Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil, dois projetos de poder se preparam para uma batalha que vai além das urnas de outubro: enquanto bolsonaristas aguardam que Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição estadual, se engaje de vez na candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, o PT reconhece que sua aposta real não é o governo do estado, mas sim garantir a Lula uma vantagem decisiva no segundo turno nacional. O que se revela, por trás das campanhas estaduais, é a geometria de uma disputa presidencial que já começou a ser desenhada antes mesmo do primeiro voto ser contado.
PT e PL planejam segundo turno com Tarcísio reeleito e apenas disputa presidencial
Com a virada para o segundo turno, a prioridade será outra
Por que Tarcísio não está apoiando Flávio com mais força agora, se são do mesmo lado?
Ele tem uma eleição própria para vencer, e precisa manter o voto do centro-direita. Aparecer demais com Flávio pode afastar eleitores que votam nele para governador mas não querem bolsonarismo puro.
Mas a pesquisa mostra Tarcísio vinte pontos à frente. Isso não é margem suficiente para ele se arriscar?
Teoricamente sim, mas campanhas não funcionam só com números. Há o risco de surgirem novas ligações de Flávio com Daniel Vorcaro, e Tarcísio quer evitar isso.
E o PT, como está se preparando para perder a eleição estadual?
Não falam em derrota. Mas reconhecem que o segundo turno presidencial é o que importa. São Paulo tem 21% dos eleitores do país.
Então estão apostando que podem perder o estado e ganhar o país?
Exatamente. Aconteceu em 2006, 2010 e 2014. Mas é uma aposta arriscada.
Marina Silva e Simone Tebet vão fazer diferença?
Espera-se que sim. No segundo turno, sem se preocupar com reeleição ao Senado, podem fazer campanha presidencial pura e apontar riscos do bolsonarismo.
Mas Simone Tebet está fazendo campanha no centro, longe de Lula. Como ela "abraça" Lula no segundo turno sem parecer oportunista?
É uma tensão real. A campanha dela tem identidade visual diferente do PT. Mas o partido acredita que ela pode agregar segmentos que não votariam em Lula direto.
O Pulso
- Tarcísio de Freitas lidera com folga a corrida pelo governo de São Paulo, mas sua vitória esperada em 4 de outubro é apenas o ponto de partida para pressões muito maiores vindas do campo bolsonarista.
- Deputados e aliados de Flávio Bolsonaro aguardam que, livre de sua própria eleição, o governador abandone a cautela e embarque de vez na campanha presidencial — algo que até agora ele evitou com cuidado.
- Flávio Bolsonaro tentou remover um obstáculo ao declarar publicamente que não buscará reeleição se eleito presidente, sinalizando a Tarcísio que o caminho de 2030 estaria aberto para ele.
- O PT admite a derrota de Haddad no estado, mas mobiliza Lula, Marina Silva e Simone Tebet para transformar São Paulo em terreno fértil para o segundo turno presidencial.
- Com 21% do eleitorado nacional concentrado no estado, São Paulo se torna o campo de batalha decisivo — e ambos os lados já estão posicionados para o confronto que vem depois de outubro.
Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil, dois projetos de poder se preparam para uma batalha que vai além das urnas de outubro: enquanto bolsonaristas aguardam que Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição estadual, se engaje de vez na candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, o PT reconhece que sua aposta real não é o governo do estado, mas sim garantir a Lula uma vantagem decisiva no segundo turno nacional. O que se revela, por trás das campanhas estaduais, é a geometria de uma disputa presidencial que já começou a ser desenhada antes mesmo do primeiro voto ser contado.
Tarcísio de Freitas chega ao fim de sua campanha à reeleição vinte pontos à frente de Fernando Haddad nas pesquisas, e a votação de 4 de outubro parece uma formalidade. Mas a vitória estadual é apenas o prelúdio de uma disputa maior: bolsonaristas já planejam pressionar o governador a abraçar com força a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno nacional.
A lógica bolsonarista é simples — sem a própria eleição em jogo, Tarcísio estaria livre para se engajar sem o risco de afastar eleitores do centro-direita. Até agora, o governador compareceu a poucos atos ao lado de Flávio, sempre em eventos de terceiros, nunca em carreatas ou atos de campanha. Flávio até se mudou de Brasília para São Paulo em julho antecipando uma mudança nessa dinâmica, mas ainda aguarda sinais mais claros. Um deles pode ter chegado: dias antes de um julgamento delicado no STF, o senador gravou um vídeo declarando que não buscará reeleição se eleito presidente — uma mensagem lida por aliados de Tarcísio como endereçada diretamente ao governador, tentando remover o desincentivo de disputar a presidência em 2030.
Do outro lado, o PT se prepara para o cenário que já considera provável: a derrota de Haddad no primeiro turno estadual e a necessidade de concentrar tudo em Lula para o segundo turno presidencial. O partido sabe que São Paulo é incontornável — o estado reúne 21% dos eleitores do país, e o PT já demonstrou ser possível perder o governo estadual e ainda vencer a presidência, como ocorreu em 2006, 2010 e 2014.
