Pacientes renais no TO enfrentam negativas de passagens aéreas apesar de laudos médicos

Pacientes com insuficiência renal aguardando transplante enfrentam risco de perder vagas e agravamento de condições de saúde devido à negativa de transporte adequado.
Dez minutos de diálise já fazem muita falta
Edimar Rodrigues descreve a fragilidade de quem depende de máquinas para viver e o risco de perder a vaga de transplante.
Mark

Por que essa negativa de passagem aérea importa tanto? Não é apenas uma questão de conforto?

Mimi

Não. Para um paciente dialítico, perder uma sessão de diálise é perigoso. E para alguém na fila de transplante, perder uma avaliação pré-operatória pode significar perder a chance de um órgão compatível que pode nunca mais aparecer.

Mark

Mas a Secretaria disse que ele estava clinicamente estável. Como isso se encaixa com os laudos médicos que contraindicam a viagem?

Mimi

Aí está o conflito. Os médicos que o acompanham — que conhecem seu histórico, sua coluna, sua dependência de diálise — disseram claramente que 12 horas sentado em um ônibus pioraria seu quadro. A SES-TO leu a mesma documentação e chegou a conclusão oposta.

Mark

Ele já tinha recebido um transplante antes?

Mimi

Sim. Recebeu um rim em 2018, mas perdeu o órgão em 2024 após complicações. Voltou para a fila. Então essa avaliação que perdeu era uma segunda chance, literalmente.

Mark

E a outra paciente que mencionou — ela conseguiu viajar?

Mimi

Conseguiu, mas precisou ir à Justiça. Teve que processar o Estado para ter o direito que os médicos dela já tinham recomendado.

Mark

Isso não deveria ser automático? Se dois médicos especializados dizem que é necessário...

Mimi

Deveria. Mas há um sistema de regulação que filtra esses pedidos, e nesse caso, o filtro funcionou contra o paciente. A advogada que comentou o caso fala em "economia indevida" — o Estado economizando em passagens aéreas às custas da saúde de quem já está vulnerável.

Mark

O que acontece agora com Edimar?

Mimi

Ele tenta reagendar a consulta para setembro. Mas se seus exames vencerem antes disso, e se um rim compatível surgir, ele não poderá fazer o transplante. É exatamente o cenário que a lei chama de "perda de uma chance".

  • Edimar Rodrigues, dialítico com fratura vertebral grave, perdeu consulta pré-operatória em Goiânia porque a SES-TO negou passagem aérea e ofereceu ônibus — viagem que seus próprios médicos contraindicaram por escrito.
  • Dois laudos de nefrologistas alertavam que 12 horas sentado agravaria a dor, o quadro osteomuscular e representaria risco adicional para um paciente dialítico — documentação que o Estado considerou insuficiente.
  • Uma segunda paciente, com insuficiência cardíaca e renal, só conseguiu o transporte aéreo após acionar a Justiça, revelando que o caso de Edimar não é exceção, mas padrão.
  • Advogada especialista em Direito Médico aponta que o cancelamento da avaliação pode gerar ações por danos morais e pela teoria da 'perda de uma chance', caso um órgão compatível surja antes do reagendamento.
  • Enquanto Edimar tenta nova data para setembro, seus exames vencem e a janela para o transplante se estreita — cada dia de espera é, literalmente, um dia a menos de possibilidade.

No Tocantins, pacientes com insuficiência renal aguardando transplante se veem presos entre a lógica da economia burocrática e a urgência biológica que não espera. Edimar Rodrigues, 59 anos, perdeu uma consulta pré-operatória essencial após o Estado negar passagem aérea recomendada por dois especialistas, oferecendo em seu lugar uma viagem de ônibus de mais de 12 horas contraindicada por escrito. O episódio ilumina uma tensão antiga e dolorosa: quando os protocolos institucionais se tornam obstáculos à sobrevivência, quem responde pelo tempo perdido?

Edimar Rodrigues da Silva tem 59 anos, mora em Palmas e faz hemodiálise três vezes por semana. Uma fratura vertebral e deformações discais tornam qualquer viagem longa uma experiência de dor aguda. Em agosto, ele tinha uma consulta pré-operatória marcada em Goiânia — avaliação essencial para manter sua posição na fila de transplante renal. A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins negou a passagem aérea e ofereceu ônibus. Edimar cancelou a consulta.

Dois médicos especialistas haviam documentado por escrito a contraindicação à viagem terrestre. A nefrologista que o acompanha em Palmas registrou que ele não suportava longos períodos sentado. O nefrologista da equipe de transplantes em Goiânia foi mais enfático: alertou para agravamento da dor, sofrimento físico, piora do quadro osteomuscular e risco adicional para um paciente dialítico. Ainda assim, o setor responsável da SES-TO concluiu que Edimar estava clinicamente estável.

Não é um caso isolado. Outra paciente com insuficiência cardíaca e renal enfrentou a mesma negativa inicial e precisou recorrer à Justiça para garantir o direito à viagem aérea. Para a advogada Érika Simara Souza, especialista em Direito Médico, o Estado desconsiderou laudos de especialistas para economizar de forma indevida — e o cancelamento da consulta de Edimar pode resultar em ações por danos morais e pela teoria jurídica da 'perda de uma chance'.

