Aos 97 anos, João Jacob Vontobel encerrou uma trajetória que começou entre doces e mel no interior gaúcho e se estendeu por quase oito décadas de transformação do mercado brasileiro de bebidas e alimentos. Partindo de uma pequena empresa familiar em Ijuí, ele construiu um império que passou pela franquia da Coca-Cola, pela fundação da Kaiser e pela preservação de marcas centenárias como a Neugebauer. Sua morte convida a refletir sobre como a visão de um único homem pode moldar hábitos de consumo de gerações inteiras — e sobre a responsabilidade social que, para ele, sempre acompanhou o sucesso
João Jacob Vontobel, bilionário do setor de bebidas, morre aos 97 anos
Vontobel tinha o dom de ver onde o mercado ia antes de chegar lá
Como um menino de 19 anos que trabalhava com doces conseguiu construir um império de bebidas?
Ele tinha o dom de ver onde o mercado ia antes de chegar lá. Começou com marcas locais, mas em 1963 conseguiu a franquia Coca-Cola — isso foi o divisor de águas. Depois, nos anos 1980, entrou em cerveja quando outros ainda estavam consolidando refrigerantes.
Mas quanto disso foi visão dele e quanto foi simplesmente estar no lugar certo na hora certa? A Coca-Cola estava expandindo no Brasil de qualquer forma.
Verdade, mas ele não apenas recebeu a franquia — construiu uma malha logística de grande porte. Isso exigia capital, conhecimento, execução. Não era automático.
E por que vender a divisão de bebidas em 2016 se estava indo tão bem?
Ele tinha 87 anos. A venda por R$ 3,5 bilhões foi um grande sucesso financeiro. Mas manteve os alimentos — Neugebauer, Mu-Mu, Wallerius. Talvez quisesse simplificar, focar no que restava.
A reportagem não explica a lógica da venda. Sabemos o preço, sabemos que a Vonpar faturava R$ 2 bilhões por ano, mas não sabemos se foi uma saída estratégica ou se havia pressão de acionistas, ou se era simplesmente o momento certo.
Justo. O que sabemos é que funcionou — ele morreu bilionário, o mais idoso do ranking Forbes.
E o Prato Popular? Como um empresário de bebidas acaba criando um restaurante comunitário?
Em 2003, ele idealizou o projeto. Servia refeições por R$ 1,00 a pessoas de baixa renda. Virou modelo para outras cidades.
Mas a reportagem não diz quanto ele investiu, quanto tempo durou, quantas pessoas realmente foram servidas ao longo dos anos. É um gesto bonito, mas os números importam para entender a escala do impacto.
Verdade. Sabemos que existiu, que funcionou, que inspirou outros. Mas os detalhes do alcance real ficam em aberto.
Le Pouls
- O Brasil perde seu bilionário mais idoso: Vontobel morreu aos 97 anos no Rio Grande do Sul, deixando um vácuo raro entre os grandes construtores de negócios do país.
- Sua trajetória foi marcada por apostas certeiras feitas antes do mercado perceber as oportunidades — da franquia Coca-Cola em 1963 à distribuição da Heineken nos anos 1980.
- A venda da divisão de bebidas por R$ 3,5 bilhões à Coca-Cola FEMSA em 2016 foi um dos maiores desinvestimentos do setor na década, redefinindo o mapa do engarrafamento no Brasil.
- A família manteve o controle das marcas de alimentos — Neugebauer, Mu-Mu e Wallerius —, sinalizando que o legado empresarial continua vivo mesmo após a morte do patriarca.
- Fora dos negócios, o Prato Popular, restaurante comunitário criado em 2003 que servia refeições por R$ 1,00, tornou-se símbolo de uma visão de capitalismo com responsabilidade social.
Aos 97 anos, João Jacob Vontobel encerrou uma trajetória que começou entre doces e mel no interior gaúcho e se estendeu por quase oito décadas de transformação do mercado brasileiro de bebidas e alimentos. Partindo de uma pequena empresa familiar em Ijuí, ele construiu um império que passou pela franquia da Coca-Cola, pela fundação da Kaiser e pela preservação de marcas centenárias como a Neugebauer. Sua morte convida a refletir sobre como a visão de um único homem pode moldar hábitos de consumo de gerações inteiras — e sobre a responsabilidade social que, para ele, sempre acompanhou o sucesso.
João Jacob Vontobel entrou nos negócios da família em 1948, aos 19 anos, numa empresa de doces e mel em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul. Junto com o irmão Arno, enxergou no mercado de bebidas gasosas uma oportunidade ainda pouco explorada e começou com marcas locais como Marabá e Laranjinha — aprendendo o ofício longe das multinacionais que mais tarde dominariam o setor.
