Após décadas de hostilidade e meses de uma intervenção militar que redesenhou o mapa político da América do Sul, Venezuela e Estados Unidos se preparam para sentar à mesma mesa. O encontro entre Delcy Rodríguez e Donald Trump, às margens da Assembleia Geral da ONU em Nova York, não é apenas um gesto diplomático — é o reconhecimento público de uma nova ordem, selada em petróleo e pragmatismo, onde antigas acusações de imperialismo cedem espaço a acordos que ambos os lados chamam de vantajosos.
Delcy Rodríguez se reunirá com Trump em gesto inédito de aproximação entre Venezuela e EUA
É um presente da Venezuela ao povo dos EUA
Por que esse encontro importa tanto? Parece ser apenas uma reunião entre dois líderes.
Porque há dois anos, talvez um, isso seria impossível. A Venezuela e os EUA eram inimigos declarados. Agora estão negociando acesso a petróleo e cooperando em operações militares.
Mas precisamos ser claros: isso não é uma mudança de coração. É uma mudança de poder. Maduro caiu. Um novo governo chegou. Trump viu uma oportunidade.
Exatamente. E o novo governo venezuelano também viu uma oportunidade — legitimidade internacional, reconhecimento, acesso a recursos.
E quanto aos 65 bilhões de barris? Isso é uma venda, uma concessão, ou algo no meio?
Trump diz que é um "presente". Mas a Venezuela está entregando acesso a um quarto de suas reservas de petróleo. A palavra "presente" é retórica.
O governo de Delcy provavelmente vê isso como o preço de estar no lado vencedor. Maduro perdeu. Eles precisam de legitimidade rápido.
E o discurso dela na ONU? Ela vai criticar os EUA como fez em 2019?
Essa é a pergunta. Em 2019, ela chamou as sanções de "terrorismo de Estado". Agora está se reunindo com Trump. Não sabemos o que ela dirá.
Provavelmente algo bem diferente. Esse é o ponto — tudo mudou em meses.
Então isso é uma vitória para Trump?
Depende de como você mede. Ele ganhou acesso a petróleo. Mas também legitimou um novo governo que ainda está consolidando poder. Há riscos em ambos os lados.
Il Polso
- A reunião entre Trump e Delcy na terça-feira representa o primeiro contato de alto nível entre os dois governos desde que uma invasão militar americana derrubou Maduro no início de 2026, tornando o impensável em protocolo oficial.
- O acordo petroleiro — que concede aos EUA acesso privilegiado a mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas — expõe a assimetria da aproximação: Caracas entrega recursos estratégicos em troca de legitimidade internacional.
- A retirada da Venezuela da lista americana de países que descumprem compromissos no combate ao narcotráfico sinaliza que Washington está disposto a reescrever sua narrativa sobre Caracas, mesmo que Trump ainda chame Maduro de 'ex-ditador ilegítimo'.
- Delcy retorna à tribuna da ONU oito anos depois, mas em posição radicalmente invertida: em 2019, denunciava sanções como 'terrorismo de Estado'; agora representa um governo que aceitou condições que o regime anterior teria chamado de capitulação.
- A semana multilateral de Trump — com encontros que incluem Reino Unido, Japão e países do Golfo — coloca a Venezuela no centro de uma agenda global, sinalizando que Caracas voltou a ser peça relevante no tabuleiro diplomático americano.
Após décadas de hostilidade e meses de uma intervenção militar que redesenhou o mapa político da América do Sul, Venezuela e Estados Unidos se preparam para sentar à mesma mesa. O encontro entre Delcy Rodríguez e Donald Trump, às margens da Assembleia Geral da ONU em Nova York, não é apenas um gesto diplomático — é o reconhecimento público de uma nova ordem, selada em petróleo e pragmatismo, onde antigas acusações de imperialismo cedem espaço a acordos que ambos os lados chamam de vantajosos.
Delcy Rodríguez viajará a Nova York na próxima semana para um encontro que, há poucos meses, seria considerado impossível. Na terça-feira, ela se reunirá com Donald Trump às margens da Assembleia Geral das Nações Unidas — confirmação que veio do próprio embaixador americano na ONU, Mike Walsh. O encontro marca uma virada histórica entre dois países que, por anos, se trataram como adversários irreconciliáveis.
A mudança de cenário tem raízes concretas. Desde a queda de Maduro no início de 2026, precipitada por uma intervenção militar americana, os governos de Caracas e Washington passaram a demonstrar uma sintonia inédita. O sinal mais visível dessa aproximação veio em 28 de agosto, quando Trump anunciou que os EUA teriam acesso privilegiado a mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas. Ao responder a críticos, Trump resumiu sua visão com uma frase direta: 'É um presente da Venezuela ao povo dos EUA.'
