Famílias ganham na Justiça para obrigar planos a custear remédio de Alzheimer de R$ 30 mil

Pacientes com Alzheimer em estágio inicial enfrentam barreiras de acesso a medicamento que pode retardar progressão da doença, impactando qualidade de vida e autonomia.
Se a doença avança, a pessoa deixa de ser elegível ao medicamento
A janela terapêutica do Kisunla é estreita, e o tempo determina quem pode ou não receber o tratamento.
Mark

Por que os juízes estão concedendo essas liminares tão rapidamente, se o medicamento nem está no rol da ANS?

Mimi

Porque a lei mudou. Desde 2022, o rol deixou de ser uma lista fechada. E o Supremo, em 2025, abriu caminho para cobrir tratamentos fora do rol se houver prescrição médica, registro na Anvisa, comprovação científica e ausência de alternativa. Os juízes estão aplicando isso.

Mark

Mas o medicamento realmente funciona?

Mimi

Funciona, mas modestamente. Retarda o declínio cognitivo em cerca de 35% comparado ao placebo. Não é uma cura. O benefício é maior quando a doença ainda está no início, por isso o tempo é tão determinante.

Mark

E por que a Eli Lilly não pediu inclusão no SUS ou na ANS?

Mimi

Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com certeza. A empresa diz que avalia estratégias, mas não há expectativa de submissão no curto prazo. Alguns especialistas sugerem que há preferência em deixar a judicialização acontecer — é mais rápido e lucrativo.

Mark

Qual é o risco disso?

Mimi

Que o sistema de saúde fica desequilibrado. Famílias ricas conseguem liminares e acesso. Famílias pobres não têm advogado nem conseguem pagar R$ 30 mil por mês. E o medicamento é tão caro que, mesmo para quem consegue a liminar, é um fardo tremendo.

Mark

A família que você mencionou conseguiu pagar?

Mimi

Conseguiu a primeira dose — R$ 23 mil — de próprio bolso. Depois a liminar saiu e o plano começou a pagar. Mas ela disse que, se o plano deixasse de pagar, encontraria um jeito. Nem toda família tem essa capacidade.

Mark

O que deveria acontecer agora?

Mimi

O medicamento deveria passar por avaliação formal de tecnologias em saúde. Isso definiria diretrizes de uso, quem realmente se beneficia, como monitorar riscos. Aí sim, com critérios claros, os planos cobrem. Mas enquanto isso não acontece, a judicialização continua.

  • Medicamento custa até R$ 31 mil por aplicação mensal
  • 35 ações na segunda instância em São Paulo, com 28 decisões favoráveis aos pacientes
  • Fabricante não pediu inclusão no SUS ou ANS desde aprovação em abril de 2025
  • Medicamento retarda declínio cognitivo em cerca de 35% comparado ao placebo

Medicamento custa até R$ 31 mil por aplicação mensal e juízes têm concedido liminares favoráveis mesmo sem estar no rol da ANS. Levantamento identificou 35 ações na segunda instância em São Paulo, com 28 decisões favoráveis aos pacientes que buscam acesso ao donanemabe.

Dez meses após chegar ao mercado, medicamento Kisunla para Alzheimer inicial impulsiona ações judiciais contra planos de saúde, com maioria de liminares favoráveis aos pacientes.

Dez meses depois de chegar às prateleiras das farmácias brasileiras, um medicamento para Alzheimer começou a ocupar as salas de audiência. O Kisunla, nome comercial do donanemabe, promete retardar a progressão da doença quando administrado nos estágios iniciais — mas a um custo que coloca a maioria das famílias diante de uma escolha impossível: pagar de próprio bolso ou recorrer aos tribunais.

O medicamento custa cerca de R$ 30 mil por aplicação mensal, administrado em ambiente ambulatorial. Fabricado pela Eli Lilly, recebeu aprovação da Anvisa em abril de 2025 e começou a ser comercializado em setembro. Desde então, famílias têm ingressado com ações contra planos de saúde exigindo cobertura. Um levantamento identificou 35 processos na segunda instância em São Paulo: em 28 deles, os juízes concederam liminares favoráveis aos pacientes; em 5, negaram; e 2 ainda aguardam laudos complementares. Na primeira instância, outras 51 ações tramitavam até a última sexta-feira.

