Dia D mobiliza Fortaleza com multivacinação e mutirão bucal em 264 locais

Vacinar, proteger e salvar vidas
O lema do Ministério da Saúde para a campanha nacional de imunização que mobilizou Fortaleza.
Mark

Por que um mutirão no fim de semana faz tanta diferença se os postos funcionam durante a semana?

Mimi

Porque a vida das pessoas não funciona nos horários comerciais. Quem trabalha, quem cuida de filhos, quem não consegue sair do bairro durante os dias úteis — essas pessoas simplesmente não vão. O mutirão quebra essa barreira. Quando você oferece atendimento no sábado, com divulgação, com animação, com tudo funcionando, você traz gente que nunca entraria em um posto.

Mark

A secretária falou em transformar prevenção em "cultura". O que isso significa na prática?

Mimi

Significa que não é só sobre vacinar naquele dia. É sobre criar o hábito, a conversa, a normalidade de cuidar da saúde preventivamente. Quando você faz um mutirão, as pessoas falam sobre isso, compartilham no WhatsApp, levam os filhos, veem que funciona. Aí na próxima vez, não é mais um evento — é só o que a gente faz.

Mark

Mas por que o Brasil está tão preocupado com sarampo e poliomielite agora? Essas doenças não foram eliminadas?

Mimi

Foram eliminadas aqui, sim. Mas não no mundo todo. México, Estados Unidos, Canadá têm surtos ativos agora. É como uma porta aberta. Se a gente baixar a guarda, se as taxas de vacinação caírem, o vírus entra. A certificação de território livre do sarampo é uma conquista que pode desaparecer em meses se não cuidarmos.

Mark

E a saúde bucal? Por que colocaram dentista dentro de um mutirão de vacinação?

Mimi

Porque prevenção é integrada. Você não cuida só da imunização ou só dos dentes. Uma infecção bucal grave pode virar endocardite bacteriana — uma doença do coração. E muita gente adia consulta de dentista porque é caro, demora, não consegue sair do trabalho. Quando você oferece tudo junto, no fim de semana, com fila rápida, as pessoas vêm.

Mark

A Amanda estava grávida e conseguiu resolver em menos de uma semana. Isso é exceção ou regra?

Mimi

É o que deveria ser regra. Ela foi rápida porque estava grávida, sim, mas a estrutura estava ali para todos. Fabiana, que veio de Caucaia, conseguiu resolver a consulta da mãe em dias também. Quando você tem 3 mil profissionais em 264 pontos, a máquina funciona. O problema é que isso só acontece uma vez por mês, ou menos.

Mark

Qual é o maior desafio agora?

Mimi

Manter as pessoas vacinadas com as vacinas que exigem múltiplas doses. É fácil tomar uma dose, mas voltar três vezes para completar o esquema? Aí as pessoas desistem. E aí a proteção cai. É por isso que o mutirão é importante — você traz a pessoa uma vez, tira as dúvidas, agenda as próximas doses ali mesmo.

  • Com surtos ativos de sarampo e poliomielite no México, EUA e Canadá, o Brasil corre contra o tempo para manter sua certificação de território livre dessas doenças.
  • A queda na adesão a vacinas de múltiplas doses preocupa autoridades estaduais e federais, que veem no absenteísmo um risco silencioso à imunidade coletiva.
  • Três mil profissionais mobilizados em um único sábado revelam a escala do esforço necessário para alcançar quem não busca o sistema de saúde nos dias úteis.
  • A integração entre vacinação humana, mutirão odontológico e imunização antirrábica sinaliza uma aposta em prevenção ampla — não apenas pontual.
  • Famílias chegaram antes do amanhecer, grávidas foram atendidas em menos de uma semana, e crianças saíram protegidas: o mutirão funcionou onde a rotina havia falhado.

