Entre o otimismo declarado do governo Lula e as projeções sóbrias do Banco Central de Gabriel Galípolo, abre-se uma fissura que vai além de números: trata-se de duas narrativas sobre o Brasil que não cabem na mesma frase. Enquanto ministros e parlamentares petistas anunciam a queda dos preços como redenção política, o Copom projeta inflação acima do teto da meta por seis meses consecutivos — uma discordância que testa, em câmara lenta, os limites da autonomia institucional conquistada a duras penas. A reunião de maio será o momento em que a cordialidade cederá lugar à escolha.
BC de Galípolo e governo Lula mostram primeiros sinais de descompasso sobre inflação
A lua de mel entre o PT e o Banco Central pode ter seu fim marcado
Por que essa divergência entre o governo e o BC é importante agora, se o BC sempre teve autonomia?
Porque a autonomia do BC é recente — foi formalizada em 2021 — e o teste real dela vem quando as decisões do banco desagradam politicamente. Galípolo foi indicado por Lula, o que criou expectativas de alinhamento.
Mas é importante notar que Galípolo coordenou a reunião de dezembro que anunciou os aumentos de juros. Ele não é vítima de uma herança que não ajudou a criar.
Verdade. E o governo sabe disso, por isso a estratégia é atribuir tudo a Campos Neto. É uma forma de preservar Galípolo enquanto mantém a pressão.
Então em maio, quando se reunirem novamente, o que pode acontecer?
Aí está o ponto crítico. Se a inflação ainda estiver fora da meta — e o próprio BC projeta que estará — eles terão que continuar apertando os juros ou admitir que não conseguem controlar a inflação.
E se continuarem apertando, o governo vai dizer que Galípolo não está ouvindo. Se pararem, o BC admite que falhou em seu mandato.
Então não há saída fácil para Galípolo?
Não há, a menos que a inflação caia muito mais rápido do que o próprio BC está projetando. Mas as projeções do BC costumam ser conservadoras.
O que torna maio um ponto de ruptura real. Não é especulação — é quando a autonomia será testada de verdade.
Le Pouls
- O BC projeta inflação acima de 4,5% por seis meses seguidos, enquanto o governo repete que os preços estão cedendo — duas leituras da mesma realidade que não se conciliam.
- Parlamentares do PT já ensaiam a narrativa de que os juros altos são herança de Campos Neto, tentando blindar Lula do desgaste político sem confrontar Galípolo diretamente.
- O governo pressiona nas entrelinhas: se o câmbio recua e a inflação cede, por que o BC insiste em apertar os juros e frear a recuperação que o Planalto precisa mostrar nas pesquisas?
- Galípolo adotou distância pública deliberada de Lula para preservar sua credibilidade, mas essa separação estratégica tem prazo — e pode não sobreviver ao impacto dos juros altos na economia real.
- Maio será o teste decisivo: se o BC estender o ciclo de aperto monetário, a lua de mel entre o PT e a nova direção do Banco Central chegará formalmente ao fim.
Entre o otimismo declarado do governo Lula e as projeções sóbrias do Banco Central de Gabriel Galípolo, abre-se uma fissura que vai além de números: trata-se de duas narrativas sobre o Brasil que não cabem na mesma frase. Enquanto ministros e parlamentares petistas anunciam a queda dos preços como redenção política, o Copom projeta inflação acima do teto da meta por seis meses consecutivos — uma discordância que testa, em câmara lenta, os limites da autonomia institucional conquistada a duras penas. A reunião de maio será o momento em que a cordialidade cederá lugar à escolha.
O governo Lula e o Banco Central de Gabriel Galípolo começam a trilhar caminhos distintos sobre o futuro da inflação brasileira. Ministros e deputados petistas repetem que os preços vão cair com a recuperação do câmbio e uma safra maior em 2025. O BC, por sua vez, projeta que a inflação permanecerá acima do teto da meta por seis meses consecutivos — incluindo junho deste ano. Essa divergência não é um detalhe técnico: ela toca diretamente em como o governo avalia seu próprio desempenho e no quanto está disposto a tolerar as decisões de Galípolo.
Desde que assumiu em janeiro, Galípolo herdou um ciclo de aperto já anunciado: um aumento de um ponto percentual aconteceu na semana passada, outro está marcado para março. A próxima reunião, em maio, é onde a pressão política pode se intensificar. O governo questiona a lógica de manter juros altos se o câmbio recua e a inflação começa a ceder — uma crítica implícita ao fato de o BC não acompanhar a narrativa de melhora que o Planalto precisa para recuperar sua imagem nas pesquisas.
A partir de 2025, o BC passou a usar uma métrica mais rigorosa: o IPCA acumulado em doze meses, medido a cada mês. Se esse número ficar acima de 4,5% por seis meses seguidos, o mandato não terá sido cumprido. Integrantes do governo leram a ata do Copom como um sinal de que os juros continuarão subindo depois de março — leitura que o PT tenta neutralizar atribuindo as altas ao legado de Campos Neto, ignorando que Galípolo coordenou a reunião de dezembro na qual os aumentos foram anunciados.
