OAB-SP processa startup Enter para limitar uso de IA em escritórios

O advogado vira mero subscritor de peças que não concebeu
Argumento central da OAB-SP contra a Enter: a IA esvaziaria a função criativa do profissional.
Mark

Por que a OAB-SP decidiu processar agora? Havia reclamações formais antes?

Mimi

Não havia demanda institucional prévia, segundo a Enter. A ação parece ter vindo sob pressão de escritórios que temem perder trabalho para a tecnologia. É a primeira movimentação formal da ordem nesse sentido.

Luke

Mas precisamos ser claros: a OAB-SP alega que o advogado vira "mero subscritor". Isso é uma caracterização dela, não um fato comprovado sobre como a Enter funciona na prática. A startup diz que há revisão obrigatória.

Mark

E quanto aos dados? A LGPD é uma acusação mais concreta, certo?

Mimi

A petição menciona tratamento em larga escala de informações sobre litigantes, perfilamento de "litigantes coordenados" e transferência de dados ao exterior. Mas a ação apenas alega isso — não sabemos ainda se há evidência de violação real.

Luke

Exatamente. "Sem mecanismo demonstrado" é a frase-chave. Pode haver mecanismos que a OAB-SP não conhece, ou pode haver falhas reais. A ação é o começo de uma investigação, não uma conclusão.

Mark

A Enter tem gente séria no conselho — Barroso, Quiroga. Como isso muda a dinâmica?

Mimi

Muda porque a startup não é um outsider sem credibilidade. Tem advogados experientes dentro dela. Mas também muda porque a OAB-SP não pode ignorar um unicórnio com investimento de Peter Thiel — há poder político e financeiro em jogo.

Luke

E há uma ironia: a Enter é liderada por advogados que entendem a profissão, mas estão desafiando seu modelo. A OAB-SP está defendendo a profissão contra pessoas que vêm de dentro dela.

Mark

O que vem agora?

Mimi

A ação vai para a justiça. A Enter terá que responder às acusações. Pode haver negociação, pode haver decisão judicial. Mas o precedente importa — vai sinalizar se a IA pode ou não fazer certos trabalhos jurídicos no Brasil.

Luke

E há um vácuo regulatório real aqui. Não há lei clara sobre IA em advocacia. A OAB-SP está tentando usar a LGPD e argumentos profissionais para preencher esse vácuo, mas a resposta final pode vir do Judiciário, não da ordem.

  • OAB-SP entrou com ação judicial contra a Enter em outubro de 2026
  • Enter avaliada em US$ 1,2 bilhão, com investimento do Founders Fund de Peter Thiel
  • Conselho da Enter inclui ex-ministro Barroso, fundador Quiroga e apresentador Luciano Huck
  • Petição cita violações à LGPD, incluindo transferência de dados ao exterior

A OAB-SP questiona se IA pode redigir minutas e sugestões de respostas processuais, argumentando que isso viola a responsabilidade profissional do advogado. A Enter, avaliada em US$ 1,2 bilhão, atua com grandes empresas em processos de consumidor e trabalhistas, com conselheiros como ex-ministro Barroso e investimento do Founders Fund.

A Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo entrou com ação judicial contra a startup Enter, que usa inteligência artificial para auxiliar departamentos jurídicos, buscando restringir o serviço. A OAB argumenta que advogados se tornam meros subscritores de peças que não conceberam.

A Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo acionou a justiça contra a Enter, uma startup que usa inteligência artificial para auxiliar departamentos jurídicos de grandes empresas. A ação representa o primeiro movimento formal da instituição em resposta à pressão crescente de escritórios de advocacia que veem a tecnologia como ameaça competitiva. No cerne da disputa está uma questão profissional fundamental: se máquinas podem redigir minutas processuais e sugerir estratégias de defesa, qual é o papel do advogado que assina o documento?

A Enter trabalha com clientes de grande porte — bancos, companhias aéreas, empresas que enfrentam processos de consumidor com frequência. Seus departamentos jurídicos contratam a plataforma para cruzar informações protocoladas com jurisprudência, mapeando caminhos defensivos. Mais recentemente, a empresa expandiu para processos trabalhistas. Segundo a Enter, todas as minutas geradas pela IA passam por revisão obrigatória de um advogado, que assina e assume responsabilidade legal pela peça. Mas a OAB-SP vê isso de forma diferente: na visão da ordem, o profissional se reduz a um "mero subscritor de peças que não concebeu", esvaziando a função criativa e intelectual que define a advocacia.

A petição da OAB-SP levanta também questões de proteção de dados. A ordem alega violações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), apontando o tratamento em larga escala de informações sobre consumidores e trabalhadores que litigam contra os clientes da Enter. Há menção a perfilamento de "litigantes coordenados" e transferência de dados ao exterior sem mecanismos demonstrados de segurança. Essas acusações tocam em um nervo sensível: a coleta massiva de dados processuais pode revelar padrões sobre quem processa as empresas clientes da startup e como o fazem.

A Enter, por sua vez, recebeu a ação com surpresa. Em comunicado ao Pipeline, a empresa argumentou que nunca foi procurada pela OAB-SP para diálogo ou troca de informações institucional antes da ação. A startup defende que não substitui o advogado, mas oferece suporte especializado aos departamentos jurídicos — uma ferramenta, não uma substituição. A empresa questiona por que a IA não poderia fazer bem aquilo que já faz, se sempre sob supervisão profissional.

A Enter alcançou o status de unicórnio — avaliada em US$ 1,2 bilhão na última rodada de capitalização — com apoio de investidores internacionais de peso. Seu conselho inclui nomes como Luis Roberto Barroso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal; Roberto Quiroga, um dos fundadores do escritório Mattos Filho; e o apresentador Luciano Huck. O maior aporte da rodada veio do Founders Fund, do empresário americano Peter Thiel. A empresa é presidida pelo jovem advogado Mateus Costa-Ribeiro. Essa composição de liderança — misturando juristas experientes, figuras públicas e capital de risco internacional — reflete tanto a ambição da startup quanto a complexidade de sua posição: ela é liderada por advogados, mas ameaça o modelo tradicional de exercício da profissão.

O conflito aponta para uma tensão mais ampla no direito contemporâneo. À medida que a IA se torna mais capaz de processar jurisprudência, identificar precedentes e sugerir argumentos, a profissão enfrenta perguntas sem resposta fácil: o que permanece exclusivamente humano na advocacia? Onde termina a ferramenta e começa a substituição? A OAB-SP optou por não esperar respostas — preferiu agir judicialmente. O resultado dessa ação pode definir não apenas o futuro da Enter, mas também como a profissão jurídica brasileira se relacionará com a inteligência artificial nos próximos anos.

A Enter não substitui o advogado e a movimentação da OAB-SP sugere que a IA não pode fazer aquilo que ela faz bem, dando suporte a departamentos jurídicos
— Enter, em comunicado ao Pipeline
Nunca houve demanda por parte da OAB-SP por qualquer tipo de informação ou discussão institucional
— Enter, sobre a ação da OAB-SP
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