Dezenas de milhares de doses de vacina expiram sem uso em países africanos como Chade e Benin, revelando falhas logísticas críticas no programa. O Covax distribuiu apenas 163 milhões de doses, muito abaixo da meta de 640 milhões, prejudicado por financiamento insuficiente e poder de barganha limitado.
Covax fracassa na vacinação africana com doses desperdiçadas e falta de recursos
Quando ele não atendeu às expectativas, eles não tinham um plano B
Por que o Covax não conseguiu simplesmente aplicar as vacinas que chegaram?
Porque vacina não é só dose. É logística, é pessoal treinado, é combustível para transportar, é confiança da população. O Chade recebeu cem mil doses e não tinha estrutura para aplicar. Não é negligência — é realidade de um país com recursos limitados.
Então o problema não era a falta de vacinas?
Era os dois. Faltavam vacinas porque o programa não conseguiu comprar o suficiente. Mas também faltava capacidade nos países para usar o que chegava. O Covax prometeu resolver um problema global e acabou expondo que não tinha poder real.
A Pfizer recusou trabalhar com o Covax?
Exatamente. Preferiu negociar direto com o governo Biden. Para a Pfizer, era mais seguro e lucrativo. Para o Covax, foi um golpe na credibilidade. Como você é um comprador global independente se os fabricantes não confiam em você?
E os países ricos? Eles ajudaram ou atrapalharam?
Atrapalharam. Prometeram financiamento, não cumpriram. Depois começaram a competir entre si por doses, pagando mais, enquanto o Covax ficava sem dinheiro para assinar contratos. Basicamente, os ricos sabotaram o programa que deveria ajudar os pobres.
Qual era a meta original?
Seiscentas e quarenta milhões de doses até meados de 2021. Distribuiu cento e sessenta e três milhões. Menos de um quarto. E enquanto isso, a variante Delta se espalhava em populações sem proteção.
O que acontece agora?
Biden comprou quinhentos milhões de doses. Mas desviou dinheiro de campanhas de vacinação nos próprios países pobres para pagar. É ajuda que prejudica. E o Covax continua com os mesmos problemas estruturais que o deixaram à mercê dos ricos.
Der Puls
- 94 mil doses de Pfizer permaneceram sem uso no Chade após cinco semanas
- 110 mil doses da AstraZeneca expiraram no Benin
- Covax distribuiu apenas 163 milhões de doses, contra meta de 640 milhões
- 22 países relatavam estar quase ou totalmente sem doses em julho
- Governo Biden desviou centenas de milhões de dólares de campanhas locais para financiar doação
Dezenas de milhares de doses de vacina expiram sem uso em países africanos como Chade e Benin, revelando falhas logísticas críticas no programa. O Covax distribuiu apenas 163 milhões de doses, muito abaixo da meta de 640 milhões, prejudicado por financiamento insuficiente e poder de barganha limitado.
O programa Covax enfrenta crise ao tentar imunizar países pobres contra Covid-19, com atrasos nas entregas, desperdício de doses e falta de recursos logísticos enquanto a variante Delta se espalha.
Em junho, quando a Covid-19 ceifava vidas em toda a África, cem mil doses da vacina Pfizer-BioNTech chegaram ao Chade. O momento parecia simbólico — prova de que o Covax, o ambicioso programa das Nações Unidas para imunizar o mundo, poderia cumprir sua promessa de levar vacinas aos países mais pobres. Cinco semanas depois, porém, noventa e quatro mil daquelas doses ainda estavam nos freezers, intocadas, segundo o ministro da Saúde do Chade. Não era um caso isolado. No Benin, vizinho, apenas duzentas e sessenta e sete doses eram aplicadas por dia — um ritmo tão lento que cento e dez mil doses da AstraZeneca venceram antes de serem usadas. Documentos confidenciais de julho revelavam que o programa monitorava pelo menos nove países africanos onde doses destinadas aos mais vulneráveis corriam o risco de expirar sem nunca chegar a um braço.
Esse desperdício apontava para um dos problemas mais graves do Covax, ainda que raramente reconhecido publicamente: não era apenas a falta de vacinas que paralisava a campanha, mas a incapacidade de fazer com que as doses que chegavam aos aeroportos saíssem dos depósitos e chegassem às pessoas. O programa havia sido concebido como um motor global, uma aliança de bilhões de dólares entre organismos internacionais de saúde e organizações sem fins lucrativos que usaria seu poder de compra para garantir que os pobres recebessem imunizantes tão rapidamente quanto os ricos. Em vez disso, o Covax mal conseguia adquirir as doses que havia prometido — estava meio bilhão abaixo da meta inicial.
