Quem está ocupado demais perde a capacidade de se espantar com o mundo

Quem está ocupado o tempo todo torna-se cego para o mistério
Heschel argumenta que a ocupação contínua destrói a capacidade de admiração diante da existência.
Mark

Então você está dizendo que o espanto não é apenas um sentimento bonito, mas algo que estrutura como pensamos?

Mimi

Exatamente. Para Sócrates, não é um detalhe. É o fundamento. O espanto determina a cognição — como conhecemos o mundo, como nos movemos nele. É radical.

Luke

Mas como você mede isso? Como sabe que perdemos essa capacidade? Heschel fala do shabat como solução, mas quantas pessoas realmente praticam isso?

Mimi

É verdade, não há números aqui. Mas Heschel não está falando de estatísticas. Está falando de uma estrutura de tempo que a modernidade destruiu.

Mark

E Weber, quando fala em desencantamento — ele está dizendo que a ciência matou o mistério?

Mimi

Não exatamente matou. Transformou. A ciência explica as causas e efeitos. Mas quando tudo é explicável, calculável, o mistério desaparece.

Luke

Mas há mistério na ciência também, não? Há coisas que ainda não entendemos. A física quântica, por exemplo.

Mimi

Verdade. Mas Heschel não está falando de ignorância científica. Está falando de uma atitude diante da existência. De como vivemos o tempo.

Mark

Então o shabat é uma resposta prática?

Mimi

É uma interrupção. Um dia em que você não está ocupado, não está calculando, não está transformando. Você apenas existe.

Luke

Mas isso funciona? Quer dizer, uma pessoa que observa o shabat realmente recupera essa capacidade de espanto?

Mimi

Heschel acreditava que sim. Que essa interrupção no tempo profano abre a percepção do mundo como santuário.

Mark

E para quem não é judeu? Não tem shabat?

Mimi

Talvez a pergunta seja: temos algo que funcione assim? Algum momento em que paramos de contar minutos?

  • A aceleração da vida contemporânea transforma cada minuto em recurso a ser otimizado, deixando pouco espaço para a contemplação que gerou a filosofia.
  • Max Weber já havia diagnosticado o desencantamento do mundo moderno, e a coluna argumenta que esse processo chegou ao seu ponto mais agudo.
  • A ocupação contínua não é apenas cansativa — ela é filosoficamente destrutiva, reduzindo a existência a cadeias de causa e efeito sem abertura para o mistério.
  • Abraham Joshua Heschel propõe o shabat como antídoto: uma interrupção deliberada do tempo profano que reabilita a capacidade de admiração.
  • A pergunta que fica suspensa é perturbadora: ao ganharmos respostas para quase tudo, perdemos a capacidade de simplesmente nos espantar com o fato de que algo existe?

Há mais de dois milênios, Sócrates identificou no espanto — o thaumazein grego — a origem de todo pensamento filosófico. Hoje, a colunista da Folha de S.Paulo questiona se a vida moderna, dominada pela eficiência e pelo cálculo, ainda permite essa experiência fundadora. Entre Weber, Heschel e Kant, o argumento é sombrio: ao desencantarmos o mundo, tornamo-nos cegos ao mistério que nos fazia humanos.

Sócrates ensinou que a filosofia nasce do espanto — o thaumazein —, não de uma surpresa qualquer, mas de uma experiência estética radical diante do mistério da existência. Essa capacidade não era, para os gregos, um luxo intelectual: era o fundamento de como os seres humanos atribuem sentido ao mundo. O espanto é o oposto da banalidade.

A coluna questiona se ainda somos capazes disso. A resposta, construída com cuidado, aponta para o não. Max Weber descreveu o processo histórico de desencantamento do mundo moderno — a perda daquela qualidade de mistério que permitia aos antigos viver imersos na admiração. Hoje, talvez apenas um astronauta contemplando a Terra do espaço consiga se aproximar do que Sócrates descrevia. Estamos perto do sublime kantiano: a capacidade de contemplar o infinito justamente porque nossa insignificância nos permite vê-lo.