Em 1963, a conquista da franquia de engarrafamento da Coca-Cola mudou definitivamente a escala do negócio. A partir daí, a Vonpar cresceu como grupo logístico e fabril de grande porte. Nos anos 1980, Vontobel participou da fundação da Cervejaria Kaiser e assumiu a distribuição da Heineken na região, diversificando o portfólio muito antes de isso se tornar tendência.
Em 2010, formalizou uma divisão de alimentos ao adquirir três marcas gaúchas tradicionais: Mu-Mu, Wallerius e Neugebauer — esta última fundada em Porto Alegre em 1891 e considerada a fábrica de chocolates em funcionamento mais antiga do Brasil. A aquisição preparava o grupo para uma grande transição.
Essa transição veio em 2016, quando vendeu a divisão de bebidas à Coca-Cola FEMSA por R$ 3,508 bilhões. Na época, a Vonpar faturava cerca de R$ 2 bilhões anuais e empregava 4 mil pessoas. A família, porém, manteve o controle total das marcas de alimentos.
Além dos negócios, Vontobel idealizou em 2003 o projeto Prato Popular, um restaurante comunitário em Porto Alegre que servia centenas de refeições diárias por apenas R$ 1,00, tornando-se modelo para iniciativas similares em outras cidades. Em 2026, aos 97 anos, ainda figurava na lista de bilionários da Forbes com fortuna estimada em R$ 3 bilhões — o mais idoso do ranking. Morreu em 19 de setembro, deixando esposa, três filhos e seis netos.
João Jacob Vontobel entrou para os negócios da família em 1948, aos 19 anos, quando a empresa de Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, ainda produzia doces e mel. Junto com seu irmão Arno, ele viu uma oportunidade diferente: o mercado de bebidas gasosas estava em expansão. Os dois começaram com marcas locais como Marabá e Laranjinha, aprendendo o ofício longe das multinacionais que depois dominariam o setor.
Quinze anos depois, em 1963, Vontobel conquistou a franquia de engarrafamento e distribuição da The Coca-Cola Company, um passo que transformaria completamente a trajetória da família. Esse movimento criou as bases para o que se tornaria a Vonpar, uma companhia que construiria uma rede logística e fabril de grande escala. O empresário tinha um talento particular para antecipar as mudanças do mercado — uma qualidade que o definiria por décadas.
Nos anos 1980, quando muitos ainda consolidavam suas posições, Vontobel já se movia para o próximo setor. Participou da fundação da Cervejaria Kaiser e assumiu a distribuição da Heineken na região, diversificando o portfólio além das bebidas gasosas. A estratégia funcionou. A Vonpar cresceu sob sua gestão, tornando-se um dos maiores grupos de bebidas do país.
Em 2010, Vontobel formalizou uma divisão de alimentos e adquiriu três marcas gaúchas tradicionais: a Mu-Mu, conhecida por doces e laticínios; a Wallerius, fabricante de balas; e a Neugebauer, fundada em Porto Alegre em 1891 e reconhecida como a fábrica de chocolates mais antiga em funcionamento no Brasil. Essa compra sinalizava uma mudança na estrutura do grupo, preparando-o para o que viria a seguir.
Seis anos depois, em 2016, Vontobel vendeu a divisão de bebidas da Vonpar para a engarrafadora mexicana Coca-Cola FEMSA, através da subsidiária brasileira Spal, por R$ 3,508 bilhões. Na época da transação, a Vonpar faturava cerca de R$ 2 bilhões por ano e empregava aproximadamente 4 mil pessoas. O acordo incluiu pagamento em dinheiro, ações da compradora e títulos conversíveis. A família manteve o controle total das operações de alimentos — Neugebauer, Mu-Mu e Wallerius permaneceram sob seu comando.
Além dos negócios, Vontobel deixou marca em iniciativas sociais. Em abril de 2003, ele idealizou o projeto Prato Popular e inaugurou um restaurante comunitário em Porto Alegre que servia centenas de refeições diárias a pessoas de baixa renda e trabalhadores pelo custo simbólico de R$ 1,00. A iniciativa, mantida com apoio privado, tornou-se modelo para programas similares em outras cidades do Brasil.
Em 2026, aos 97 anos, Vontobel figurava na 136ª posição da lista de bilionários brasileiros da revista Forbes, com fortuna estimada em R$ 3 bilhões. Ele era o empresário mais idoso do ranking. Vontobel faleceu no sábado, 19 de setembro, deixando a esposa Elone Maria Schneider Vontobel, três filhos e seis netos. Seu velório estava marcado para terça-feira, 22 de setembro.
Citations marquantes
Vontobel tinha um talento particular para antecipar as mudanças do mercado— Reportagem sobre sua trajetória empresarial