando.
Por que Lula escolheu um evento com artistas para falar sobre apostas esportivas? Parece um tema que poderia estar em qualquer coletiva de imprensa.
Porque as bets viraram um símbolo. Não é só economia ou regulação — é sobre o que o governo acredita que está destruindo famílias e comunidades. Artistas têm voz, têm plateia. Quando Daniela Mercury chama as bets de bomba, isso ecoa diferente do que um porta-voz do Palácio do Planalto dizendo a mesma coisa.
Mas qual é a política real aqui? Lula prometeu acabar com as bets. Quando? Como? Quem vai fazer isso — o Congresso, uma medida provisória? O texto não diz.
Justo. É uma promessa de campanha. A execução é outra história. Mas para o eleitor que está ali, é o compromisso que importa naquele momento.
E quanto às vaias? Isso não enfraquece a mensagem?
Enfraquece a coligação, não a mensagem. O público vaiou Cavaliere porque ele pediu voto em Pedro Paulo, e muita gente quer Mônica Benício. É uma divisão real à esquerda.
Mas Lula conseguiu o que queria? Ele defendeu Pedro Paulo e disse que precisa de maioria no Senado. As vaias não mudaram isso.
E a crítica a Trump? Como isso se conecta com as bets e a política interna?
Não se conecta diretamente. Lula estava respondendo ao discurso dele na ONU. Mas mostra que ele está pensando em duas frentes — a campanha interna e a posição do Brasil no mundo.
Ele disse que está "ganhando na narrativa" contra Trump. Isso é verificável? Ou é retórica de campanha?
É retórica. Mas é o que Lula acredita estar fazendo — disputar a narrativa internacional, não a força militar.
Então o evento funcionou para Lula?
Funcionou para reafirmar promessas e mostrar apoio de artistas. As vaias mostraram que a coligação tem tensões, mas Lula deixou claro que quer unidade.
E se a coligação não se unir? Se Mônica Benício vencer e não apoiar Pedro Paulo?
Aí Lula terá um senador que pode "infernizar" seu governo, como ele mesmo disse. É o risco que ele está correndo.
Le Pouls
- Lula prometeu acabar com as bets com firmeza incomum, virando-se até contra clubes de futebol que resistem à medida.
- Artistas como Chico Buarque e Daniela Mercury emprestaram peso cultural à promessa, chamando as apostas de 'bomba' capaz de 'desmanchar o Brasil'.
- O presidente declarou que quer 'ganhar na narrativa' de Trump, posicionando o Brasil como voz alternativa ao discurso de força militar americana.
- Quando o prefeito pediu votos para o candidato do PSD ao Senado, a plateia vaiou — e gritou o nome de uma candidata rival do PSOL presente no evento.
- Lula respondeu às vaias defendendo o aliado: sem maioria no Senado, alertou, o país arriscaria 'uma crise sem precedentes'.
No coração do Rio de Janeiro, Lula reuniu artistas e aliados num ato que misturou celebração e promessa política: o fim das plataformas de apostas esportivas e uma resposta simbólica ao discurso de poder de Donald Trump na ONU. O evento revelou, porém, que a unidade de uma coligação é sempre mais frágil do que o palco sugere — as vaias ao prefeito Cavaliere lembraram que, na política, os acordos feitos pelas lideranças nem sempre chegam inteiros até a plateia.
Na Fundição Progresso, no centro do Rio, Lula subiu ao palco ao lado de Chico Buarque, Daniela Mercury, Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho numa noite que misturava show e campanha. O tema central era claro: o governo acabaria com as plataformas de apostas esportivas. Daniela Mercury, de improviso, chamou as bets de 'uma bomba' lançada para desmanchar o Brasil. O prefeito Eduardo Cavaliere lembrou que o Rio foi a primeira cidade do país a proibir a publicidade dessas plataformas em espaços públicos.
Lula foi direto: 'Nós vamos acabar com as bets.' E foi além, desafiando os clubes de futebol que resistem à medida a aprenderem a funcionar como empresas, citando as SAFs como caminho. Para ele, não era uma guerra — era uma decisão de cultura e de governo.
