'Flurona' causa quadros mais graves? Especialistas esclarecem mito sobre coinfecção

Hospitais em várias cidades enfrentam lotação devido ao aumento de casos graves de síndrome respiratória aguda causados pela circulação simultânea de Covid-19 e influenza.
Estar infectado com dois vírus não quer dizer que vai ter quadro mais grave
Médico do hospital universitário da USP esclarece que a coinfecção não é automaticamente mais perigosa que uma infecção isolada.
Mark

Por que o termo 'flurona' gerou tanto alarme se a coinfecção não é rara?

Mimi

Porque é intuitivo pensar que dois vírus ao mesmo tempo significa doença pior. Mas os especialistas dizem que a gravidade depende de quem você é — sua idade, suas doenças preexistentes — não do fato de ter dois vírus.

Luke

Mas espera — os hospitais estavam lotados. Isso é fato. A pergunta é: estavam lotados porque havia coinfecções graves, ou porque havia muita circulação de ambos os vírus, mesmo em infecções isoladas?

Mimi

Segundo os médicos ouvidos, era a segunda coisa. Gerson Salvador deixa claro que o problema era a alta taxa de disseminação dos dois patógenos simultaneamente, não a coinfecção em si.

Mark

Então por que os casos de coinfecção estavam sendo mais relatados naquele momento?

Mimi

Porque as medidas sanitárias foram relaxadas. Durante a pandemia, máscaras e distanciamento mantinham a influenza praticamente ausente. Quando as restrições afrouxaram, a gripe voltou.

Luke

Mas nenhum estudo citado na reportagem realmente prova que a coinfecção não é mais grave. Bonorino diz que nenhum estudo mostra risco aumentado, mas também diz que o coronavírus é novo e precisa continuar sendo monitorado.

Mimi

Verdade. Não é uma afirmação definitiva, é uma ausência de evidência de risco aumentado até aquele momento.

Mark

E quanto à ômicron? Ela mudou algo sobre a coinfecção?

Mimi

A ômicron tinha transmissibilidade extraordinária — 92% dos casos positivos eram dessa variante. Mas o foco dos especialistas não era a coinfecção, era a transmissão exacerbada e o atraso na vacinação de crianças.

Luke

Então o grande problema não era 'flurona', era dois vírus circulando muito rápido em uma população parcialmente vacinada?

Mimi

Exatamente. E é por isso que Nogueira diz que a discussão deveria estar em outro lugar.

  • Hospitais em todo o Brasil enfrentavam lotação crítica com o avanço simultâneo da ômicron e da gripe H3N2, gerando alarme sobre uma suposta 'supervirus' batizada de flurona.
  • O pânico em torno da coinfecção crescia enquanto as medidas sanitárias eram relaxadas, permitindo que vírus respiratórios antes contidos voltassem a circular com força.
  • Virologistas e imunologistas intervieram para separar o fenômeno real — coinfecções são comuns e não necessariamente graves — do ruído gerado pela nomenclatura alarmista.
  • A atenção científica e política, alertam os especialistas, deveria estar voltada para a transmissão explosiva da ômicron e o atraso na vacinação infantil, não para o espectro da flurona.

Em janeiro de 2022, enquanto o Brasil enfrentava a convergência da variante ômicron com o surto de gripe H3N2, o termo 'flurona' emergiu como símbolo de um medo compreensível: o de que dois vírus juntos fossem mais devastadores do que um só. Especialistas em virologia e imunologia, porém, oferecem uma leitura mais serena — a coinfecção é um fenômeno antigo e corriqueiro na biologia humana, e a gravidade de qualquer doença respiratória continua sendo moldada não pelo número de vírus presentes, mas pela condição de quem os carrega. O verdadeiro desafio nos hospitais era a circulação simultânea e intensa dos dois patógenos em uma população, não a fusão de seus perigos em um único quadro clínico.

Quando a variante ômicron e a cepa H3N2 Darwin da influenza passaram a circular simultaneamente no Brasil no início de 2022, o termo 'flurona' — coinfecção de Covid-19 e gripe — tomou conta do imaginário coletivo. A ideia de dois vírus atacando ao mesmo tempo parecia, intuitivamente, uma ameaça dobrada. Especialistas consultados pela Folha, no entanto, vieram desfazer esse equívoco.

O virologista Fernando Spilki, coordenador da Rede Corona-ômica BR-MCTI, explicou que coinfecções virais são fenômenos comuns fora de períodos pandêmicos. Em 2020, casos simultâneos de Sars-CoV-2 e H1N1 já haviam sido registrados, mas eram raros porque a influenza circulava pouco. O relaxamento das medidas sanitárias mudou esse quadro: com o fim do distanciamento e do uso generalizado de máscaras, vírus antes contidos voltaram a se espalhar, e a gripe retornou com vigor justamente quando a ômicron iniciava sua onda.

A imunologista Cristina Bonorino, da Universidade Federal de Ciência da Saúde de Porto Alegre, reforçou que a gravidade de qualquer infecção depende da idade, das comorbidades e da resposta imunológica individual — não da quantidade de vírus presentes. Nenhum estudo havia demonstrado que a coinfecção com Sars-CoV-2 aumentava o risco de quadros severos, embora ela ressaltasse a importância de continuar monitorando o cenário.

Nos hospitais, o médico Gerson Salvador, da USP, observava o aumento de casos graves de síndrome respiratória aguda — primeiro dominados pela influenza, depois também pela Covid-19. Mas ele foi enfático: a crise hospitalar refletia a alta disseminação dos dois vírus, não a coinfecção em si. Estar infectado pelos dois ao mesmo tempo não significava, por definição, uma doença mais perigosa.

