Enquanto o mundo avança na vacinação em massa contra a Covid-19, pesquisadores brasileiros permanecem presos em laboratórios bem-intencionados, mas subfinanciados — não por falta de competência, mas por uma escolha política que historicamente subestima a ciência nacional. Cerca de dez vacinas estão em desenvolvimento no Brasil, nenhuma delas chegou a testes em humanos, e a distância entre o que se investe aqui e o que se investe lá fora revela não apenas uma crise sanitária, mas uma crise de soberania científica.
Brasil tem capacidade para desenvolver vacinas, mas enfrenta falta de recursos
Se não dermos valor à ciência, vamos ficar dependentes do que outros enviam
Por que o Brasil não conseguiu acompanhar o ritmo das farmacêuticas estrangeiras no desenvolvimento de vacinas?
Não é falta de capacidade científica. É falta de investimento anterior à pandemia. Quando a crise começou, pesquisadores brasileiros tiveram que começar do zero, enquanto grupos internacionais já tinham pesquisas similares em andamento há anos com financiamento robusto.
Então o dinheiro que o governo brasileiro gastou em vacinas foi todo em importações?
Basicamente sim. Enquanto isso, pesquisadores recebiam alguns milhões — e ainda assim com atrasos e interrupções. A Pfizer sozinha recebeu quase US$ 2 bilhões. A proporção é absurda.
Essas vacinas brasileiras que estão sendo desenvolvidas servem para algo, então?
Não para esta pandemia, provavelmente. Mas em uma próxima crise sanitária, com outro coronavírus, a tecnologia desenvolvida agora pode ser reutilizada. É um investimento no futuro, não na emergência atual.
E a indústria farmacêutica privada? Por que não investe?
Porque entra apenas quando o estudo está avançado. Precisa do setor público alavancar a pesquisa primeiro. Sem esse impulso inicial, fica tudo parado.
Qual é a esperança, então?
Que o Brasil aprenda a lição e invista em ciência antes da próxima crise, não durante. E que as vacinas que estão sendo desenvolvidas agora sirvam como base para tecnologias futuras.
El Pulso
- O Brasil recebeu R$ 9 milhões para pesquisas de vacinas nacionais — enquanto a Pfizer sozinha obteve quase US$ 2 bilhões do governo americano.
- Nenhuma das dez vacinas em desenvolvimento no país avançou para testes em humanos, travadas pela falta de recursos dez vezes maiores do que os disponíveis.
- Pesquisadores como Gazzinelli e Oliveira trabalham com financiamentos incertos e histórico de interrupções que paralisam projetos inteiros entre uma fase e outra.
- Farmacêuticas internacionais só entram quando a pesquisa já está avançada — e sem impulso público inicial, os projetos nunca chegam ao ponto de atrair esse interesse privado.
- As vacinas brasileiras provavelmente não chegarão a tempo para a pandemia atual, mas podem fortalecer a autonomia do país diante de futuras crises sanitárias.
Enquanto o mundo avança na vacinação em massa contra a Covid-19, pesquisadores brasileiros permanecem presos em laboratórios bem-intencionados, mas subfinanciados — não por falta de competência, mas por uma escolha política que historicamente subestima a ciência nacional. Cerca de dez vacinas estão em desenvolvimento no Brasil, nenhuma delas chegou a testes em humanos, e a distância entre o que se investe aqui e o que se investe lá fora revela não apenas uma crise sanitária, mas uma crise de soberania científica.
Enquanto países ao redor do mundo iniciam campanhas de vacinação em massa, pesquisadores brasileiros trabalham em laboratórios com uma fração dos recursos disponíveis para suas contrapartes internacionais. Cerca de dez vacinas contra a Covid-19 estão em desenvolvimento no Brasil — mas nenhuma delas chegou à fase de testes em seres humanos. O motivo é direto: falta dinheiro.
O contraste é revelador. Em agosto de 2020, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações destinou R$ 9 milhões para pesquisas de vacinas nacionais. A Pfizer, sozinha, recebeu quase US$ 2 bilhões de um programa do governo norte-americano. Essa disparidade reflete uma escolha política: o Brasil priorizou a compra de doses importadas em vez de financiar a pesquisa doméstica em escala compatível com a urgência da crise.
Ricardo Gazzinelli, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas da UFMG, recebeu cerca de R$ 3 milhões para desenvolver um imunizante baseado na tecnologia das vacinas contra influenza. O valor pode ser suficiente para chegar à primeira fase clínica — mas avançar até a terceira fase e escalonar a produção exigiria recursos pelo menos dez vezes maiores, ainda sem negociação à vista. Sérgio Costa Oliveira, também da UFMG, trabalha em uma vacina anti-Covid baseada na BCG, o imunizante contra tuberculose presente na caderneta brasileira desde os anos 70. Ele enfrenta o mesmo problema: financiamento incerto e histórico de interrupções que paralisam projetos entre uma fase e outra.
