Entre janeiro e junho de 2021, enquanto o Brasil corria contra o tempo para imunizar sua população, um estudo da Fiocruz revelou que 15% das doses de Covid foram aplicadas fora do município de residência do vacinado — um reflexo silencioso das desigualdades que atravessam o território e o tecido social do país. Pessoas percorreram em média 252 quilômetros em busca de proteção, não por escolha, mas porque os calendários fragmentados, os postos fechados no horário comercial e a competição entre municípios tornaram a vacina um privilégio de quem pode se mover. O que os dados revelam não é apenas
Fiocruz: 15% das doses de Covid foram aplicadas fora do município de residência
Quem trabalha com políticas públicas sabe que não existem fronteiras municipais para o SUS
Como é que 11 milhões de doses acabam sendo aplicadas fora do município de residência? Isso parece um número muito grande.
É porque as pessoas se movem. Trabalham em uma cidade, moram em outra. E quando chegam em casa, o posto já fechou. Ou ouvem que a capital está vacinando grupos mais jovens e vão lá. Não é acaso — é o sistema não funcionando como deveria.
Mas espera. Esses 11 milhões — isso é gente que se deslocou voluntariamente ou gente que foi forçada a se deslocar porque não tinha acesso em casa?
Os dois. Diego Xavier identificou dois fluxos. Um é trabalhador que não consegue se vacinar no horário. Outro é gente que ouve que São Paulo está vacinando mais rápido e vai lá.
E qual é o problema real? Parece que as pessoas estão se vacinando, só que em outro lugar.
O problema é que cria escassez onde não deveria haver. São Paulo teve que parar de vacinar em junho porque muita gente de fora veio. E quem sofre é quem não tem carro, não tem tempo flexível.
Exatamente. Um trabalhador de periferia não consegue se vacinar nem em casa — porque o posto fecha quando ele sai do trabalho — nem na cidade onde trabalha, porque agora exigem comprovante de residência. Fica preso.
Então a solução seria exigir comprovante de residência, como São Paulo fez?
Xavier diz que não. Ele chama isso de transformar o posto em cartório. Resolve um problema criando outro.
A solução real seria coordenação nacional. Mais postos abertos à noite, mais vacinadores, calendários que não competem entre si.
Mas por que os governadores antecipavam os calendários? Tinham doses?
Tinham mais doses chegando em maio. Mas não havia coordenação sobre quem vacinaria quem. Cada um anunciava seu próprio calendário, criando expectativa.
E isso gerou essa corrida. Quem podia se mover, se moveu. Quem não podia, ficou esperando.
El Pulso
- 11,3 milhões de doses foram aplicadas em pessoas fora de seus municípios de origem, com deslocamentos que chegaram a três mil quilômetros — um mapa de urgência e desespero por proteção.
- Governadores e prefeitos anteciparam calendários de vacinação sem completar grupos já iniciados, criando uma corrida entre municípios e esgotando estoques em capitais como São Paulo, que paralisou a vacinação em 22 de junho por falta de doses.
- Trabalhadores de periferias enfrentaram uma armadilha dupla: os postos fechavam antes de chegarem ao município onde moravam e, nas cidades onde trabalhavam, passaram a exigir comprovante de residência — deixando os mais vulneráveis sem saída.
- Cidades como Guarulhos, Duque de Caxias e Contagem enviaram dezenas de milhares de residentes para se vacinar nas capitais vizinhas, esvaziando recursos locais e sobrecarregando os centros urbanos.
- Pesquisadores alertam que a solução não está em barreiras burocráticas, mas em ampliar horários, aumentar vacinadores e reconhecer que o SUS precisa funcionar além das fronteiras municipais.
Entre janeiro e junho de 2021, enquanto o Brasil corria contra o tempo para imunizar sua população, um estudo da Fiocruz revelou que 15% das doses de Covid foram aplicadas fora do município de residência do vacinado — um reflexo silencioso das desigualdades que atravessam o território e o tecido social do país. Pessoas percorreram em média 252 quilômetros em busca de proteção, não por escolha, mas porque os calendários fragmentados, os postos fechados no horário comercial e a competição entre municípios tornaram a vacina um privilégio de quem pode se mover. O que os dados revelam não é apenas um problema logístico, mas uma falha de coordenação que recai com mais peso sobre aqueles que já carregam o fardo da desigualdade.
Entre janeiro e junho de 2021, um padrão silencioso emergiu nos dados da vacinação brasileira: milhões de pessoas cruzando fronteiras municipais em busca da vacina contra a Covid-19. Um estudo do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz mostrou que 11,3 milhões de doses — 15% dos 73,8 milhões de registros analisados — foram aplicadas em pessoas que não residiam no município onde se vacinaram, percorrendo em média 252 quilômetros, com casos extremos de até três mil.
O pesquisador Diego Xavier identificou dois fluxos principais: trabalhadores que vivem em uma cidade e trabalham em outra, chegando tarde demais para os postos de vacinação de seu município, e pessoas que se deslocavam deliberadamente para cidades com calendários mais avançados. Esse segundo fluxo se intensificou a partir de maio, quando governadores e prefeitos passaram a antecipar unilateralmente a vacinação de grupos mais jovens sem completar os grupos já iniciados — criando uma competição que sobrecarregou as capitais.