Outro gesto significativo ocorreu quando Trump removeu a Venezuela da lista de países que descumprem compromissos no combate ao narcotráfico, citando 'avanços positivos' do governo de Delcy e a cooperação conjunta contra cartéis — incluindo a neutralização de Niño Guerrero, líder do Trem de Aragua. Mesmo assim, Trump continuou a se referir a Maduro como 'ex-ditador ilegítimo e narcotraficante'.
O discurso de Delcy na Assembleia Geral carrega um peso particular. Em 2019, como vice-presidente, ela havia acusado Trump de estender suas 'garras imperiais' e denunciado sanções americanas como 'terrorismo de Estado' — enquanto delegações deixavam o plenário em protesto. Agora, ela retorna como chefe de Estado de um governo que aceitou termos que o regime anterior teria chamado de capitulação. Será a primeira participação de um líder venezuelano na tribuna da ONU desde 2018.
No mesmo dia do encontro com Delcy, Trump também se reunirá com o primeiro-ministro britânico Andy Burnham, com a primeira-ministra japonesa e presidirá uma reunião com líderes do Golfo Pérsico — uma agenda que reflete o lugar central que a Venezuela agora ocupa na diplomacia americana.
Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, viajará a Nova York na próxima semana para um encontro que teria sido impensável há poucos meses. Na terça-feira, ela se reunirá com Donald Trump à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas — um encontro confirmado na sexta-feira pelo embaixador americano na ONU, Mike Walsh. A reunião representa um ponto de virada nas relações entre dois países que, durante anos, se trataram como adversários irreconciliáveis.
Esta será a primeira vez que um chefe de Estado venezuelano participa da Assembleia Geral desde 2018, quando Nicolás Maduro discursou na tribuna. A mudança não é apenas simbólica. Desde a queda de Maduro no início deste ano — precipitada por uma invasão militar americana — os governos de Caracas e Washington começaram a demonstrar uma sintonia que seria inimaginável sob a administração anterior. O que estava em jogo era nada menos que a reconfiguração do poder na região e o acesso a recursos que ambos os países desejavam.
O acordo sobre petróleo é o sinal mais concreto dessa aproximação. Em 28 de agosto, Trump anunciou que os Estados Unidos teriam acesso privilegiado a mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas — quase um quarto do total do país. Quando críticos questionaram o pacto, Trump respondeu com uma frase que capturava sua visão da transação: "É um presente da Venezuela ao povo dos EUA". Segundo ele, o acordo não custaria um dólar aos americanos e serviria para reabastecer as reservas estratégicas dos EUA, que estão no nível mais baixo em quatro décadas.
Outro gesto de aproximação veio na quarta-feira, quando Trump removeu a Venezuela da lista de países que descumprem compromissos no combate ao narcotráfico. O presidente atribuiu a decisão aos "avanços positivos" do governo de Delcy e elogiou a "crescente cooperação" entre os dois países em operações contra cartéis, incluindo a ação conjunta que neutralizou Niño Guerrero, líder do Trem de Aragua. Mesmo ao reconhecer essa nova realidade, Trump continuou a se referir a Maduro como "ex-ditador ilegítimo e narcotraficante".
O discurso que Delcy fará na Assembleia Geral será particularmente significativo à luz de sua história diplomática. Quando esteve na ONU em 2019 como vice-presidente, ela havia denunciado as sanções americanas como "terrorismo de Estado" e acusado Trump de estender suas "garras imperiais" contra Cuba. Naquela ocasião, afirmou que povos como o venezuelano não tinham acesso a máquinas de comunicação a serviço do "hegemon" mundial. Várias delegações deixaram o plenário em protesto durante sua fala.
Agora, oito anos depois da última participação de um chefe de Estado venezuelano na tribuna da ONU, Delcy retorna em circunstâncias radicalmente diferentes. Ela já havia participado da Assembleia em 2016, quando era chanceler. Desta vez, porém, ela vem como representante de um governo que aceitou termos que o governo anterior teria considerado uma capitulação.
No mesmo dia do encontro com Delcy, Trump fará seu próprio discurso na Assembleia Geral e participará de outras reuniões bilaterais. Ele se encontrará com o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, com a primeira-ministra japonesa, e presidirá uma reunião com líderes dos países do Golfo Pérsico. A agenda reflete a importância que Trump atribui a essa semana de diplomacia multilateral — e o lugar central que a Venezuela agora ocupa nela.
Citazioni salienti
É um presente da Venezuela ao povo dos EUA— Donald Trump, sobre o acordo de petróleo
Avanços positivos registrados no governo de Delcy justificam a remoção da Venezuela da lista de países que descumprem compromissos no combate ao narcotráfico— Donald Trump, em decreto