O olezarsen reduz triglicerídeos em 60% e pancreatite aguda em 85% em pacientes de alto risco, superando medicações existentes que conseguem apenas 20-30% de redução. A droga usa tecnologia de RNA mensageiro para impedir a produção de proteína ligada aos triglicerídeos, representando nova era de tratamentos cardíacos mais potentes e menos frequentes.
Cardiologista que criou remédio contra pancreatite fala sobre coração, sono e indústria farmacêutica
Bastaria tratar quatro pessoas por um ano para evitar um caso
Como você vê a diferença entre trabalhar com um paciente por vez e alguém como o Drauzio Varella que fala para milhões?
Enquanto estou aqui atendendo um paciente de cada vez, ele está lá melhorando a vida de um milhão de pessoas em cada fala dele. Provavelmente tem um impacto na saúde do Brasil infinitamente maior do que a consulta que faço.
Mas existe um risco real de que a divulgação científica vire sensacionalismo nas redes sociais?
Existe. Na rede social preciso de engajamento. É mais fácil conseguir isso com notícia sensacionalista, é muito mais fácil se flerto com fake news. Na ciência, a resposta é com frequência "não sei", "preciso de mais estudos". Isso não gera engajamento.
Você mencionou a indústria farmacêutica e os brindes, as viagens de luxo. Isso ainda é um problema?
Tinha um grande fundo de verdade há 10 anos ou mais. Hoje muita coisa mudou graças à questão de compliance. As indústrias nem conseguem mais fazer esse tipo de coisa. Coisas que aconteciam lá atrás, como mandar passagem para o médico e para a família, hoje estão absolutamente fora de cogitação.
E quanto ao sono? Parece que virou moda falar sobre isso.
O sono sempre foi negligenciado, apesar de a gente passar um terço da vida dormindo. A American Heart Association incluiu o sono em 2022 nos seus pilares de saúde. Os estudos apontam sete a nove horas como ideal para adultos, mas na nossa vida ocidental a média fica bem abaixo disso.
Pessoas estão fazendo planilhas para dormir, cruzando treino com sono. Isso ajuda ou vira obsessão?
Se a pessoa quer fazer planilha para ter um condicionamento melhor, vai ajudar a estimular, está ótimo. Meu receio é quando entra em terreno de remédio experimental para longevidade, de soro fluorescente, coisas que saem do campo da ciência e viram um negócio de terapias que nunca comprovaram mudar nada.
Il Polso
- Olezarsen reduz triglicerídeos em 60% e pancreatite aguda em 85% em pacientes com níveis acima de 880 mg/dL
- Aprovado pelo FDA em 24 de junho de 2026; primeiro medicamento comprovadamente eficaz em reduzir pancreatite aguda
- Usa tecnologia de RNA mensageiro para impedir produção de proteína ligada aos triglicerídeos
- André Zimerman, 33 anos, cardiologista de Porto Alegre, liderou análise do estudo durante pós-doutorado em Harvard
O olezarsen reduz triglicerídeos em 60% e pancreatite aguda em 85% em pacientes de alto risco, superando medicações existentes que conseguem apenas 20-30% de redução. A droga usa tecnologia de RNA mensageiro para impedir a produção de proteína ligada aos triglicerídeos, representando nova era de tratamentos cardíacos mais potentes e menos frequentes.
André Zimerman, cardiologista de Porto Alegre, liderou pesquisa que resultou na aprovação do olezarsen, primeiro medicamento comprovadamente eficaz em reduzir pancreatite aguda em pacientes com triglicerídeos muito elevados.
André Zimerman tem 33 anos e nasceu em Porto Alegre numa família onde ser médico é quase uma profissão hereditária. Seu avó foi pediatra, psiquiatra e psicanalista. Seu pai é eletrofisiologista. Um tio é neurocirurgião, uma tia é psiquiatra. Ele se formou em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2016, passou um ano em Columbia em Nova York pelo programa Ciência sem Fronteiras, fez residência em medicina interna e cardiologia no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, doutorado na UFRGS, e entre 2022 e 2024 cursou um pós-doutorado que mudou a escala do seu trabalho: uma bolsa da Fundação Lemann no TIMI Study Group, o grupo de ensaios clínicos do Brigham and Women's Hospital ligado à Harvard Medical School. Hoje é professor do programa de pós-graduação em cardiologia da UFRGS, professor da Faculdade de Medicina Moinhos de Vento e chefe da MOVE, organização de pesquisa acadêmica do Hospital Moinhos de Vento.
O que o trouxe ao Trip FM é uma droga chamada olezarsen. Ela pertence a uma família nova de medicamentos que não age sobre a proteína pronta, mas sobre o recado que manda produzi-la — o RNA mensageiro. No caso específico, o recado que fabrica uma proteína ligada aos triglicerídeos. O resultado é uma queda de cerca de 60% nos níveis desse indicador, contra os 20% ou 30% que os remédios disponíveis conseguem entregar. Em maio de 2026, no congresso da Sociedade Europeia de Aterosclerose em Atenas, Zimerman apresentou em nome do TIMI a análise que olhou especificamente para pacientes com triglicerídeos acima de 880 mg/dL — a faixa em que o risco de pancreatite deixa de ser teórico. Nesse grupo, a droga reduziu em 85% os episódios de pancreatite aguda. Em 24 de junho de 2026, o FDA aprovou o olezarsen para hipertrigliceridemia grave. É o primeiro e por enquanto único remédio do mundo cuja bula atesta, com todas as letras, a capacidade efetiva de reduzir o risco de pancreatite aguda.