A SES-TO respondeu que segue critérios técnicos estabelecidos em resolução própria, que prevê o transporte rodoviário como modalidade preferencial, e que a documentação analisada não justificou o transporte aéreo. Deixou aberta a possibilidade de reavaliação com novos elementos clínicos. Enquanto isso, Edimar tenta reagendar para setembro. Ele já recebeu um rim antes, perdeu o órgão em 2024 e voltou para a fila. Se um órgão compatível surgir antes da nova consulta — ou se seus exames vencerem —, a chance pode se perder. 'Dez minutos de diálise já fazem muita falta', disse ele, descrevendo com precisão a fragilidade de quem depende de máquinas para continuar vivo.

Edimar Rodrigues da Silva, 59 anos, morador de Palmas, enfrenta uma situação que resume um conflito crescente entre a burocracia estatal e a urgência médica. Três vezes por semana ele se submete a sessões de hemodiálise. Uma lesão grave na coluna — fratura vertebral e deformações discais — o deixa em dor aguda quando permanece sentado por longos períodos. Em agosto, ele tinha uma consulta pré-operatória marcada para o dia 12, no Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi em Goiânia, avaliação essencial para manter sua posição na fila de transplante renal. Mas não conseguiu chegar lá.

A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins negou seu pedido de passagem aérea. Em seu lugar, ofereceu apenas passagens de ônibus — uma viagem de mais de 12 horas que seus próprios médicos haviam contraindicado por escrito. Edimar apresentou dois laudos médicos documentando sua condição. A nefrologista Carize Rezende, da Fundação Pró-Rim de Palmas, registrou em 5 de agosto que o paciente não tinha condições de permanecer sentado por longos períodos. O nefrologista Agenor Gonçalves de Lacerda, da equipe de transplantes do hospital em Goiânia, foi além: alertou que uma viagem terrestre de longa duração implicaria agravamento importante da dor, sofrimento físico e potencial piora do quadro osteomuscular, além de risco adicional para um paciente dialítico. Mesmo assim, o setor de Tratamento Fora do Domicílio da SES-TO argumentou que Edimar estava clinicamente estável.

Ele cancelou a consulta. Agora tenta reagendar para setembro, mas vive com uma ansiedade que vai além da dor física. Edimar já passou por um transplante antes — recebeu um rim em algum momento após iniciar a diálise em 2018 — mas perdeu o órgão em 2024 após complicações. Voltou para a fila de espera de Goiânia. Se seus exames vencerem antes de conseguir uma nova data, e se um órgão compatível surgir nesse intervalo, ele perderá a chance. "Dez minutos de diálise já fazem muita falta", disse ao g1, descrevendo a fragilidade de quem depende de máquinas para viver.

Edimar não é caso isolado. Outra paciente em tratamento na capital — que preferiu não ser identificada — também enfrentou negativa inicial de transporte aéreo. Ela tem insuficiência cardíaca e renal, além de retenção severa de líquidos. A SES-TO alegou que ela não estava inserida no Sistema de Regulação e que seu médico não era da área de terapia renal substitutiva. Diante do risco de perder a vaga agendada, ela precisou acionar a Justiça para conseguir o direito à viagem aérea.

Para Érika Simara Souza, advogada especialista em Direito Médico e da Saúde, a negativa do Estado desconsiderou a condição clínica dos pacientes, comprovada por especialistas. "Se os laudos e exames apontam claramente que o paciente não tem condições de suportar 12 horas ou mais sentado por causa de uma doença degenerativa na coluna associada ao quadro renal, o Estado está querendo economizar de forma indevida", avaliou. Ela aponta que o cancelamento da avaliação pré-operatória de Edimar pode abrir margem para ações judiciais por danos morais e pela aplicação da teoria jurídica da "perda de uma chance" — um conceito que reconhece o prejuízo causado quando alguém é impedido de tentar algo que poderia ter resultado em benefício.

A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins respondeu que cada solicitação é avaliada individualmente segundo critérios técnicos estabelecidos pela Resolução CIB/TO nº 159/2021, que prevê o transporte rodoviário como modalidade preferencial. A SES argumentou que a documentação analisada por sua equipe médica reguladora não apresentou elementos que caracterizassem contraindicação ao transporte rodoviário ou necessidade clínica de transporte aéreo. Deixou aberta a possibilidade de reavaliação caso novos elementos clínicos sejam apresentados.

O impasse revela uma tensão fundamental: de um lado, protocolos de economia de recursos públicos; do outro, a realidade de pacientes cuja sobrevivência depende de decisões rápidas e adequadas. Para Edimar, cada dia que passa é um dia a menos na validade de seus exames, um dia a mais longe da possibilidade de um transplante que poderia devolver-lhe uma vida menos dependente de máquinas.

Se os laudos e exames apontam claramente que o paciente não tem condições de suportar 12 horas ou mais sentado por causa de uma doença degenerativa na coluna associada ao quadro renal, o Estado está querendo economizar de forma indevida
— Érika Simara Souza, advogada especialista em Direito Médico e da Saúde
O paciente não apresenta condições de realizar deslocamento por via terrestre em trajetos de longa duração, pois tal modalidade implica agravamento importante da dor, sofrimento físico e potencial piora do quadro osteomuscular
— Agenor Gonçalves de Lacerda, nefrologista da equipe de transplantes do HGG em Goiânia
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