A situação se tornava cada vez mais urgente conforme a variante Delta se espalhava. Os países pobres permaneciam perigosamente desprotegidos, exatamente o cenário que o Covax havia sido criado para evitar. E o risco não era apenas local. Quanto mais tempo o vírus circulasse em populações sem vacinação, mais oportunidades teria de mutar. Especialistas alertavam que sem bilhões de doses adicionais, novas variantes poderiam continuar emergindo, ameaçando até mesmo os vacinados nos países ricos. O fracasso do Covax não era um problema apenas africano — era um problema do mundo inteiro.
Ayoade Alakija, copresidente do programa de distribuição de vacinas da União Africana, tentava manter a esperança mesmo diante das evidências. "O Covax não fracassou, mas está falhando neste momento", disse. "Realmente não temos outras opções. Pelo bem da humanidade, o programa deve funcionar." Sua fala capturava a armadilha em que os países africanos se viam: dependentes de um programa que não estava entregando, sem alternativas viáveis.
O governo Biden anunciou então a compra de quinhentos milhões de doses da Pfizer para distribuição através do Covax, com as primeiras doses começando a embarcar naquele mês. A doação de três bilhões e meio de dólares parecia uma virada. Mas havia um porém: para financiá-la, o governo americano desviava centenas de milhões de dólares que seriam destinados a campanhas de vacinação nos próprios países pobres. Sem esses fundos, nações enfrentavam dificuldades básicas — comprar combustível para transportar doses até as clínicas, treinar pessoal para aplicar injeções, convencer populações desconfiadas a se vacinarem.
Os problemas estruturais do programa eram ainda mais profundos. A Pfizer havia rejeitado um acordo direto com o Covax, preferindo negociar diretamente com o governo Biden. Esse arranjo prejudicava a credibilidade do consórcio como comprador independente. Além disso, barreiras burocráticas impostas pela própria liderança do Covax impediram o desembolso de duzentos e vinte milhões de dólares que poderiam ter ajudado países a administrar vacinas. Seth Berkley, presidente-executivo da Gavi, a organização sem fins lucrativos financiada pela Fundação Gates que impulsionava o consórcio, admitiu que o financiamento inicial insuficiente havia tornado a escassez inevitável.
O Covax havia distribuído cento e sessenta e três milhões de doses até aquele momento — a maioria gratuitamente para os países mais pobres, o restante para países que pagavam. Estava muito longe da meta inicial de ter pelo menos seiscentas e quarenta milhões disponíveis até meados do ano. Documentos confidenciais de julho indicavam que vinte e dois países, alguns com aumento de mortes, relatavam estar quase ou totalmente sem doses do programa. Catherine Kyobutungi, que dirige o Centro de Pesquisa em Saúde e População Africana, resumiu a decepção: "A forma como o Covax foi criado e divulgado fez com que os países africanos achassem que seria sua salvação. Quando ele não atendeu às expectativas, eles não tinham um plano B."
A história do Covax era também a história de promessas não cumpridas pelos países ricos. Quando especialistas em saúde criaram estratégias para imunizar o mundo de maneira equitativa nos primeiros meses de 2020, o Covax emergiu como a resposta — reunindo a Gavi, a Coalizão para Inovações de Prevenção para Epidemias, a Organização Mundial da Saúde e o Unicef. Havia expectativa de que funcionaria como um grande comprador global, negociando com fabricantes em nome tanto de nações ricas quanto pobres. Mas as nações ricas não cumpriram suas promessas de financiamento. O Reino Unido negociou para que os países mais ricos pudessem escolher quais vacinas comprar através do programa, criando atrasos. Mais que isso: as nações ricas se tornaram rivais em uma corrida pela compra de doses, pagando mais para garantir suas próprias vacinas enquanto atrasavam os financiamentos que o Covax precisava para assinar acordos com fabricantes. O programa havia sido concebido para ser a solução para a desigualdade global de vacinas. Em vez disso, tornou-se um reflexo dela.
Bemerkenswerte Zitate
O Covax não fracassou, mas está falhando neste momento. Realmente não temos outras opções. Pelo bem da humanidade, o programa deve funcionar.— Ayoade Alakija, copresidente do programa de distribuição de vacinas da União Africana
A forma como o Covax foi criado e divulgado fez com que os países africanos achassem que seria sua salvação. Quando ele não atendeu às expectativas, eles não tinham um plano B.— Catherine Kyobutungi, Centro de Pesquisa em Saúde e População Africana