Caxias é segundo maior fluxo de busca por vacina Covid-19 entre cidades do país

Moradores de Duque de Caxias enfrentam filas, aglomerações e falta de doses, sendo forçados a se deslocar para outras cidades para receber vacinação contra a Covid-19.
Uma a cada seis pessoas saiu de sua cidade para ser vacinada
Pesquisa da Fiocruz revela escala nacional do deslocamento intermunicipal durante campanha de imunização contra Covid-19.
Mark

Por que tantas pessoas saem de suas cidades para se vacinar? Isso não deveria ser possível evitar?

Mimi

A vacinação deveria ser um serviço local simples, mas o Brasil começou com escassez de doses e cada município criou seu próprio calendário. Quando Caxias desorganizou tudo — filas enormes, falta de informação, doses faltando — as pessoas simplesmente foram embora para o Rio.

Luke

Mas a Fiocruz diz que 11,3 milhões de doses foram aplicadas fora do município de residência. Isso é um número enorme. Quanto disso é realmente desorganização local versus pessoas que trabalham ou estudam em outro lugar?

Mimi

Boa pergunta. A Fiocruz reconhece que parte pode ser gente que se mudou temporariamente, mas diz que isso não explica o número excessivo. Em Caxias especificamente, os relatos falam de caos — filas de madrugada, aglomerações, falta de doses.

Mark

E o que a prefeitura de Caxias diz sobre tudo isso?

Mimi

Nega. Disse que desconhece a migração, que nenhum município reportou dados sobre seus moradores vacinados lá, e que tudo está funcionando normalmente.

Luke

Então temos a Fiocruz com dados de 47,5 mil pessoas de Caxias vacinadas no Rio, e a prefeitura dizendo que não sabe disso. Quem está certo?

Mimi

Os dados da Fiocruz vêm do sistema nacional de vacinação. Não é opinião. Mas a prefeitura pode estar negando o problema porque há ações judiciais contra ela por improbidade administrativa.

Mark

Qual é o risco real disso tudo?

Mimi

Pessoas se deslocando aumentam chance de contágio durante a viagem. E quando a segunda dose chega — especialmente da AstraZeneca, que precisa de três meses — pode haver descompasso porque ninguém coordenou nada.

Luke

A Secretaria de Estado de Saúde enviou ofícios pedindo que Caxias se reorganizasse. Isso funcionou?

Mimi

Não há evidência de que tenha funcionado. A reportagem é de junho de 2021, e os problemas continuavam.

Mark

Então o que muda agora?

Mimi

Isso depende se os municípios começam a coordenar de verdade, ou se continuam cada um por si.

  • 47,5 mil moradores de Duque de Caxias foram vacinados no Rio de Janeiro
  • Caxias é a segunda cidade do país com maior fluxo de busca por vacina em outro município
  • 11,3 milhões de doses foram aplicadas fora do município de residência no Brasil
  • Prefeitura de Caxias enfrenta ações judiciais por improbidade administrativa na vacinação
  • Cidade interrompeu vacinação em junho de 2021 por falta de doses para primeira aplicação

11,3 milhões de doses foram aplicadas fora do município de residência no Brasil — uma a cada seis pessoas se deslocou para ser imunizada. Duque de Caxias enfrenta críticas por desorganização na vacinação, com filas, aglomerações e falta de doses, levando moradores a buscar imunização no Rio.

Pesquisa da Fiocruz revela que Duque de Caxias é a segunda cidade do país com maior número de residentes vacinados em outro município, com 47,5 mil moradores imunizados no Rio de Janeiro.

Quando pesquisadores da Fiocruz analisaram os padrões de vacinação contra a Covid-19 em todo o Brasil, descobriram um fenômeno perturbador: mais de 47 mil moradores de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, atravessaram a região metropolitana para receber suas doses no Rio de Janeiro. O número coloca Caxias em segundo lugar no país em termos de deslocamento de residentes em busca de imunização — atrás apenas de Guarulhos, em São Paulo. Em escala nacional, o quadro é ainda mais amplo. Até a última semana de junho de 2021, 11,3 milhões de doses foram aplicadas fora dos municípios de residência das pessoas. Isso significa que uma a cada seis pessoas saiu de sua cidade para ser vacinada.

