Pesquisas de intenção de voto não registram mudanças relevantes apesar da cobertura intensa sobre conflitos no Supremo Tribunal Federal. Ministro André Mendonça enfrenta investigações sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo banqueiro Daniel Vorcaro e operações do Banco Master.
Crise do STF interessa mais à imprensa que ao eleitorado, aponta Datafolha
Mendonça sabe que ganhou um debate na mídia sem ter razão
Se os números não se movem, por que toda essa cobertura? O que a imprensa está tentando fazer?
A imprensa está tentando construir narrativa onde os dados não sustentam movimento. Fatiam o eleitorado em categorias cada vez mais específicas para extrair histórias de impacto.
Mas espera — a cobertura pode estar certa sobre a importância institucional do conflito, mesmo que não mude votos. Não são a mesma coisa.
Então o que realmente tirou a vantagem de Lula?
Os vazamentos contra seu filho, oriundos de processos sob Mendonça. Um fato concreto, não uma construção editorial.
E quanto ao encontro entre Vorcaro e Mendonça em março? Isso está confirmado ou é uma acusação?
Está registrado em decisão de Flávio Dino. O que é confirmado é que Mendonça votou contra Dino logo depois.
Mas isso prova conflito de interesse?
Prova proximidade e uma mudança de voto. Conflito de interesse é uma conclusão legal que ainda não foi estabelecida.
O que é claro é que Mendonça está usando estratagemas retóricos para se defender — citando Schopenhauer para dizer que está sendo atacado pessoalmente.
E isso funciona?
Na mídia, parece que sim. Nos números, não.
The Pulse
- Datafolha: Lula 46%, Flávio 44% em segundo turno — sem alterações significativas
- Encontro entre Vorcaro e Mendonça em março de 2025; Mendonça votou contra Dino dias depois
- Mansão em Joá reservada para ministro Kassio Nunes Marques custou R$ 1,45 milhão na semana de Carnaval 2025
- Instituto Iter recebeu R$ 5 milhões de ex-parceiro de Vorcaro; Mendonça era sócio
Pesquisas de intenção de voto não registram mudanças relevantes apesar da cobertura intensa sobre conflitos no Supremo Tribunal Federal. Ministro André Mendonça enfrenta investigações sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo banqueiro Daniel Vorcaro e operações do Banco Master.
Análise argumenta que a crise do STF impacta mais a imprensa que eleitores. Datafolha mostra Lula com 46% e Flávio com 44% em segundo turno, sem alterações significativas.
As pesquisas de intenção de voto não se movem. Lula segue em 46%, Flávio em 44% em simulação de segundo turno — os números do Datafolha não registram alteração significativa apesar de meses de cobertura intensa sobre o que a imprensa chama de crise do Supremo Tribunal Federal. Outros institutos apontam a mesma estabilidade, com variações pequenas. E no entanto, certos setores da mídia continuam fatiando o eleitorado em categorias cada vez mais específicas — o eleitor de centro-esquerda não polarizado, o palmeirense que gosta de sorvete de uva — para extrair narrativas de movimento onde os números não mostram nenhum.
O que parece estar acontecendo é uma desconexão entre a intensidade do debate na imprensa e o impacto real nas decisões dos eleitores. O chamado escândalo do Supremo interessa muito a certa rodela de jornalistas e colunistas, mas os dados sugerem que o eleitorado, mesmo aquele que se identifica como não polarizado, não está sendo movido por essas narrativas. O que de fato tirou a vantagem mais confortável que Lula possuía foram os vazamentos contra seu filho, oriundos de processos sob a relatoria de André Mendonça — um fato concreto, não uma construção editorial.
Mendonça, de fato, virou um fator eleitoral. O PT parece ter acordado para o debate. Flávio havia lançado o mote "votar em Lula é votar em Alexandre"; Lula respondeu ontem com "votar em Flávio é votar em Vorcaro". O que é notável é que a sessão do Supremo em questão não contou com ajuda do Planalto — não havia como. Todos os veículos de imprensa noticiaram que a expectativa era a abertura de um processo contra Moraes, embora isso nem estivesse na pauta distribuída. O embate se deu dentro da própria Casa. Um lado atuou de acordo com as regras; o outro, encarnado por Edson Fachin, achou que poderia vencer com a força dos editoriais. Quem se opunha à decisão não precisou nem do governo nem do PT para isso.
Mas há um reverso da fortuna que começa a aparecer. Um ex-parceiro de Daniel Vorcaro, o banqueiro que está no centro de várias investigações, repassou R$ 5 milhões para a fundação do Instituto Iter, do qual Mendonça era sócio e agora seria apenas professor. Um cunhado do ministro trabalha no gabinete do deputado Cezinha de Madureira, investigado pela Polícia Federal. Flávio Dino determinou ontem o envio à PF de informações sobre possíveis crimes nas operações do Banco Master com concessionárias de cemitérios da Prefeitura de São Paulo. Há um encontro registrado em março de 2025 entre Vorcaro e Mendonça — cujo irmão Alexandre trabalha na área funerária da SP Regula. No dia seguinte, Mendonça pediu vista do processo. Quando o julgamento foi retomado em abril, votou contra a manutenção de uma decisão de Dino que estabelecia restrições às concessionárias de cemitérios privados.
Mendonça afirmou ontem ao G1 que sabia que viriam represálias e que nada tem a temer. Citou Schopenhauer, especificamente o 38º estratagema para vencer um debate sem ter razão: o ataque pessoal contra quem diverge. Mas há uma pequena correção necessária: ele não recebeu informações da PF, determinou que fossem produzidas — um procedimento obviamente ilegal. E o ministro é um usuário do 35º estratagema de Schopenhauer: a persuasão pela vontade, aquela em que se afirma que o adversário atua contra os interesses da própria corporação a que pertence, como se o apelo fosse apenas pela depuração institucional.
Há também a questão de Kassio com K. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam a articulação para reservar uma mansão luxuosa em Joá, bairro nobre do Rio, durante o Carnaval de 2025 para "KN" — identificado por investigadores da PF como o ministro Kassio Nunes Marques — e o desembargador Newton Ramos. A mansão é do ator Márcio Garcia, avaliada em R$ 250 milhões, com sete suítes e 6 mil metros quadrados. A semana de hospedagem custou cerca de R$ 1,45 milhão. Kassio respondeu lembrando que votou contra um habeas corpus para o pai de Vorcaro — uma resposta que funciona como prova apenas se se aceitar que a ingratidão pública é evidência de isenção.
O que está em jogo é mais do que conflito de interesses. É a forma como certos ministros usam estratagemas retóricos para vencer argumentos sem fundamentação legal. Mendonça sabe que ganhou um debate na mídia sem ter razão e sem a lei. E a imprensa continua fatiando o eleitorado em rodelas de salame, procurando movimento onde não há, enquanto os números mostram que o que realmente move o voto é coisa bem mais concreta.
Notable Quotes
Quando decidi levar adiante as informações que recebi da Polícia Federal, sabia que viriam represálias— André Mendonça ao G1