No Tocantins, pacientes com insuficiência renal aguardando transplante se veem presos entre a lógica da economia burocrática e a urgência biológica que não espera. Edimar Rodrigues, 59 anos, perdeu uma consulta pré-operatória essencial após o Estado negar passagem aérea recomendada por dois especialistas, oferecendo em seu lugar uma viagem de ônibus de mais de 12 horas contraindicada por escrito. O episódio ilumina uma tensão antiga e dolorosa: quando os protocolos institucionais se tornam obstáculos à sobrevivência, quem responde pelo tempo perdido?
Pacientes renais no TO enfrentam negativas de passagens aéreas apesar de laudos médicos
Dez minutos de diálise já fazem muita falta
Por que essa negativa de passagem aérea importa tanto? Não é apenas uma questão de conforto?
Não. Para um paciente dialítico, perder uma sessão de diálise é perigoso. E para alguém na fila de transplante, perder uma avaliação pré-operatória pode significar perder a chance de um órgão compatível que pode nunca mais aparecer.
Mas a Secretaria disse que ele estava clinicamente estável. Como isso se encaixa com os laudos médicos que contraindicam a viagem?
Aí está o conflito. Os médicos que o acompanham — que conhecem seu histórico, sua coluna, sua dependência de diálise — disseram claramente que 12 horas sentado em um ônibus pioraria seu quadro. A SES-TO leu a mesma documentação e chegou a conclusão oposta.
Ele já tinha recebido um transplante antes?
Sim. Recebeu um rim em 2018, mas perdeu o órgão em 2024 após complicações. Voltou para a fila. Então essa avaliação que perdeu era uma segunda chance, literalmente.
E a outra paciente que mencionou — ela conseguiu viajar?
Conseguiu, mas precisou ir à Justiça. Teve que processar o Estado para ter o direito que os médicos dela já tinham recomendado.
Isso não deveria ser automático? Se dois médicos especializados dizem que é necessário...
Deveria. Mas há um sistema de regulação que filtra esses pedidos, e nesse caso, o filtro funcionou contra o paciente. A advogada que comentou o caso fala em "economia indevida" — o Estado economizando em passagens aéreas às custas da saúde de quem já está vulnerável.
O que acontece agora com Edimar?
Ele tenta reagendar a consulta para setembro. Mas se seus exames vencerem antes disso, e se um rim compatível surgir, ele não poderá fazer o transplante. É exatamente o cenário que a lei chama de "perda de uma chance".
El Pulso
- Edimar Rodrigues, dialítico com fratura vertebral grave, perdeu consulta pré-operatória em Goiânia porque a SES-TO negou passagem aérea e ofereceu ônibus — viagem que seus próprios médicos contraindicaram por escrito.
- Dois laudos de nefrologistas alertavam que 12 horas sentado agravaria a dor, o quadro osteomuscular e representaria risco adicional para um paciente dialítico — documentação que o Estado considerou insuficiente.
- Uma segunda paciente, com insuficiência cardíaca e renal, só conseguiu o transporte aéreo após acionar a Justiça, revelando que o caso de Edimar não é exceção, mas padrão.
- Advogada especialista em Direito Médico aponta que o cancelamento da avaliação pode gerar ações por danos morais e pela teoria da 'perda de uma chance', caso um órgão compatível surja antes do reagendamento.
- Enquanto Edimar tenta nova data para setembro, seus exames vencem e a janela para o transplante se estreita — cada dia de espera é, literalmente, um dia a menos de possibilidade.
No Tocantins, pacientes com insuficiência renal aguardando transplante se veem presos entre a lógica da economia burocrática e a urgência biológica que não espera. Edimar Rodrigues, 59 anos, perdeu uma consulta pré-operatória essencial após o Estado negar passagem aérea recomendada por dois especialistas, oferecendo em seu lugar uma viagem de ônibus de mais de 12 horas contraindicada por escrito. O episódio ilumina uma tensão antiga e dolorosa: quando os protocolos institucionais se tornam obstáculos à sobrevivência, quem responde pelo tempo perdido?
Edimar Rodrigues da Silva tem 59 anos, mora em Palmas e faz hemodiálise três vezes por semana. Uma fratura vertebral e deformações discais tornam qualquer viagem longa uma experiência de dor aguda. Em agosto, ele tinha uma consulta pré-operatória marcada em Goiânia — avaliação essencial para manter sua posição na fila de transplante renal. A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins negou a passagem aérea e ofereceu ônibus. Edimar cancelou a consulta.
Dois médicos especialistas haviam documentado por escrito a contraindicação à viagem terrestre. A nefrologista que o acompanha em Palmas registrou que ele não suportava longos períodos sentado. O nefrologista da equipe de transplantes em Goiânia foi mais enfático: alertou para agravamento da dor, sofrimento físico, piora do quadro osteomuscular e risco adicional para um paciente dialítico. Ainda assim, o setor responsável da SES-TO concluiu que Edimar estava clinicamente estável.
Não é um caso isolado. Outra paciente com insuficiência cardíaca e renal enfrentou a mesma negativa inicial e precisou recorrer à Justiça para garantir o direito à viagem aérea. Para a advogada Érika Simara Souza, especialista em Direito Médico, o Estado desconsiderou laudos de especialistas para economizar de forma indevida — e o cancelamento da consulta de Edimar pode resultar em ações por danos morais e pela teoria jurídica da 'perda de uma chance'.