A estratégia petista aposta em dois nomes para ampliar o alcance de Lula: Marina Silva, da Rede, alinhada ao presidente, e Simone Tebet, do PSB, que mira o centro e o agronegócio com discurso sobre o fim da polarização. Ambas mantêm identidade visual própria agora, mas a expectativa é que, resolvida a eleição estadual, possam abraçar Lula abertamente — como fizeram em 2022 após serem eliminadas no primeiro turno presidencial.
Lula já intensifica sua presença no estado, com comício em Guarulhos ao lado de Haddad e Alckmin, e mais atos planejados na Região Metropolitana, que concentra quase metade do eleitorado estadual. O que se desenha é um segundo turno presidencial em São Paulo muito mais duro do que o primeiro — e os dois campos já estão posicionados para essa batalha.
Tarcísio de Freitas chega ao final de sua campanha pela reeleição como governador de São Paulo em posição confortável. As pesquisas o colocam vinte pontos à frente de Fernando Haddad, seu principal concorrente, e a votação de 4 de outubro promete ser uma formalidade. Mas enquanto o governador se aproxima da vitória estadual, políticos bolsonaristas já traçam seus planos para o que vem depois — e esses planos envolvem pressionar Tarcísio a abraçar com muito mais força a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, caso a disputa nacional chegue a um segundo turno.
A estratégia bolsonarista é clara: uma vez que Tarcísio não precise mais se preocupar com sua própria eleição, ele estará livre para se engajar na campanha de Flávio sem o risco de afastar eleitores do centro-direita que votam nele para governador. Deputados bolsonaristas da Assembleia Legislativa de São Paulo reconhecem que o governador tem mantido distância da campanha presidencial até agora, comparecendo a poucos atos ao lado de Flávio. Quando aparecem juntos, é em eventos de terceiros — como a Festa do Peão de Barretos em agosto — e não em carreatas ou atos de campanha propriamente ditos. A mudança de Flávio de Brasília para São Paulo em julho, antes mesmo do início oficial da campanha em 16 de agosto, sinalizava a expectativa de que essa dinâmica mudaria. Mas o senador ainda aguarda sinais mais claros de Tarcísio.
Um desses sinais pode estar vindo. Na terça-feira anterior ao julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre as ligações de Flávio com Daniel Vorcaro, o senador gravou um vídeo para as redes sociais afirmando que não buscará reeleição caso vença a presidência. "Eu mesmo já apresentei um projeto pelo fim da reeleição. Não serei candidato à reeleição, porque assim só terei como compromisso consertar o país", disse Flávio. Para aliados de Tarcísio, a declaração foi endereçada ao governador — uma tentativa de remover um obstáculo importante para o engajamento dele. O possível voo presidencial de Tarcísio em 2030 é visto como um desincentivo para que ele se dedique à eleição de Flávio agora, já que teria direito à sua própria reeleição como presidente. Mas Flávio ainda precisa dar outros sinais nessa linha para convencer Tarcísio a embarcar de verdade na canoa bolsonarista.
Do outro lado, o PT se prepara para um cenário que reconhece como provável: a derrota de Haddad no primeiro turno e a necessidade de concentrar toda a energia em Lula para o segundo turno presidencial. O ex-ministro e candidato petista tem feito campanha focado em temas que preocupam os paulistas — segurança, falta d'água, educação — mas admite que dificilmente haverá segunda etapa para a disputa estadual. Ainda assim, o partido vê São Paulo como absolutamente essencial. O estado concentra 21% dos eleitores do país, e uma vitória de Lula em um eventual segundo turno passa necessariamente por um bom desempenho aqui. O PT só foi ao segundo turno na disputa estadual em 2002 e 2022, mas venceu eleições presidenciais em 2006, 2010 e 2014 — o que mostra que é possível perder o estado e ainda ganhar o país.
Para viabilizar essa estratégia, o PT conta com dois nomes que podem fazer diferença no segundo turno: Marina Silva, da Rede, que faz campanha alinhada a Lula, e Simone Tebet, do PSB, que mira no centro e no agronegócio com discurso sobre o fim da polarização. A campanha de Tebet é visualmente distante do PT, com identidade própria em materiais e redes sociais. Mas a expectativa petista é que, uma vez resolvida a eleição estadual, ambas possam "abraçar" mais Lula e apontar os riscos do bolsonarismo para o país — exatamente como fizeram em 2022, quando foram derrotadas na corrida presidencial no primeiro turno. Sem a preocupação de se reeleger para o Senado, elas terão liberdade para fazer campanha presidencial pura.
Lula já intensifica sua presença em São Paulo antes mesmo da votação de 4 de outubro. Fez comício com Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin em Guarulhos na sexta-feira, e sua campanha planeja mais atos na Região Metropolitana, que concentra quase 50% do eleitorado estadual. Haddad, por sua vez, poderá usar o intervalo entre os dois turnos para atacar a aliança Flávio-Tarcísio e mobilizar eleitores contra ela. O que se desenha é um segundo turno presidencial em São Paulo muito mais duro do que o primeiro — e ambos os lados já estão posicionados para essa batalha.
Citações Notáveis
Eu mesmo já apresentei um projeto pelo fim da reeleição. Não serei candidato à reeleição, porque assim só terei como compromisso consertar o país.— Flávio Bolsonaro, em vídeo publicado nas redes sociais