Desde que tomou posse, Galípolo deixou de ser visto publicamente com Lula — uma distância deliberada para preservar a credibilidade do BC. O presidente tem consciência disso e mantém a separação. Mas a questão que paira é se essa estratégia resistirá quando os efeitos dos juros mais altos chegarem à economia real. Se em maio o BC decidir estender o ciclo de aperto, a lua de mel entre o PT e o Banco Central pode ter sua data de encerramento marcada no calendário.
O governo Lula e o Banco Central de Gabriel Galípolo começam a divergir sobre o caminho da inflação brasileira, um descompasso que pode marcar o fim da lua de mel entre o Palácio do Planalto e a nova direção da autoridade monetária. Enquanto ministros e deputados petistas repetem em uníssono que os preços vão cair com a recuperação do câmbio e uma safra maior em 2025, o BC segue em direção oposta: seus diretores projetam que a inflação permanecerá acima do teto da meta por seis meses consecutivos, incluindo junho deste ano.
Essa divergência de leitura não é um detalhe técnico. Ela toca no cerne de como o governo avalia seu próprio desempenho e no quanto está disposto a tolerar as decisões de Galípolo. Desde que assumiu a presidência do BC em janeiro, o economista herdou uma situação delicada: o Copom já havia anunciado, ainda sob a gestão de Roberto Campos Neto, que promoveria aumentos de juros em duas reuniões seguidas. O primeiro de um ponto percentual aconteceu na semana passada. O segundo está marcado para março. A próxima reunião, em maio, será quando o ciclo de aperto monetário poderá ser reavaliado — e é ali que a pressão política sobre Galípolo pode se intensificar.
O governo questiona a lógica de manter juros altos se o câmbio está recuando e a inflação começando a ceder. "Se o impacto do recuo do dólar estiver se materializando na inflação, por que tem que manter aumento dos juros?", pergunta um interlocutor próximo ao presidente. A pergunta carrega uma crítica implícita: por que o BC não acompanha a narrativa de melhora que o governo está tentando construir para recuperar sua imagem nas pesquisas de opinião. O IPCA, que foi o vilão do ano passado com altas nos preços dos alimentos, é agora o termômetro pelo qual o governo quer se redimir.
Mas o BC trabalha com uma métrica diferente e mais rigorosa a partir de 2025. Não é mais o IPCA acumulado de janeiro a dezembro que define se a meta foi cumprida. Agora, o que importa é o valor acumulado em doze meses analisado a cada mês. Se por seis meses consecutivos esse número ficar acima do teto da meta — fixado em 4,5% — o BC não terá executado seu mandato. A afirmação na ata da última reunião do Copom de que a inflação permanecerá fora do intervalo de tolerância nos próximos seis meses foi lida por integrantes do governo como uma forma indireta de dizer que os juros continuarão subindo depois de março.
Galípolo vive um período de graça que pode estar com prazo de validade. Quando Lula o indicou para o cargo, elogiou sua competência e reafirmou que teria total autonomia. No final do ano, o presidente gravou um vídeo ao lado do novo presidente do BC dizendo que ele seria o melhor que a instituição já teve — um gesto que funcionou simultaneamente como demonstração de confiança e como uma estocada em Campos Neto, seu desafeto pessoal. O PT inteiro criticava a gestão anterior e a alta de juros que ela promoveu.
Quando Galípolo anunciou o aumento de um ponto percentual na semana passada, porém, o deputado Lindbergh Farias rapidamente atribuiu a decisão ao legado de Campos Neto. "Galípolo não tinha o que fazer sem criar uma grande crise", disse. "Foi uma armadilha criada por Campos Neto antes de sair do cargo." A crítica ignora um detalhe importante: a reunião do Copom de dezembro, na qual o anúncio de futuras altas foi feito, foi coordenada por Galípolo, ainda que ele não tivesse assumido oficialmente o cargo. Ele e Campos Neto admitiram isso publicamente durante um café com jornalistas no final do ano.
Desde que tomou posse oficialmente, Galípolo adotou uma postura mais discreta. Deixou de ser visto publicamente com Lula, apesar de ter sido presença constante no Palácio do Planalto nos meses anteriores. O presidente gostava de ouvir suas avaliações sobre o mercado financeiro. Agora, a distância pública faz parte de uma estratégia deliberada do governo para preservar a credibilidade do novo presidente do BC. Lula tem consciência disso e deve continuar mantendo essa separação.
A questão que paira é se essa estratégia resistirá quando os efeitos dos juros mais altos começarem a aparecer na economia real. O grande teste da autonomia de Galípolo e da nova diretoria do BC, majoritariamente formada por indicados de Lula a partir deste ano, virá em maio. Se a inflação continuar fora da meta e o BC decidir estender o ciclo de aperto monetário, a lua de mel entre o PT e o Banco Central pode ter seu fim marcado.
Citations marquantes
Se o impacto do recuo do dólar estiver se materializando na inflação, por que tem que manter aumento dos juros?— Interlocutor próximo ao presidente Lula
Galípolo não tinha o que fazer sem criar uma grande crise. Foi uma armadilha criada por Campos Neto antes de sair do cargo.— Deputado Lindbergh Farias