O fenômeno não é isolado à região metropolitana do Rio. Quatro outras cidades fluminenses aparecem entre os 25 maiores fluxos de busca por vacinas em outras localidades: Nova Iguaçu na décima posição, São João de Meriti em décimo segundo, Niterói em vigésimo e Belford Roxo em vigésimo quarto — todas com moradores buscando imunização na capital. Em sentido inverso, cerca de 22,8 mil cariocas foram até Caxias para se vacinar, deixando o Rio na vigésima terceira posição do ranking nacional.

A situação em Duque de Caxias tornou-se particularmente crítica. Desde o início da campanha de imunização, a cidade enfrentou filas quilométricas, aglomerações perigosas e frustrações constantes entre quem procurava a vacina. Relatos indicam que pessoas fora dos grupos prioritários receberam doses nas primeiras fases da campanha. Na última semana de junho, a cidade precisou interromper a imunização por completo — simplesmente não havia doses disponíveis para primeiras aplicações. Defensora pública que atua no município, Alessandra Bentes descreve a campanha vacinal local como "bastante complicada e tumultuada", observando que a desorganização, a falta de informação e a escassez de segundas doses empurram as pessoas para outras cidades em busca de proteção.

A Fiocruz alertou em seu relatório que essa migração em massa entre municípios pode prejudicar seriamente o programa de vacinação nacional. Quando cidades vizinhas são sobrecarregadas pela procura originária de outros municípios, as metas de imunização ficam comprometidas e falhas no sistema se multiplicam. Os pesquisadores reconhecem que parte do deslocamento pode ser explicada por pessoas que se mudaram temporariamente durante a pandemia, mas ressaltam que "esse fenômeno não contempla o número excessivo de deslocamentos" observado. Há também preocupações diretas sobre contágio durante os deslocamentos e sobre o descompasso que pode ocorrer nos próximos meses quando pessoas precisarem da segunda dose — especialmente da AstraZeneca, que exige intervalo de três meses entre aplicações.

O Ministério Público moveu ações judiciais contra a prefeitura de Caxias por causa da organização caótica da vacinação. Em um dos processos, o prefeito Washington Reis e o secretário municipal de saúde respondem por improbidade administrativa, tendo parte de seus bens bloqueados pela Justiça. A prefeitura rejeitou as acusações, argumentando que políticas semelhantes em outros municípios não recebem questionamentos tão veementes. A Fiocruz observa que a vacinação é um procedimento de baixa complexidade que deveria ser realizado na atenção básica de saúde, dispensando deslocamentos. A escassez inicial de doses e os diferentes calendários vacinais entre estados e municípios explicam parcialmente essa procura, mas não completamente.

O secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz, afirmou que em junho houve queda no número de moradores de outras cidades buscando vacina na capital. Ele defende que historicamente as capitais funcionam como centros que recebem pacientes de outras localidades. Soranz explicou que sem coordenação central, cada município criou seu próprio calendário e logística. O Rio optou por não guardar doses e atuar sempre no limite do disponível, pedindo reposição ao governo estadual quando necessário. A Secretaria de Estado de Saúde enviou ofícios aos 92 municípios do estado recomendando que seguissem as orientações do Programa Nacional de Imunizações, e posteriormente solicitou especificamente a Caxias que reorganizasse sua estratégia vacinal para alinhar-se à campanha estadual.

Quando procurada, a prefeitura de Duque de Caxias disse "desconhecer essa migração" e afirmou que nenhum município enviou dados sobre moradores de Caxias vacinados em seus territórios. O município declarou que segue o calendário unificado do estado e que a vacinação "transcorre dentro da regularidade". A prefeitura de Nova Iguaçu sugeriu que seus moradores podem estar se vacinando no Rio por vínculos empregatícios ou educacionais. Niterói confirmou ter concluído a primeira dose em mais de 50% da população, enquanto Belford Roxo negou falta de doses. A prefeitura de São João de Meriti não respondeu até a publicação da reportagem. O que permanece claro é que a falta de coordenação entre cidades criou um sistema de vacinação fragmentado, onde pessoas desesperadas pela proteção atravessam fronteiras municipais, aumentando riscos de contágio durante o deslocamento e comprometendo a capacidade de qualquer cidade de cumprir suas metas de imunização.

Já percebemos que várias das pessoas, até por conta da desorganização que se apresenta no município com postos de vacinação cheios, falta de informação, falta de segunda dose e outras situações fazem com que as pessoas busquem outras cidades
— Alessandra Bentes, defensora pública que atua em Duque de Caxias
A vacinação é um procedimento de baixa complexidade e que deve ser realizado na atenção básica de saúde, sendo dispensável o deslocamento de pessoas em busca da vacina
— Relatório técnico da Fiocruz
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