Faltam vidros e plásticos para produzir frascos de vacinas contra a covid-19

A pandemia já provocou mais de 2,6 milhões de mortos no mundo, criando procura inédita por vacinas que agora enfrenta obstáculos de produção.
É o maior aumento de produção que o mundo alguma vez conheceu
O diretor da IFPMA reconhecia a escala sem precedentes do desafio enfrentado pela indústria farmacêutica.
Mark

Porque é que a falta de vidro é um problema tão grave? Não é apenas uma questão de encontrar outro fornecedor?

Mimi

Porque não há outro fornecedor. O vidro para frascos farmacêuticos é um produto muito específico, com normas rigorosas. Quando duplicas a procura global de repente, não podes simplesmente ligar para uma fábrica de vidro e pedir mais. Elas já estão a trabalhar a capacidade máxima.

Mark

E os países que impõem controlos de exportação — isso não é compreensível? Cada um quer proteger os seus cidadãos.

Mimi

É compreensível, mas contraproducente. Se os EUA retêm vidro, a Europa não consegue produzir vacinas. Se a Europa retém plástico, a Índia não consegue produzir. É um jogo onde todos perdem.

Mark

A proposta de suspender as patentes — porque é que os laboratórios se opõem?

Mimi

Porque as patentes são o seu modelo de negócio. Mas há também uma questão real: transferir tecnologia leva tempo. Não é como copiar um ficheiro. É preciso treinar pessoas, construir infraestrutura.

Mark

Então o problema não é apenas a falta de materiais?

Mimi

Não. É a falta de materiais, a falta de vontade política de cooperar, a falta de transparência sobre quem tem o quê. É tudo junto.

Mark

E enquanto isso, as pessoas continuam a morrer.

Mimi

Exatamente. Dois milhões e seiscentas mil até àquele momento. E a vacina estava lá, mas não conseguiam colocá-la em frascos.

  • A indústria farmacêutica tenta duplicar toda a capacidade global de produção de vacinas num único ano, uma escala sem precedentes na história da medicina.
  • Frascos de vidro, tampas e seringas de plástico tornam-se gargalos críticos, ameaçando atrasar a distribuição de vacinas já desenvolvidas e aprovadas.
  • Países, incluindo os Estados Unidos, começam a impor controlos de exportação sobre materiais essenciais, agravando as tensões numa cadeia de abastecimento já sob pressão extrema.
  • Líderes da OMS, Cepi, IFPMA e fabricantes de países em desenvolvimento reúnem-se virtualmente para coordenar respostas, apelando à livre circulação de bens e à partilha de tecnologia.
  • A proposta da Índia e da África do Sul para suspender patentes de vacinas na OMC permanece sem resposta, ignorada na reunião enquanto os laboratórios mantêm a sua oposição.

Em março de 2021, com mais de 2,6 milhões de mortos pela pandemia, o mundo descobriu que o maior obstáculo à vacinação em massa não era científico, mas material: faltavam frascos de vidro, tampas e plástico para embalar um medicamento que a humanidade havia criado em tempo recorde. A ambição de produzir dez mil milhões de doses num único ano — o dobro de toda a capacidade global anterior — colidiu com cadeias de abastecimento já fragilizadas, revelando que a distância entre uma vacina descoberta e uma vacina administrada é, muitas vezes, medida em componentes industriais esquecidos.

Em março de 2021, a indústria farmacêutica mundial deparou-se com um paradoxo perturbador: havia vacinas contra a covid-19, mas não havia frascos suficientes para as conter. A escassez de vidro, plástico e tampas transformou-se num obstáculo inesperado numa corrida que o mundo julgava ser sobretudo científica.

Os números revelam a dimensão do problema. A indústria pretendia produzir dez mil milhões de doses naquele ano — o dobro de toda a capacidade global de produção de vacinas existente em 2019. Thomas Cueni, da IFPMA, reconheceu sem rodeios: "É o maior aumento de produção que o mundo alguma vez conheceu. Não é surpreendente que existam problemas."

Numa reunião virtual que juntou a OMS, a Cepi, a Aliança para as Vacinas e representantes governamentais, Richard Hatchet descreveu o que se passava nos bastidores: tensões crescentes nas cadeias de aprovisionamento, penúrias pontuais de matérias-primas e equipamentos. A pandemia, que já havia matado mais de 2,6 milhões de pessoas, desestabilizara as próprias redes logísticas de que dependia a resposta à crise.