O filósofo Abraham Joshua Heschel foi além do diagnóstico e propôs uma pedagogia prática. Sua resposta estava no shabat, o sábado sagrado judaico — um dia em que não se trabalha, não se calcula, não se perseguem resultados. Heschel chamava isso de construir um castelo no tempo, um momento em que o tempo deixa de ser profano e se torna sagrado, reabrindo a percepção do mundo como santuário.

O problema central é que a vida moderna é uma máquina de ocupação contínua. Quem está sempre ocupado torna-se cego para o mistério. O mundo se reduz a causas e efeitos calculáveis, tudo vira objeto de otimização e controle. A pergunta que emerge é perturbadora: os antigos, talvez por sua própria ignorância sobre as cadeias causais que regem as coisas, estavam mais abertos ao mistério do que nós? Ao acumularmos respostas para quase tudo, teremos perdido, na pressa de vencer, a capacidade de simplesmente ver?

Há mais de dois mil anos, Sócrates sentou-se com Platão e disse algo que ainda ecoa: a filosofia nasce do espanto. Não de qualquer surpresa ou admiração passageira, mas de uma experiência estética radical — aquela sensação profunda que nos toma diante do desconhecido, do infinito do universo, do puro mistério da existência. Os gregos chamavam isso de thaumazein. E essa capacidade de se espantar, segundo Sócrates, não é um luxo intelectual. É o fundamento de como pensamos, como nos movemos no mundo, como atribuímos sentido às coisas. O espanto é o oposto da banalidade.

Mas conseguimos ainda experimentar isso? A resposta exige cuidado. Tudo indica que não — e as razões são históricas, econômicas, sociais, políticas e técnicas. O mundo, segundo o sociólogo Max Weber, foi desencantado. Perdeu aquela qualidade de mistério que permitia aos antigos viver imersos na admiração. Hoje, talvez apenas um astronauta vendo a Terra de fora — pequenina contra o universo escuro e indiferente — consiga se aproximar daquilo que Sócrates descrevia. Estamos próximos do que Kant chamava de sublime: a capacidade moral de contemplar o infinito, aquilo que nos esmaga, justamente porque nossa insignificância nos permite vê-lo em sua plenitude misteriosa.

O filósofo judeu do século vinte Abraham Joshua Heschel construiu toda uma filosofia sobre essa mesma ideia de espanto e maravilhamento. Mas Heschel foi além: propôs uma pedagogia prática para recuperar essa capacidade. Sua resposta estava no shabat, o sábado sagrado do judaísmo. Nesse dia, não se trabalha. Não se calcula. Não se persegue resultados. Em vez disso, abre-se o tempo para Deus, para a família, para a sinagoga. Heschel chamava isso de construir um castelo no tempo — um momento em que a vida não é esmagada pelas obrigações de sobrevivência, em que o tempo deixa de ser profano e se torna sagrado. Essa interrupção, segundo o historiador Mircea Eliade, transformaria nosso modo de estar no mundo.

E aqui está o problema central. A vida moderna é uma máquina de ocupação contínua. Minutos contados a serviço da demanda por resultados. Heschel viu nisso uma asfixia do maravilhamento. Quem está ocupado o tempo todo torna-se cego para o mistério. O mundo é reduzido a um conjunto de causas e efeitos calculados matematicamente — tudo se torna objeto de engenharia, de otimização, de controle. O mistério desaparece.

A questão que emerge é perturbadora: o mundo antigo, talvez por sua própria ignorância sobre as cadeias de causalidade que regem as coisas, estava mais aberto à percepção do mistério? Os antigos viveram quase toda sua existência imersos nele. E agora, quando só vemos à nossa volta recursos e métodos para transformar o mundo à nossa imagem, quando temos respostas para quase tudo, quando o tempo é fragmentado em tarefas e prazos — como fica nossa espécie? Conseguimos ainda nos espantar? Ou perdemos, na pressa de vencer, a capacidade de simplesmente ver?

Esta é a paixão do filósofo: o espanto. Não há outra origem da filosofia senão esta.
— Sócrates, conforme relatado por Platão no Teeteto
Constrói-se um castelo no tempo quando o tempo se abre a uma dimensão não centrada na labuta, no cálculo do sucesso.
— Abraham Joshua Heschel, sobre o significado do shabat
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