O triglicerídeo é uma gordura que circula no sangue e costuma ser um marcador de doença metabólica. Sedentarismo, sobrepeso, diabetes — esse é o perfil de quem tende a ter triglicerídeo elevado. Em casos extremos pode ser genético e chegar a níveis altíssimos. O triglicerídeo alto se associa a dois problemas graves: doença cardiovascular — infarto, AVC, mais chance de óbito — e pancreatite. Mas aqui não se fala do triglicerídeo moderadamente elevado, na faixa de 200 ou 300. Fala-se de 800, 1.000, 2.000. Esses são os níveis que causam pancreatite. O desafio é que não havia muita coisa que baixasse bem o triglicerídeo. Para quem é sedentário e está com sobrepeso, mudança de hábito baixa alguma coisa, na faixa de 10% a 20%. As medicações aprovadas — fibratos e estatinas — baixam mais ou menos 30%. Não havia nada que reduzisse de forma substancial.
A história do olezarsen começou com a descoberta de pessoas que tinham mutações numa via específica. Viu-se que essas pessoas tinham triglicerídeos muito baixos, menos doença cardiovascular e menos pancreatite. O pensamento que veio depois foi simples: será que não se consegue criar uma medicação que simule essa mutação que aquela pessoa específica teve naturalmente? A droga atua no RNA mensageiro — o mensageiro que entrega a receita para produzir uma proteína. É super específica, age ali e impede que a proteína seja formada. Atua num nível muito mais precoce, logo que aquilo saiu do núcleo da célula. A nova era de tratamentos da cardiologia está sendo assim: mais potente, mais direcionada e, por isso mesmo, menos frequente. Aplicação uma vez por mês, a cada dois meses, três, seis, ou até uma vez por ano. Não precisa mais tomar comprimido todo santo dia.
A análise que Zimerman liderou fez parte de um programa maior durante seu pós-doutorado em Harvard. Havia estudos em pessoas com síndrome genética com níveis de triglicerídeos de 2.000 ou 3.000, programas com triglicerídeo mais baixo para ver se a medicação reduzia a placa coronária, e um programa voltado à prevenção de pancreatite. Sua análise olhou para as pessoas com triglicérides acima de 880 para avaliar quanto a droga reduziria os níveis e o risco. Hoje não existe nenhuma medicação aprovada para essa população com o objetivo de reduzir o risco de pancreatite. Nos pacientes de risco mais alto, com níveis acima de 880 e um episódio prévio de pancreatite, bastaria tratar quatro pessoas por um ano para evitar um caso. É um benefício muito grande. Com base nessas análises, a medicação foi aprovada pelo FDA americano. Nos Estados Unidos já está aprovado. Na Europa, o remédio já existe para a síndrome genética, e o pedido de ampliação para os casos de triglicerídeo muito alto está em análise. A partir daí começa a se pensar em vir para o Brasil. O antecessor dessa droga se chama volanesorsen e já existe no Brasil, aprovado pela Anvisa em 2021, mas só para pessoas com uma síndrome genética rara chamada quilomicronemia familiar. Para a população muito mais numerosa, que não tem 3.000 de triglicerídeo e sim 600, 800 ou 900, a expectativa é que em alguns meses ou anos o olezarsen chegue.
Quanto aos efeitos colaterais, o programa inclui milhares de pessoas. Alguns dos estudos foram conduzidos especificamente com esse objetivo, e há estudos ainda em andamento. Pelos dados publicados, a medicação é bem segura. Todos esses remédios baseados em RNA tendem a ser muito seguros porque ficam pouquíssimo tempo no organismo. O que se costuma ver é reação local, um pouco de vermelhidão no lugar da injeção, às vezes um sintoma gripal na hora da aplicação. A inclisirana, aprovada no Brasil para reduzir colesterol, é aplicada a cada seis meses depois das duas primeiras doses, e a droga sai do organismo em um ou dois dias. São medicações que estão mudando a forma de tratamento. Hoje ainda se vive sob a lógica de tomar comprimidos todos os dias, mas é bem possível que nos próximos anos isso vire outra coisa: a pessoa vai à farmácia no dia do aniversário, toma quatro injeções e volta no ano seguinte.
Citazioni salienti
Enquanto estou aqui atendendo um paciente de cada vez, o Drauzio está lá melhorando a vida de um milhão de pessoas em cada fala dele— André Zimerman
A base da longevidade são sete ou oito coisas básicas: exercício físico, dieta adequada, controle de peso, controle de colesterol, controle de pressão arterial, não fumar e ter um sono adequado— André Zimerman