Depois de sobreviver à covid-19, milhões de pessoas descobriram que a doença deixou uma marca invisível — não nos pulmões, mas na mente. Uma pesquisa pioneira do InCor, vinculado à USP, revelou que oito em cada dez pacientes pós-covid apresentam disfunções cognitivas mensuráveis, independentemente da gravidade do caso. O estudo, conduzido com um aplicativo de reabilitação validado internacionalmente, aponta que o diagnóstico precoce pode abrir caminho para a recuperação — e seus resultados serão apresentados à OMS como proposta de metodologia global.
Estudo do InCor aponta que 80% dos pacientes pós-covid têm disfunções cognitivas
O cérebro é plástico. Estou melhor, mas tenho um caminho a percorrer.
Por que você acha que as pessoas não reconhecem a disfunção cognitiva como sequela tão grave quanto outras?
Porque é invisível. Uma tosse você ouve, uma febre você sente no termômetro. Mas quando você esquece um nome ou demora para processar uma informação, você culpa o estresse, a quarentena, a vida. A pessoa não conecta isso ao vírus.
E por que o vírus afeta especificamente a memória e a percepção visual?
Porque a covid compromete o oxigênio no sangue. Quando o cérebro recebe sangue rarefeito, as funções neuropsicológicas sofrem. A percepção visual é particularmente vulnerável — 92% dos pacientes tiveram impacto lá.
O aplicativo MentalPlus consegue reverter completamente o dano?
Nem sempre. Alguns pacientes se recuperam totalmente com dez sessões. Outros precisam de mais — passam para eletroestimulação. Mas o ponto é que há recuperação possível se diagnosticado cedo.
Ivana se surpreendeu com a dificuldade do jogo, certo?
Exatamente. Ela era boa em videogame, confiante em suas habilidades. Mas no teste, seus reflexos estavam lentos, suas respostas atrasadas. Aquilo foi o espelho que mostrou o que a covid tinha feito.
Qual é a importância de levar isso à OMS?
Padronizar o diagnóstico e o tratamento globalmente. Agora cada país pode estar lidando com isso de forma diferente, ou nem lidando. Se a OMS validar essa metodologia, bilhões de pessoas terão acesso a um protocolo comprovado.
O Pulso
- Oito em cada dez pacientes pós-covid apresentaram perda de memória, falhas de atenção ou confusão mental — inclusive aqueles que tiveram casos leves ou assintomáticos.
- A percepção visual foi comprometida em 92,4% dos participantes e a memória de curto prazo em 62,7%, revelando um padrão neurológico que muitos pacientes atribuíam ao estresse da quarentena.
- O mecanismo é biológico: a queda de oxigênio no sangue causada pelo vírus chega ao cérebro e compromete funções neuropsicológicas, elevando também o risco de AVC e isquemia.
- O InCor utiliza o aplicativo MentalPlus — ferramenta gamificada validada em cinco continentes — tanto para diagnosticar quanto para reabilitar pacientes em sessões progressivas.
- O estudo, já com 430 voluntários, caminha para apresentar seus resultados à OMS e estabelecer um protocolo mundial para tratar as sequelas cognitivas da pandemia.
Depois de sobreviver à covid-19, milhões de pessoas descobriram que a doença deixou uma marca invisível — não nos pulmões, mas na mente. Uma pesquisa pioneira do InCor, vinculado à USP, revelou que oito em cada dez pacientes pós-covid apresentam disfunções cognitivas mensuráveis, independentemente da gravidade do caso. O estudo, conduzido com um aplicativo de reabilitação validado internacionalmente, aponta que o diagnóstico precoce pode abrir caminho para a recuperação — e seus resultados serão apresentados à OMS como proposta de metodologia global.
Ivana Sarmanho sempre teve memória invejável. Aos 55 anos, guardava datas, reconhecia músicas, navegava o cotidiano com precisão. Depois da covid-19 — um caso leve, com tosse espaçada e febre baixa — os lapsos começaram: nomes que escapavam, músicas que não identificava, sono irregular. Algo não funcionava direito, mas ela não sabia nomear o quê.
Dois meses após o diagnóstico, Ivana soube de um estudo em andamento no InCor, o Instituto do Coração vinculado ao Hospital das Clínicas da USP, e decidiu participar. Os resultados a surpreenderam: seus reflexos estavam lentos, suas respostas atrasadas. O aplicativo de teste cognitivo, que ela esperava achar simples, revelou-se estranhamente difícil.
A pesquisa, conduzida pela neuropsicóloga Lívia Stocco Sanches Valentin, professora da Faculdade de Medicina da USP, analisou 185 pacientes entre março e setembro de 2020. O padrão foi perturbador: oito em cada dez apresentaram algum nível de disfunção cognitiva. A memória de curto prazo foi afetada em 62,7% dos casos; a percepção visual, em 92,4%. As disfunções apareciam mesmo em pacientes assintomáticos. Valentin explica que a covid-19 reduz os níveis de oxigênio no sangue, comprometendo o cérebro e aumentando o risco de AVC e isquemia — uma sequela que muitos pacientes mascaravam com explicações cotidianas, sem perceber a origem neurológica.
Para avaliar e tratar esses casos, Valentin recorreu ao MentalPlus, aplicativo gamificado que ela própria desenvolveu em 2010 para estudar sequelas de anestesia em idosos e que foi validado internacionalmente em 2014. No contexto pós-covid, a ferramenta funciona como diagnóstico e como reabilitação: pacientes com disfunção comprovada passam por dez sessões progressivas e são reavaliados. Casos mais resistentes avançam para uma fase com eletroestimulação.
Ivana respondeu bem ao tratamento e começou a notar melhora. Passou a se desafiar ativamente — lendo mais, tentando recuperar memórias. O estudo, expandido para 430 voluntários, segue aberto. A meta é apresentar os resultados finais à OMS e propor uma metodologia global para o diagnóstico e tratamento das sequelas cognitivas da pandemia — uma resposta sistemática para os milhões que sobreviveram à infecção, mas não saíram ilesos.
Ivana Sarmanho tinha uma memória invejável. Aos 55 anos, a produtora guardava datas de aniversário com precisão, reconhecia a faixa exata de uma música em um disco de vinil, navegava o mundo com a segurança de quem não esquece nada. Depois da covid-19, tudo mudou. Os lapsos começaram discretamente — uma música que não conseguia identificar, nomes que escapavam. O sono ficou irregular. Quando voltou do teste de PCR em maio, o olfato e o paladar desapareceram, confirmando o diagnóstico. Os sintomas foram leves: tosse espaçada, febre baixa. Mas a sensação de que algo não funcionava direito permanecia.
Dois meses depois, Ivana soube de um estudo em andamento no Instituto do Coração, o InCor, vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Decidiu participar. O que descobriu a surpreendeu: seus reflexos estavam lentos, suas respostas atrasadas. Ela, que se sentia à vontade jogando videogame, achava o aplicativo de teste cognitivo estranhamente difícil.
O estudo que Ivana integrou revelou um padrão perturbador. Entre os 185 pacientes analisados na primeira fase, entre março e setembro de 2020, oito em cada dez apresentaram algum nível de disfunção cognitiva — perda de memória, dificuldade de concentração, problemas de compreensão ou confusão mental. A memória de curto prazo foi afetada em 62,7% dos participantes. A percepção visual sofreu impacto em 92,4%. Esses números não distinguiam entre casos graves e leves; as disfunções apareciam até em pacientes assintomáticos. A pesquisa, conduzida pela neuropsicóloga Lívia Stocco Sanches Valentin, professora da Faculdade de Medicina da USP, buscava entender por que o vírus deixava essa marca no cérebro.
Valentin explicou o mecanismo: a covid-19 invade as vias aéreas, causando queda nos níveis de oxigênio no sangue. Esse sangue rarefeito chega ao cérebro comprometido, afetando não apenas as funções neuropsicológicas, mas também aumentando o risco de acidente vascular cerebral e isquemia. O que muitos pacientes não compreendiam era que essa disfunção cognitiva era talvez a sequela mais grave deixada pela doença — mais grave que a tosse persistente, o cansaço crônico ou a dor de cabeça. As pessoas justificavam seus lapsos com preocupações financeiras, quarentena prolongada, falta de viagens. Não percebiam que o problema era neurológico.
Para avaliar e tratar essas disfunções, Valentin utilizou uma ferramenta que havia desenvolvido em 2010, chamada MentalPlus — um aplicativo gamificado originalmente criado para avaliar sequelas de anestesia geral profunda em idosos. A ferramenta foi validada internacionalmente em 2014 e já havia sido aplicada nos cinco continentes. Para pacientes pós-covid, funciona tanto como diagnóstico quanto como reabilitação. Aqueles com disfunção comprovada passam por dez sessões de reabilitação, jogando em fases progressivas. Na 12ª etapa, são reavaliados. Se não se recuperarem completamente, avançam para uma terceira fase que inclui eletroestimulação.
Ivana respondeu bem à reabilitação. Começou a notar melhora — seu cérebro, como ela mesma observou, é plástico. Mas reconhecia que tinha um caminho ainda a percorrer. Assim como a reabilitação física exigia esforço, a cognitiva também. Ela passou a se desafiar, tentando lembrar de coisas, lendo mais. O estudo, que já havia expandido para 430 voluntários, continua aceitando participantes. A meta é apresentar os resultados finais à Organização Mundial da Saúde, estabelecendo uma metodologia global para diagnóstico e tratamento de sequelas cognitivas pós-covid. No Brasil e no mundo, é considerado um estudo pioneiro nessa questão de saúde pública — uma tentativa de responder, sistematicamente, o que fazer com os milhões de pessoas que sobreviveram à infecção mas não saíram ilesas.
Citações Notáveis
Quando a gente diz que são recuperados, os pacientes não entendem que é algo maior. Até fala que saiu ileso, mas não por completo, porque permanece o cansaço, a tosse, a dor de cabeça ou a questão cognitiva.— Lívia Stocco Sanches Valentin, neuropsicóloga e pesquisadora do InCor