Os participantes apelaram à livre circulação de bens e mão-de-obra, e encorajaram parcerias de produção como a estabelecida entre a AstraZeneca e o Serum Institute da Índia. Mas uma questão permaneceu em silêncio: a proposta de levantamento temporário de patentes submetida à OMC pela Índia e pela África do Sul. Os laboratórios opunham-se, e o tema não chegou a ser discutido.

Ficava assim evidente que vacinar o mundo era, acima de tudo, um problema de logística, política e capacidade industrial — dimensões que, em março de 2021, ainda não estavam alinhadas.

A indústria farmacêutica mundial enfrenta um problema que ninguém tinha previsto com precisão: não tem vidro suficiente. Nem plástico. Nem tampas. Enquanto o mundo inteiro espera por vacinas contra a covid-19, os fabricantes descobrem que a maior parte da sua dificuldade não está em criar o medicamento, mas em conseguir os frascos para o colocar.

Em março de 2021, os principais atores da cadeia de produção de vacinas reuniram-se virtualmente para discutir um cenário que se tornava cada vez mais urgente. A Organização Mundial de Saúde, a Aliança para as Vacinas, a Cepi, a Federação Internacional da Indústria Farmacêutica, fabricantes de países em desenvolvimento, peritos e representantes governamentais sentaram-se à mesma mesa — ainda que separados por ecrãs — para enfrentar uma realidade incómoda: o sistema de abastecimento global estava a ruir sob o peso da procura.

Os números explicam a dimensão do desafio. A indústria pretendia produzir dez mil milhões de doses naquele ano, o dobro de toda a capacidade de produção de vacinas que existia em 2019, considerando todas as vacinas em conjunto. Thomas Cueni, diretor-geral da IFPMA, foi direto na sua avaliação após a reunião: "É o maior aumento de produção que o mundo alguma vez conheceu. Não é surpreendente que existam problemas." A afirmação era simultaneamente um reconhecimento e uma admissão de impotência.

A pandemia tinha matado mais de dois milhões e seiscentas mil pessoas desde o final de 2019. Essa morte em massa criou uma procura por vacinas sem precedentes na história. Mas as cadeias de abastecimento mundializadas, já desestabilizadas pela própria pandemia, não conseguiam acompanhar. Richard Hatchet, diretor da Cepi, descreveu o que estava a acontecer nos bastidores: "Vimos nas últimas semanas e últimos meses um aumento das tensões a nível das cadeias de aprovisionamento. As empresas começam a assinalar penúrias pontuais de materiais essenciais, matérias-primas e até de equipamentos necessários à produção das vacinas."

O problema era estrutural. Para fabricar doses em quantidade sem precedente, era preciso não apenas ingredientes farmacêuticos, mas também vidro para os frascos, plástico para as seringas, tampas para os frascos. Cada um destes componentes tinha a sua própria cadeia de abastecimento, e cada uma delas estava sob pressão. Alguns países começavam a impor controlos sobre as exportações — os Estados Unidos entre eles — o que agravava ainda mais a situação.

Os participantes na reunião fizeram um apelo conjunto: deixem circular os bens e a mão-de-obra livremente. Encorajaram também as transferências de tecnologia e as parcerias de produção entre laboratórios e fabricantes, citando como exemplo o acordo entre a AstraZeneca e o Serum Institute da Índia. Mas havia uma questão que ninguém queria abordar diretamente: a proposta da Índia e da África do Sul para um levantamento temporário das patentes, submetida à Organização Mundial do Comércio. Os laboratórios tinham criticado essa ideia, e nenhuma menção foi feita durante a reunião.

O que ficava claro era que a vacinação em massa não era apenas uma questão de ciência. Era uma questão de logística, de política, de capacidade industrial. E naquele momento, em março de 2021, nenhuma destas dimensões estava completamente alinhada.

É o maior aumento de produção que o mundo alguma vez conheceu. Não é surpreendente que existam problemas.
— Thomas Cueni, diretor-geral da IFPMA
As empresas começam a assinalar penúrias pontuais de materiais essenciais, matérias-primas e até de equipamentos necessários à produção das vacinas.
— Richard Hatchet, diretor da Cepi
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