No último sábado, Fortaleza transformou suas ruas e unidades de saúde em um grande ato coletivo de prevenção: três mil profissionais atenderam em 264 pontos da cidade, unindo vacinação humana, saúde bucal e imunização animal em um único movimento. O Dia D não foi apenas uma operação logística — foi um convite à cultura do cuidado, dirigido a uma população que, entre a rotina e o adiamento, muitas vezes deixa a saúde para depois. Ao fundo, o alerta vindo de Brasília lembra que doenças já eliminadas no Brasil rondam as fronteiras, e que cada dose aplicada é também uma fronteira defendida.

No sábado, 22 de agosto, Fortaleza se transformou em um grande canteiro de prevenção. Desde cedo, filas se formaram nas unidades de saúde da cidade, onde três mil profissionais aguardavam em 264 pontos de atendimento — entre postos convencionais, unidades de referência e espaços adaptados como os Vapt Vupt do Papicu e da Parangaba. O objetivo era múltiplo: atualizar cartões de vacinação de crianças e adolescentes, oferecer reforços para adultos, realizar um mutirão de saúde bucal e vacinar animais de estimação contra a raiva.

A secretária municipal de Saúde, Riane Azevedo, explicou a lógica da ação integrada: unir o cuidado humano, animal e odontológico em um único movimento. Para ela, o grande desafio não é apenas suprir uma demanda reprimida, mas transformar a prevenção em hábito. Os mutirões alcançam quem adia, quem se acomoda — e o absenteísmo cai consideravelmente nesses dias. A meta de vacinar 560 mil animais domésticos até o fim do ano ilustra a ambição do projeto.

No nível estadual, a secretária Tânia Mara Coelho celebrou avanços recentes: a vacina pneumocócica 20-valente, antes cara e inacessível, foi incorporada ao SUS, assim como o imunizante contra o vírus sincicial respiratório. As taxas gerais de vacinação já superam 90%, mas a adesão às vacinas de múltiplas doses ainda preocupa.

Em Brasília, o tom era de alerta. O diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde advertiu sobre o risco iminente de reintrodução de poliomielite e sarampo — doenças com surtos ativos em países vizinhos e no hemisfério norte. O Brasil mantém a certificação de território livre do sarampo, mas a conquista exige vigilância constante e carteiras de vacinação em dia.

Na ponta do atendimento, as histórias contaram o que os números não alcançam. Amanda Paulino, grávida de três meses, foi atendida para um procedimento cirúrgico na gengiva em menos de uma semana — um caminho que normalmente levaria meses. Fabiana Garcez veio de Caucaia acompanhar a mãe, agendada na terça e atendida na sexta. E João Heitor, 7 anos, saiu da unidade de saúde sem ter chorado e, segundo ele mesmo, agora protegido contra doenças. Para sua mãe Gilda, foi o melhor dia da semana.

No sábado, 22 de agosto, Fortaleza acordou para um dia de movimento intenso nas unidades de saúde. Desde cedo, filas se formaram na Unidade de Atenção Primária à Saúde Dr. José Iraguassu Teixeira, no bairro Floresta. O Zé Gotinha e a Maria Gotinha circulavam entre as pessoas, enquanto agentes de saúde conversavam sobre arboviroses. Era o Dia D — uma mobilização nacional de imunização que transformou a capital cearense em um grande canteiro de prevenção.

A operação foi ambiciosa. Três mil profissionais de saúde se espalharam por 264 pontos de atendimento espalhados pela cidade. Além dos 134 postos de saúde convencionais, a rede se expandiu para espaços menos óbvios: os Vapt Vupt do Papicu e da Parangaba funcionaram como salas de vacina, assim como o Centro Integrado de Diabetes e Hipertensão e o Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais no Hospital Geral de Fortaleza. O objetivo era claro e múltiplo — atualizar cartões de vacinação de crianças e adolescentes menores de 15 anos, oferecer doses de reforço para adultos, realizar um mutirão de saúde bucal e vacinar animais de estimação contra a raiva.