O presidente também aproveitou o palco para responder a Trump. Dias após discursar na ONU, Lula ironizou o americano, que segundo ele passa as reuniões listando superlativos militares como se estivesse ameaçando o mundo. 'Eu quero ganhar dele na narrativa', disse Lula. 'E nós estamos ganhando.'
Mas o evento expôs fissuras na coligação. Quando Cavaliere pediu votos para Pedro Paulo, candidato do PSD ao Senado, a plateia vaiou e gritou o nome de Mônica Benício, do PSOL, que estava na plateia. Lula defendeu o aliado: um senador da oposição poderia 'infernizar' seu governo por oito anos. Benedita da Silva, candidata do PT ao Senado, não citou o episódio, mas resumiu a lógica dos acordos políticos: 'Aliança se faz com os diferentes.' A mensagem de Lula era simples — unidade nas urnas, mesmo que incômoda.
Na noite de quarta-feira, o presidente Lula subiu ao palco da Fundição Progresso, no centro do Rio de Janeiro, cercado por artistas como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Daniela Mercury e Zeca Pagodinho. O evento de campanha pela reeleição tinha um tom de celebração, mas também de promessa firme: o governo acabaria com as plataformas de apostas esportivas se ele vencesse as eleições.
A promessa não foi apenas sua. Daniela Mercury, falando de improviso, chamou as bets de "uma bomba" e disse que pareciam ter sido liberadas "para desmanchar o Brasil". O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, foi além: afirmou que a primeira medida de Lula após a reeleição seria proibir as apostas, e que essa reação seria a mesma em qualquer lugar do país — numa igreja, numa fábrica, na casa de uma família brasileira. Rio foi a primeira cidade do país a banir a publicidade dessas plataformas em espaços públicos, lembrou ele.
Lula reafirmou o compromisso com dureza. "Nós vamos acabar com as bets", disse, e depois virou-se para os clubes de futebol que se opõem à medida: "os times que aprendam a virar times de empresários". Ele mencionou as Sociedades Anônimas do Futebol, as SAFs, como alternativa. Para o presidente, não era uma guerra, mas uma decisão — e também uma questão de cultura.
O evento também serviu para Lula responder a Donald Trump. Dias depois de discursar na Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro criticou o tom do americano, que segundo Lula passa seu tempo listando superlativos: o maior exército, a maior marinha, mais foguetes, a melhor bomba. "Ele fala isso em toda reunião", disse Lula, como se estivesse ameaçando o mundo inteiro. Mas Lula não queria guerra. "Eu quero ganhar dele na narrativa. E nós estamos ganhando na narrativa."
O encontro, porém, revelou fissuras na coligação. Quando Cavaliere pediu votos para o deputado Pedro Paulo, candidato do PSD ao Senado, o público vaiou. Gritos pediam Mônica Benício, vereadora do PSOL que também disputava a vaga e estava na plateia. Lula, em seu discurso final, defendeu Pedro Paulo e explicou por quê: um senador da oposição poderia "infernizar" seu governo por oito anos, enquanto um governador estadual causa menos dano. Ele alertou que sem maioria no Senado, o país corria "o risco de entrar numa crise sem precedentes".
Benedita da Silva, deputada federal do PT e também candidata ao Senado, não mencionou o aliado vaiado, mas defendeu os acordos políticos. "Não existe aliança com os iguais", disse ela. "Aliança se faz com os diferentes." Para ela, o Rio de Janeiro estava à mercê de milícias e comandos, e o estado precisava garantir ao presidente Lula que honraria os acordos feitos por suas lideranças. O gesto que Lula esperava era claro: unidade nas urnas, mesmo que incômoda.
Citations marquantes
Nós vamos acabar com as bets. E os times que aprendam a virar times de empresários.— Lula
Não existe aliança com os iguais. Aliança se faz com os diferentes.— Benedita da Silva