O fundamento jurídico é claro para muitos magistrados. Desde a lei 14.454 de 2022, o rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar deixou de ser uma lista fechada e passou a funcionar como referência. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal em 2025 abriu caminho para cobertura de tratamentos fora do rol quando há prescrição médica, registro na Anvisa, comprovação científica e ausência de alternativa terapêutica. Os juízes têm aplicado essa jurisprudência com rapidez: liminares são concedidas entre 72 horas e duas semanas após o protocolo.

Renata Vilhena Silva, advogada especializada em direito à saúde, relata aumento expressivo na procura de pacientes nos últimos meses. As ações começam quando os planos negam cobertura com argumentos padronizados — a ausência no rol da ANS é o principal. Ela observa que o tempo é determinante: se a doença avança, o paciente deixa de ser elegível para o medicamento. Essa janela terapêutica estreita tem subsidiado as decisões favoráveis.

A história de uma família paulista ilustra o caminho percorrido. Uma empresária de 34 anos viu seu pai, também empresário, receber diagnóstico de Alzheimer no início de 2025. Os primeiros sinais foram discretos: esquecimentos, confusão de informações no trabalho, dificuldades de orientação. Após quase um ano de investigação, exames confirmaram a doença em estágio inicial. Um neurologista mencionou a possibilidade do donanemabe. A família foi atrás.

O plano recusou. A família entrou na Justiça. O processo foi protocolado às 6 da manhã; a liminar saiu às 14 horas. Mas a primeira infusão foi paga pela própria família — R$ 23 mil — devido a problemas na autorização do convênio. O medicamento é fracionado nas primeiras aplicações para monitorar efeitos adversos, começando com 25% de uma dose completa e aumentando gradualmente até 100%. Uma dose completa varia de R$ 27 mil a R$ 31 mil conforme a instituição.

Após quatro infusões, a filha relata mudanças: o pai está mais comunicativo, mais calmo, voltou a participar das conversas. Embora continue com limitações, a família sente que ganhou tempo de autonomia. Ela afirma que, se o plano deixasse de pagar, encontraria um jeito de continuar o tratamento.

Mas há tensão crescente no sistema. Paulo Caramelli, neurologista da Universidade Federal de Minas Gerais, alerta que a procura pela terapia cresce rapidamente nos consultórios e que a cobertura pelos planos precisa ser discutida para evitar expansão da judicialização. O custo mensal torna o tratamento inviável para praticamente todas as famílias, inclusive as de maior renda. Caramelli ressalta que o medicamento deve ser reservado a pacientes cuidadosamente selecionados — não é para qualquer pessoa com Alzheimer. O benefício é maior quando a doença ainda provoca pouco impacto funcional.

O donanemabe pertence à classe dos anticorpos monoclonais antiamiloide e remove placas beta-amiloide do cérebro. Nos estudos que embasaram sua aprovação, retardou o declínio cognitivo e funcional em cerca de 35% comparado ao placebo. O tratamento exige monitoramento por ressonância magnética devido ao risco de efeitos adversos. Bruno Sobral, diretor-executivo da Fenasaúde, atribui parte da judicialização à estratégia da fabricante: embora o medicamento tenha registro desde 2025, ainda não houve pedido de incorporação ao SUS nem à ANS. Há, aparentemente, uma preferência da indústria de investir na judicialização. Ele observa que muitos juízes têm concedido liminares considerando apenas prescrição médica e registro na Anvisa, sem observar outros critérios definidos pelo Supremo. O donanemabe precisa passar pelo processo formal de avaliação de tecnologias em saúde antes de ser incorporado — essa análise é importante porque o medicamento possui indicação restrita e apresenta riscos que exigem monitoramento.

Em nota, a Eli Lilly afirmou que o acesso a terapias inovadoras ainda enfrenta desafios no país. O intervalo entre aprovação regulatória e disponibilização no sistema de saúde costuma superar cinco anos. A farmacêutica disse que sua prioridade é contribuir para melhorias na infraestrutura de diagnóstico e ampliar o acesso dos pacientes que podem se beneficiar. Mas, por ora, não há expectativa de submissão do Kisunla à ANS ou à Conitec no curto prazo — cenário que, segundo a empresa, é reavaliado continuamente.

O tempo é determinante. Se a doença avança, a pessoa deixa de ser elegível ao medicamento
— Renata Vilhena Silva, advogada especializada em direito à saúde
O custo mensal torna o tratamento inviável para praticamente todas as famílias, inclusive as de maior renda
— Paulo Caramelli, neurologista da UFMG
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