O professor Maurício Nogueira, de São José do Rio Preto, concordou e apontou onde deveria estar o foco real: a transmissibilidade extraordinária da ômicron — identificada em 92% das amostras analisadas — e o atraso na vacinação de crianças. Para ele, eram essas as questões que mereciam atenção pública urgente, muito mais do que o alarme em torno de um nome que soava mais ameaçador do que os dados sustentavam.

Quando dois vírus respiratórios circulam simultaneamente em uma população, é fácil imaginar que uma pessoa infectada pelos dois ao mesmo tempo enfrentaria uma doença mais severa. O termo 'flurona' — a coinfecção de Covid-19 e influenza — ganhou as conversas no Brasil em janeiro de 2022 justamente nesse contexto de alarme. Mas especialistas consultados pela Folha oferecem um esclarecimento importante: a dupla infecção não é nem rara nem necessariamente mais perigosa do que uma infecção isolada.

Fernando Spilki, virologista e coordenador da Rede Corona-ômica BR-MCTI, um projeto que sequencia genomas do Sars-CoV-2 em laboratórios brasileiros, explica que coinfecções virais são fenômenos comuns fora de períodos de pandemia. Em 2020, o primeiro ano da crise sanitária, já havia registros de pessoas infectadas simultaneamente por Sars-CoV-2 e H1N1, mas esses casos eram raros porque a influenza circulava pouco no Brasil. O cenário mudou drasticamente. A cepa H3N2 Darwin, responsável pelo surto de gripe que assolava o país, começava a circular intensamente no mesmo momento em que a variante ômicron do coronavírus iniciava sua onda de transmissão. Segundo Spilki, essa convergência criava as condições ideais para que muitas pessoas contraíssem ambos os patógenos simultaneamente.

Apesar desse cenário, não existem indicações científicas de que a coinfecção resulte em quadros clínicos mais graves. Spilki observa que casos de dupla infecção ocorrem até em pessoas com doença leve, o que demonstra que a presença de dois vírus não determina automaticamente a severidade. Cristina Bonorino, imunologista e professora da Universidade Federal de Ciência da Saúde de Porto Alegre, reforça essa visão. Embora seja intuitivo pensar que mais vírus significa mais doença, a realidade é mais complexa: a gravidade depende muito da idade do paciente, de suas comorbidades preexistentes e de sua resposta imunológica individual. Para casos específicos de coinfecção com Sars-CoV-2, nenhum estudo até então havia demonstrado risco aumentado, embora Bonorino ressalvasse a necessidade de continuar monitorando a situação, já que o coronavírus ainda era relativamente novo.

Bonorino também apontou uma razão pela qual os casos de coinfecção estavam sendo mais relatados naquele momento: as medidas sanitárias estavam sendo relaxadas. Durante a pandemia, o distanciamento social e o uso de máscaras haviam reduzido drasticamente a circulação de influenza e outros vírus respiratórios. Conforme as restrições foram afrouxadas, pequenos surtos de outros patógenos começaram a emergir, e a gripe voltou com força. Maurício Nogueira, professor da faculdade de medicina de São José do Rio Preto, descreveu esse fenômeno como reflexo da liberalização total que ocorreu após dois anos de isolamento.

O impacto real dessa circulação simultânea de vírus era sentido nos hospitais. Gerson Salvador, médico do hospital universitário da USP e colunista da Folha, observava o aumento de pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave. Em meados de novembro, a maioria dos casos críticos era de influenza, refletindo a epidemia que havia começado no Rio de Janeiro. Em dezembro, porém, os números de Covid-19 também subiram vertiginosamente. Os hospitais precisavam lidar simultaneamente com pacientes graves de ambas as doenças. Mas Salvador deixava claro um ponto crucial: essa situação crítica não se devia necessariamente à coinfecção em si, mas à alta taxa de disseminação dos dois vírus pelo país, que podiam resultar em complicações respiratórias mesmo em infecções isoladas.

Salvador reiterava que estar infectado com dois vírus ao mesmo tempo não significava automaticamente um quadro mais grave — não era uma doença diferente ou mais perigosa por definição. Nogueira concordava, argumentando que a coinfecção era um fenômeno relativamente comum e não deveria ser o ponto central de preocupação. O foco deveria estar em outras questões: a transmissão da Covid-19, as formas de disseminação e a vacinação.

A variante ômicron, responsável pela maioria dos diagnósticos de Covid-19 no Brasil naquele período, apresentava uma taxa de transmissibilidade extraordinariamente alta. Um levantamento com mais de 2.400 amostras de testes RT-PCR especiais identificou uma prevalência média de 92% da ômicron entre os casos positivos. Dados preliminares indicavam que o esquema vacinal de duas doses ou dose única tinha redução significativa de anticorpos neutralizantes contra essa variante. Ainda assim, os imunizantes mantinham importância extrema para evitar casos graves, hospitalizações e mortes. Para Nogueira, os verdadeiros problemas sanitários que demandavam atenção eram a transmissão exacerbada da ômicron e o atraso na vacinação de crianças — questões que mereciam discussão pública e ação política mais urgente do que o alarme em torno da 'flurona'.

Quando você estuda fora de um período de pandemia, você encontra um percentual muito alto de coinfecção entre diferentes vírus
— Fernando Spilki, virologista e coordenador da Rede Corona-ômica BR-MCTI
Parece ser intuitivo que mais de um vírus ao mesmo tempo vai ficar pior, mas na verdade depende muito da pessoa, da idade, das comorbidades
— Cristina Bonorino, imunologista e professora da UFCSPA
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