A SES-TO respondeu que segue critérios técnicos estabelecidos em resolução própria, que prevê o transporte rodoviário como modalidade preferencial, e que a documentação analisada não justificou o transporte aéreo. Deixou aberta a possibilidade de reavaliação com novos elementos clínicos. Enquanto isso, Edimar tenta reagendar para setembro. Ele já recebeu um rim antes, perdeu o órgão em 2024 e voltou para a fila. Se um órgão compatível surgir antes da nova consulta — ou se seus exames vencerem —, a chance pode se perder. 'Dez minutos de diálise já fazem muita falta', disse ele, descrevendo com precisão a fragilidade de quem depende de máquinas para continuar vivo.
Edimar Rodrigues da Silva, 59 anos, morador de Palmas, enfrenta uma situação que resume um conflito crescente entre a burocracia estatal e a urgência médica. Três vezes por semana ele se submete a sessões de hemodiálise. Uma lesão grave na coluna — fratura vertebral e deformações discais — o deixa em dor aguda quando permanece sentado por longos períodos. Em agosto, ele tinha uma consulta pré-operatória marcada para o dia 12, no Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi em Goiânia, avaliação essencial para manter sua posição na fila de transplante renal. Mas não conseguiu chegar lá.
A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins negou seu pedido de passagem aérea. Em seu lugar, ofereceu apenas passagens de ônibus — uma viagem de mais de 12 horas que seus próprios médicos haviam contraindicado por escrito. Edimar apresentou dois laudos médicos documentando sua condição. A nefrologista Carize Rezende, da Fundação Pró-Rim de Palmas, registrou em 5 de agosto que o paciente não tinha condições de permanecer sentado por longos períodos. O nefrologista Agenor Gonçalves de Lacerda, da equipe de transplantes do hospital em Goiânia, foi além: alertou que uma viagem terrestre de longa duração implicaria agravamento importante da dor, sofrimento físico e potencial piora do quadro osteomuscular, além de risco adicional para um paciente dialítico. Mesmo assim, o setor de Tratamento Fora do Domicílio da SES-TO argumentou que Edimar estava clinicamente estável.
Ele cancelou a consulta. Agora tenta reagendar para setembro, mas vive com uma ansiedade que vai além da dor física. Edimar já passou por um transplante antes — recebeu um rim em algum momento após iniciar a diálise em 2018 — mas perdeu o órgão em 2024 após complicações. Voltou para a fila de espera de Goiânia. Se seus exames vencerem antes de conseguir uma nova data, e se um órgão compatível surgir nesse intervalo, ele perderá a chance. "Dez minutos de diálise já fazem muita falta", disse ao g1, descrevendo a fragilidade de quem depende de máquinas para viver.
Edimar não é caso isolado. Outra paciente em tratamento na capital — que preferiu não ser identificada — também enfrentou negativa inicial de transporte aéreo. Ela tem insuficiência cardíaca e renal, além de retenção severa de líquidos. A SES-TO alegou que ela não estava inserida no Sistema de Regulação e que seu médico não era da área de terapia renal substitutiva. Diante do risco de perder a vaga agendada, ela precisou acionar a Justiça para conseguir o direito à viagem aérea.
Para Érika Simara Souza, advogada especialista em Direito Médico e da Saúde, a negativa do Estado desconsiderou a condição clínica dos pacientes, comprovada por especialistas. "Se os laudos e exames apontam claramente que o paciente não tem condições de suportar 12 horas ou mais sentado por causa de uma doença degenerativa na coluna associada ao quadro renal, o Estado está querendo economizar de forma indevida", avaliou. Ela aponta que o cancelamento da avaliação pré-operatória de Edimar pode abrir margem para ações judiciais por danos morais e pela aplicação da teoria jurídica da "perda de uma chance" — um conceito que reconhece o prejuízo causado quando alguém é impedido de tentar algo que poderia ter resultado em benefício.
A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins respondeu que cada solicitação é avaliada individualmente segundo critérios técnicos estabelecidos pela Resolução CIB/TO nº 159/2021, que prevê o transporte rodoviário como modalidade preferencial. A SES argumentou que a documentação analisada por sua equipe médica reguladora não apresentou elementos que caracterizassem contraindicação ao transporte rodoviário ou necessidade clínica de transporte aéreo. Deixou aberta a possibilidade de reavaliação caso novos elementos clínicos sejam apresentados.
O impasse revela uma tensão fundamental: de um lado, protocolos de economia de recursos públicos; do outro, a realidade de pacientes cuja sobrevivência depende de decisões rápidas e adequadas. Para Edimar, cada dia que passa é um dia a menos na validade de seus exames, um dia a mais longe da possibilidade de um transplante que poderia devolver-lhe uma vida menos dependente de máquinas.
Citas Notables
Se os laudos e exames apontam claramente que o paciente não tem condições de suportar 12 horas ou mais sentado por causa de uma doença degenerativa na coluna associada ao quadro renal, o Estado está querendo economizar de forma indevida— Érika Simara Souza, advogada especialista em Direito Médico e da Saúde
O paciente não apresenta condições de realizar deslocamento por via terrestre em trajetos de longa duração, pois tal modalidade implica agravamento importante da dor, sofrimento físico e potencial piora do quadro osteomuscular— Agenor Gonçalves de Lacerda, nefrologista da equipe de transplantes do HGG em Goiânia