José Cássio de Moraes, especialista em imunização, resume o problema estrutural: quando a verba chega, demora, e há descontinuidade. Sem investimento consistente, o Brasil permanece dependente do que outros países enviam. As grandes farmacêuticas internacionais só se interessam por pesquisas já avançadas — e sem o impulso público inicial, os projetos nunca chegam ao ponto de atrair capital privado.
As vacinas brasileiras provavelmente não estarão prontas para interromper a pandemia atual. Mas podem servir como complemento à vacinação com tecnologia estrangeira e como base para responder a futuras crises sanitárias. Acordos de transferência de tecnologia com Sinovac e AstraZeneca para Butantan e BioManguinhos apontam um caminho possível — mas a lição mais profunda permanece: colocar em movimento um carro que estava imobilizado exige uma energia muito maior do que simplesmente mantê-lo em marcha.
Enquanto países ao redor do mundo começam a imunizar suas populações contra a Covid-19, pesquisadores brasileiros trabalham em laboratórios com uma fração dos recursos que suas contrapartes internacionais recebem. Cerca de dez vacinas estão em desenvolvimento no Brasil, mas nenhuma delas avançou para testes em seres humanos. A razão é simples e frustrante: falta dinheiro.
O contraste é brutal. Em agosto de 2020, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações prometeu R$ 9 milhões para pesquisas de vacinas brasileiras. A Pfizer, sozinha, recebeu um contrato de quase US$ 2 bilhões de um programa do governo norte-americano. Essa disparidade não é acidental — reflete uma escolha política. O governo brasileiro priorizou a compra de doses importadas em vez de financiar a pesquisa doméstica em escala compatível com a urgência da crise.
Ricardo Gazzinelli coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas, vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais. Seu grupo, em parceria com a Fiocruz Minas, recebeu cerca de R$ 3 milhões em investimento público — a maior parte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, com apoio também da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais. Seu imunizante usa como base a tecnologia das vacinas contra influenza e está em testes pré-clínicos, sendo testado em camundongos. O dinheiro que recebeu é suficiente, talvez, para chegar à primeira fase dos testes clínicos em humanos. Para avançar até a terceira fase e escalonar a produção industrial, seria necessário um recurso pelo menos dez vezes maior — algo que ainda não foi negociado.
Sérgio Costa Oliveira, professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, trabalha em uma abordagem diferente: uma vacina anti-Covid baseada na BCG, o imunizante contra tuberculose que está na caderneta de vacinação brasileira desde os anos 70. A ideia é proteger simultaneamente contra o novo coronavírus e a tuberculose. Oliveira pesquisa a BCG há anos, mas enfrentou sucessivas interrupções quando os recursos públicos secaram. Seu estudo atual recebe apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, mas ele não sabe se o financiamento continuará nas fases posteriores. Em um cenário ideal, a vacina estaria pronta em pelo menos dois anos.
José Cássio de Moraes, especialista em imunização e membro do Observatório Covid-19 BR, resume o problema com clareza: quando você consegue uma verba de alguns milhões, ela demora para chegar, e há interrupção e descontinuidade dos recursos. Se o Brasil não der valor à ciência, ficará dependente do que outros países enviam e terá pouca independência. A falta de investimento não é novidade trazida pela pandemia — é um problema estrutural que a crise apenas expôs.
As grandes farmacêuticas internacionais não procuram os pesquisadores brasileiros enquanto os estudos estão em fases iniciais. Elas entram quando a pesquisa já está avançada. Isso significa que o setor público precisa alavancar os estudos para que a indústria privada se interesse em investir. Sem esse impulso inicial, os projetos ficam presos em laboratórios com equipamentos limitados e orçamentos que não acompanham a ambição científica.
Mas há uma perspectiva de longo prazo. As vacinas brasileiras provavelmente não estarão prontas a tempo de interromper a pandemia atual, mas podem servir como complemento à vacinação com tecnologia estrangeira e como base para novos imunizantes em futuras crises sanitárias. A Sinovac e a AstraZeneca já assinaram acordos para transferir tecnologia para o Instituto Butantan e para a BioManguinhos, respectivamente, permitindo que a produção seja nacional mesmo com tecnologia importada. Pesquisadores estrangeiros que avançaram na corrida, como Sarah Gilbert da Universidade de Oxford, tinham pesquisas similares em andamento há anos e receberam investimentos vultosos em 2020. Muitos grupos em Minas Gerais têm competência para fazer várias coisas, mas estavam parados quando a pandemia começou. Colocar em movimento um carro que estava imobilizado gasta uma energia muito maior.
Citas Notables
Se não dermos valor à ciência, vamos ter que ficar aguentando o que os outros países enviam para a gente e ter pouca independência— José Cássio de Moraes, especialista em imunização
Colocar em movimento um carro que estava parado gasta uma energia muito maior. Muitos grupos em Minas têm competência para fazer várias coisas e estavam parados quando a pandemia começou— Ricardo Gazzinelli, coordenador do INCT-V