Riane Azevedo, secretária municipal da Saúde, explicou a lógica por trás dessa abordagem integrada. O mutirão buscava unir três dimensões do cuidado preventivo: o humano, o animal e o odontológico. As ações de saúde bucal, em particular, tinham como foco conscientizar a população sobre complicações graves como endocardite bacteriana e infecções orais. Azevedo mencionou uma meta ambiciosa para o final do ano: vacinar 560 mil animais domésticos. Mas havia algo mais profundo em sua fala. Ela reconheceu que o grande desafio não era apenas atender uma demanda reprimida, mas transformar a prevenção em cultura. Os mutirões funcionam, segundo ela, porque trazem à tona essas ações, despertam pessoas que estão acomodadas ou deixando para depois. O absenteísmo cai consideravelmente nesses dias.

No nível estadual, Tânia Mara Coelho, secretária da Saúde do Ceará, enfatizou avanços recentes no Programa Nacional de Imunização. A vacina pneumocócica 20-valente foi incorporada ao SUS — um imunizante que reduz mortalidade por pneumonia em idosos e crianças pequenas. Até dois anos atrás, essa vacina era cara e tinha de ser comprada. Agora está disponível no sistema público. Coelho também destacou a recente inclusão da vacina contra o vírus sincicial respiratório. Desde o período pós-pandemia, estado e municípios trabalham juntos para elevar as taxas de imunização. A meta geral já supera 90%, mas o grande desafio atual é combater a queda de adesão nas vacinas que exigem múltiplas doses.

Em Brasília, o tom era de alerta. Edenilo Baltazar Barreira Filho, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde, falou sobre o risco iminente de reintrodução de doenças que o Brasil havia eliminado. Poliomielite e sarampo estão em risco, disse ele. México, Estados Unidos e Canadá enfrentam surtos ativos com milhares de casos. O Brasil conseguiu evitar a entrada desses vírus até agora e mantém a certificação de território livre do sarampo — uma conquista que as autoridades querem preservar. Barreira reforçou que 20 vacinas estão disponíveis para serem colocadas em dia nas carteiras de vacinação, protegendo contra doenças graves. O lema é direto: vacinar, proteger e salvar vidas.

Na ponta do atendimento odontológico, Edson Hilan, coordenador-geral de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, revelou que a maior demanda continua sendo restaurações decorrentes de cárie — uma das doenças crônicas de maior incidência no mundo. A estrutura pública atua na prevenção e na restauração básica, encaminhando apenas os casos mais complexos para tratamento de canal especializado. As histórias de quem passou pelos consultórios naquele sábado ilustram como o mutirão funcionou na prática. Amanda Paulino de Souza, 32 anos, grávida de três meses e moradora do Jardim Guanabara, chegou à Uaps Floresta antes das 7h para um procedimento cirúrgico na gengiva. Ela havia sido avisada por mensagem do posto. O que normalmente levaria semanas — passar pelo dentista, ser encaminhada para o CEO, depois para o posto, e finalmente para a unidade especializada — aconteceu em menos de uma semana. Fabiana Garcez, 37, veio de Caucaia acompanhando a mãe Goretti do Nascimento, 62, que precisava de consulta com estomatologista para tratar dores na gengiva. A avó havia pedido agendamento na terça-feira e na sexta já tinha saído. Famílias inteiras aproveitaram o fim de semana para colocar a vacinação em dia — informação que chegou por grupos de WhatsApp das escolas. Paulo Sérgio e Gilda Ferreira Brandão levaram os filhos João Heitor, 7, e Paulo Sérgio, 6, para tomar as doses pendentes. Para Gilda, foi o melhor dia da semana. João Heitor, depois de receber a vacina, celebrou sua coragem: nem chorou, e agora estava protegido contra doenças.

Não é que a gente tenha uma demanda reprimida, é que a gente precisa trazer isso como uma cultura e trazer isso para o dia a dia
— Riane Azevedo, secretária municipal da Saúde de Fortaleza
O Brasil ainda tem a certificação de livre do sarampo e a gente quer manter essa certificação
— Edenilo Baltazar Barreira Filho, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde
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