São Paulo ilustrou o problema com clareza: no dia 22 de junho, a cidade paralisou a vacinação por falta de doses, justamente quando municípios da região metropolitana como Guarulhos, Osasco, Santo André e Diadema haviam enviado mais de 100 mil residentes para se vacinar na capital. Guarulhos sozinha registrou 101.681 doses aplicadas em São Paulo. Padrão semelhante ocorreu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
A mobilidade não era aleatória — refletia desigualdades estruturais. Trabalhadores de baixa renda nas periferias não conseguiam se vacinar em seus municípios porque os postos fechavam no horário comercial, e tampouco podiam se vacinar onde trabalhavam após São Paulo exigir comprovante de residência a partir de 29 de maio. Xavier criticou a medida, argumentando que ela transformava postos de saúde em cartórios e penalizava justamente quem menos tinha recursos para se deslocar.
Para o pesquisador, a resposta não estava em barreiras, mas em coordenação real: ampliar horários de funcionamento, aumentar o número de vacinadores e planejar a campanha reconhecendo que as pessoas se movem entre cidades para trabalhar e viver. Sem isso, a desigualdade vacinal continuaria crescendo — deixando para trás os que menos podiam esperar.
Entre janeiro e junho de 2021, enquanto o Brasil acelerava sua campanha de vacinação contra a Covid-19, um padrão invisível começou a se desenhar nos dados: pessoas atravessando fronteiras municipais em busca de proteção. Um estudo do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz revelou que essa mobilidade era muito mais ampla do que se imaginava. De cada seis doses aplicadas no país, uma havia sido recebida por alguém que não morava no município onde se vacinou.
Os números são substanciais. Ao longo daqueles cinco meses e meio, 11,3 milhões de doses — 15% do total de 73,8 milhões de registros — foram injetadas em pessoas que se deslocaram em média 252 quilômetros de suas casas. Em casos extremos, esse trajeto chegou a três mil quilômetros. A pesquisa, que analisou dados do painel Open Data Sus do Ministério da Saúde, mapeou um país em movimento, onde a busca pela vacina superava as linhas que dividem os municípios.
Diego Xavier, pesquisador responsável pela análise, identificou dois fluxos principais por trás desses números. O primeiro era composto por trabalhadores que residem em uma cidade mas trabalham em outra — pessoas que, ao retornar do trabalho, encontravam os postos de vacinação já fechados em seu município de origem. O segundo fluxo era de indivíduos que se deslocavam deliberadamente para cidades vizinhas ou capitais porque essas localidades já haviam avançado mais em seus calendários de vacinação. Esse padrão se intensificou a partir de maio, quando o país começou a expandir a vacinação além dos grupos prioritários para faixas etárias mais jovens.
O fenômeno revelava uma falha estrutural na coordenação nacional. Diversos governadores estaduais e prefeitos, ao receberem mais doses, decidiram antecipar unilateralmente a vacinação de grupos mais jovens sem completar a imunização dos grupos já iniciados. Essa competição entre municípios, alimentada por anúncios de calendários acelerados, criou uma corrida pela vacina. São Paulo, por exemplo, enfrentou uma paralização da vacinação no dia 22 de junho por falta de doses — justamente quando cidades da região metropolitana como Guarulhos, Osasco, Santo André e Diadema haviam enviado mais de 100 mil residentes para se vacinar na capital. Guarulhos sozinha registrou 101.681 doses aplicadas em São Paulo. No Rio de Janeiro, Duque de Caxias contribuiu com 47.507 doses desviadas. Em Minas Gerais, Contagem enviou 39.443 pessoas para Belo Horizonte.
Essa mobilidade não era aleatória — refletia desigualdades profundas. Trabalhadores de baixa renda nas periferias enfrentavam uma encruzilhada: não conseguiam se vacinar em seus municípios porque os postos fechavam no horário comercial, quando retornavam do trabalho, e tampouco podiam se vacinar nas cidades onde trabalhavam porque muitas passaram a exigir comprovante de residência. São Paulo implementou essa exigência a partir de 29 de maio. Xavier criticou a medida, argumentando que transformava os postos de vacinação em cartórios e criava novos problemas ao tentar resolver um existente. Quem tinha recursos — tempo, veículo, flexibilidade — conseguia se deslocar e se vacinar. Quem não tinha ficava para trás.
Há também a questão da preferência por marcas específicas. A vacina Pfizer/BioNTech gerou filas em alguns postos enquanto outros permaneciam vazios, revelando outra falha na comunicação nacional: a falta de clareza sobre a eficácia equivalente de todos os imunizantes disponíveis. Xavier alertou que essa tendência de antecipações de calendários e divergências entre municípios poderia criar problemas ainda maiores nos meses seguintes, incluindo riscos para a aplicação de segundas doses.
O pesquisador não defendia barreiras rígidas como comprovantes de residência. Em vez disso, apontava para soluções que exigiam coordenação real: ampliar o horário de funcionamento dos postos, aumentar o número de vacinadores e, fundamentalmente, reconhecer que o Sistema Único de Saúde não funciona dentro de fronteiras municipais. As pessoas se movem entre cidades para trabalhar, estudar e viver — a vacinação deveria ter sido planejada considerando essa realidade. Sem isso, a desigualdade vacinal no país só aumentaria, deixando para trás justamente aqueles que menos podiam se dar ao luxo de esperar.
Citas Notables
Existem dois fluxos: pessoas que trabalham em outro município e não conseguem se vacinar porque o posto fecha quando retornam, e pessoas que buscam municípios adiantados no calendário— Diego Xavier, pesquisador do Icict/Fiocruz
As pessoas que possuem meios vão se deslocar e se vacinar, enquanto trabalhadores da periferia ficam para trás. Isso só aumenta a desigualdade vacinal— Diego Xavier, pesquisador do Icict/Fiocruz