No Hospital Fernando Fonseca, na Amadora-Sintra, dezenas de enfermeiros formalizaram em julho aquilo que muitos profissionais de saúde apenas sussurram: não podemos ser responsabilizados pelo que não controlamos. A declaração de escusa de responsabilidade entregue à administração é menos um gesto de recusa do que um espelho colocado diante de um sistema que opera além dos seus limites — com tempos de espera que chegam a 26 horas, sem direção clínica desde fevereiro e com 18 camas de internamento perdidas por falta de pessoal. Quando os que cuidam pedem para não ser responsabilizados, é porque
Enfermeiros do Amadora-Sintra entregam declaração de escusa de responsabilidade
Com tanto tempo de espera, qualquer doente que não seja urgente pode passar a sê-lo
O que leva um grupo de enfermeiros a entregar uma declaração de escusa de responsabilidade? Parece um gesto muito formal para uma crise hospitalar.
É formal porque precisa de ser. Não é uma greve, não é um protesto público. É um documento legal que diz: o que acontecer aqui não é da nossa responsabilidade. Eles estão a proteger-se porque sabem que algo pode correr mal e não querem ser culpabilizados por circunstâncias que não controlam.
Mas eles continuam a trabalhar. Não é contraditório?
Não. Eles continuam porque são profissionais de saúde — não podem abandonar os doentes. Mas precisavam de deixar registado que estão a trabalhar em condições perigosas. É uma forma de dizer: vejo o problema, estou aqui apesar dele, mas não assumo responsabilidade pelo que pode acontecer.
Os números dos tempos de espera parecem quase impossíveis. 26 horas para um doente urgente?
Sim. E o pior é que isso muda o significado de "urgente". Se esperas 26 horas, uma situação que era estável pode deteriorar-se. Um doente que chegou com dor no peito pode desenvolver complicações. O sistema de triagem deixa de funcionar quando o tempo de espera é tão longo.
A administração diz que vai contratar 13 enfermeiros. Isso resolve o problema?
Ajuda, mas é um penso rápido. O hospital perdeu 18 camas de internamento por falta de pessoal. Treze enfermeiros é um começo, mas não sabemos se é suficiente. E há meses sem direção clínica — isso também afeta a organização e a tomada de decisões.
O que é que muda agora?
Espera-se que mude quando chegarem os novos enfermeiros e quando tiverem um novo diretor. Mas a declaração que entregaram já mudou algo — tornou o problema oficial, documentado, impossível de ignorar.
El Pulso
- Enfermeiros do Hospital Amadora-Sintra entregaram uma declaração formal de escusa de responsabilidade, alertando que as condições do serviço de urgência os expõem a riscos que não podem controlar nem corrigir.
- Doentes classificados como urgentes chegaram a esperar 26 horas — 26 vezes o limite recomendado —, enquanto os muito urgentes, que deveriam ser vistos em dez minutos, aguardaram até quatro horas.
- O serviço opera sem direção clínica desde fevereiro, perdeu 18 camas de internamento e enfrenta uma escassez crónica de médicos e enfermeiros numa unidade que serve mais de 600 mil habitantes.
- A administração anunciou a contratação de 13 enfermeiros até setembro e o recrutamento de um novo diretor clínico, mas os tempos de espera continuavam a ultrapassar as nove horas no dia em que a situação ganhou visibilidade pública.
- A Ordem dos Enfermeiros visitou o serviço, e a administração garantiu que os profissionais permanecem empenhados — mas a declaração de escusa permanece como um documento formal de alarme que nenhuma promessa de reforço apagou ainda.
No Hospital Fernando Fonseca, na Amadora-Sintra, dezenas de enfermeiros formalizaram em julho aquilo que muitos profissionais de saúde apenas sussurram: não podemos ser responsabilizados pelo que não controlamos. A declaração de escusa de responsabilidade entregue à administração é menos um gesto de recusa do que um espelho colocado diante de um sistema que opera além dos seus limites — com tempos de espera que chegam a 26 horas, sem direção clínica desde fevereiro e com 18 camas de internamento perdidas por falta de pessoal. Quando os que cuidam pedem para não ser responsabilizados, é porque o peso do sistema caiu sobre ombros que não foram feitos para o suportar sozinhos.
No final de julho, dezenas de enfermeiros do Hospital Fernando Fonseca entregaram à administração um aviso formal: não podem ser responsabilizados pelo que acontece num serviço de urgência que opera além dos seus limites. A declaração de escusa de responsabilidade é um gesto raro — não um abandono, mas um grito documentado.
Os problemas acumularam-se. A área ambulatória funciona sistematicamente acima da capacidade, faltam médicos em várias áreas e, desde que o serviço perdeu a sua direção clínica em fevereiro, os tempos de espera dispararam. Doentes urgentes chegaram a aguardar 26 horas quando o protocolo recomenda uma hora. Os muito urgentes, que deveriam ser atendidos em dez minutos, esperaram até quatro horas. Um enfermeiro resumiu o paradoxo: com tanto tempo de espera, qualquer doente não urgente pode tornar-se urgente. A falta de pessoal já havia forçado o corte de 18 camas de internamento.
No dia em que a situação ganhou visibilidade pública, os tempos de espera na urgência geral ultrapassavam as nove horas. Doentes com pulseira amarela esperavam mais de oito horas; os com pulseira verde, mais de nove.
A administração da unidade, que serve mais de 600 mil habitantes, respondeu com um plano de reforço: seis enfermeiros contratados em agosto, sete mais em setembro, e o recrutamento em curso de um novo diretor para o serviço. A Ordem dos Enfermeiros realizou uma visita de acompanhamento. O hospital promete ainda um novo edifício e modernização de infraestruturas — mas essas mudanças levam tempo. Enquanto isso, os doentes continuam a chegar e os enfermeiros continuam a trabalhar em condições que consideram insustentáveis.
No final de julho, dezenas de enfermeiros do Hospital Fernando Fonseca, na Amadora-Sintra, entregaram à administração um documento que funcionava como um aviso formal: não podemos ser responsabilizados pelo que acontece aqui. O serviço de urgência, explicavam, opera em condições que os expõem a riscos que não controlam e não conseguem corrigir. A declaração de escusa de responsabilidade é um gesto raro, um sinal de que algo se quebrou.
Os problemas listados pelos enfermeiros são concretos e acumulados. A área ambulatória funciona sistematicamente acima da capacidade. Não há médicos suficientes nas diferentes áreas do serviço. Desde fevereiro, quando o serviço perdeu sua direção clínica, os tempos de espera dispararam. Um dos profissionais relatou à agência Lusa que no início da semana em questão, doentes classificados como urgentes esperaram 26 horas para serem vistos — quando o protocolo recomenda uma hora. Os muito urgentes, que deveriam ser atendidos em dez minutos, chegaram a esperar quatro horas. "Com tanto tempo de espera, qualquer doente que não seja urgente pode passar a sê-lo", observou um enfermeiro, apontando para o paradoxo perigoso: a demora transforma a própria classificação de risco.
A falta de pessoal de enfermagem já havia forçado cortes drásticos. O serviço perdeu 18 camas de internamento. A capacidade de resposta encolheu enquanto a procura permanecia a mesma. Nesta sexta-feira, quando a declaração ganhou visibilidade pública, os tempos de espera na urgência geral ultrapassavam as nove horas para a primeira observação. Doentes com pulseira amarela — classificados como urgentes — esperavam em média oito horas e quinze minutos. Os com pulseira verde, pouco urgentes, esperavam nove horas e três minutos.
A administração da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, que serve mais de 600 mil habitantes, respondeu com um plano de reforço. Seis enfermeiros foram contratados em agosto em regime de prestação de serviços. Sete mais entrarão em setembro através de contrato permanente. No total, 13 novos enfermeiros até ao final do mês. A unidade também anunciou que está em curso o recrutamento de um novo diretor para o serviço de urgência geral e que trabalha no reforço da equipa médica do Hospital de Sintra. A Ordem dos Enfermeiros realizou uma visita de acompanhamento ao serviço.
Mas a administração também insistiu num ponto: apesar da declaração, os enfermeiros "continuam envolvidos e empenhados" e mantêm o compromisso com a qualidade dos cuidados. É uma afirmação que reconhece a tensão do momento — os profissionais estão ali, a trabalhar, mas formalmente disseram que não podem ser responsabilizados pelo que acontece. A declaração de escusa não é um abandono. É um grito documentado. O hospital promete mudanças estruturais, incluindo um novo edifício e modernização de infraestruturas, mas essas obras levam tempo. Enquanto isso, os doentes continuam a chegar, os enfermeiros continuam a trabalhar em condições que consideram insustentáveis, e os tempos de espera continuam a crescer.
Citas Notables
As atuais condições de funcionamento do serviço de Urgência Geral estão a expor os profissionais a responsabilidades decorrentes de circunstâncias que não controlam e não podem corrigir— Declaração dos enfermeiros
Apesar da apresentação da declaração, os enfermeiros do serviço de urgência geral continuam envolvidos e empenhados na resolução das situações identificadas— Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra