No coração do Sudeste Asiático, brasileiros em busca de oportunidade encontraram não um emprego, mas uma prisão. Atraídos por promessas de salários em dólar, dezenas foram levados ao Camboja e confinados em complexos fortemente vigiados, onde passaportes retidos, dívidas fabricadas e violência física os transformaram em instrumentos de fraude digital. O fenômeno, que cresceu 33% entre 2024 e 2025, revela como o tráfico humano moderno se disfarça de recrutamento legítimo — e como a cumplicidade institucional pode tornar a fuga quase impossível.
Brasileiros vítimas de tráfico no Camboja vivem sob grades, vigilância e tortura
Prisão financeira: dívidas que anulam salários e tornam a fuga impossível
Por que o Camboja se tornou especificamente um centro para isso? Não é um lugar aleatório.
Começou com cassinos ilegais que miravam turistas chineses. Quando a China proibiu apostas online em 2019, os criminosos simplesmente reutilizaram a infraestrutura — os prédios, as conexões ilegais, o aparato de segurança que já estava lá. Transformaram tudo em fábricas de fraude.
E por que os brasileiros? O que os torna alvos específicos?
Porque funcionam. Falam português, têm acesso a redes de contatos no Brasil, e há demanda por vítimas que possam fazer ligações convincentes para pessoas em português. É um mercado de trabalho criminoso como qualquer outro — eles procuram por quem possa fazer o trabalho.
Os números que você mencionou — 44 de 84 casos em 2025 — isso é realmente alto?
É o principal destino documentado. E o ministério diz que os números estão subestimados. Muitas vítimas nunca chegam aos serviços públicos, então a realidade é provavelmente muito pior.
A questão das dívidas impagáveis parece ser a chave para mantê-los presos.
Exatamente. Não é apenas vigilância física. É uma prisão financeira. Eles cobram por tudo — comida, passagem aérea, até licença de software. O salário nunca cobre nada. É escravidão por contrato.
E as autoridades cambojanas? Estão realmente tentando parar isso?
Dizem que sim, mas as organizações internacionais veem conluio. Os complexos continuam funcionando após as operações policiais. É difícil saber se é incompetência ou corrupção, ou ambas.
Der Puls
- Brasileiros são recrutados com contratos falsos que prometem quatro mil dólares mensais, domingos livres e acomodação — e chegam a complexos murados, com arame farpado e câmeras sem pontos cegos.
- Passaportes são confiscados na chegada, e dívidas fabricadas de até 12 mil dólares tornam qualquer tentativa de saída financeiramente inviável antes mesmo de começar.
- Quem se recusa a aplicar golpes online é punido com tapas, socos e choques elétricos; familiares no Brasil também recebem ameaças diretas.
- Operações policiais cambojanas iniciadas em julho de 2025 geraram um fluxo de vítimas com fraturas graves nos hospitais regionais, mas a maioria foi deportada sem acompanhamento médico adequado.
- Organizações internacionais denunciam que os complexos continuaram funcionando após as batidas e apontam conluio entre autoridades locais e os operadores das redes de fraude.
No coração do Sudeste Asiático, brasileiros em busca de oportunidade encontraram não um emprego, mas uma prisão. Atraídos por promessas de salários em dólar, dezenas foram levados ao Camboja e confinados em complexos fortemente vigiados, onde passaportes retidos, dívidas fabricadas e violência física os transformaram em instrumentos de fraude digital. O fenômeno, que cresceu 33% entre 2024 e 2025, revela como o tráfico humano moderno se disfarça de recrutamento legítimo — e como a cumplicidade institucional pode tornar a fuga quase impossível.
So Raksa estava celebrando seu casamento em Poipet quando uma operação policial irrompeu a duzentos metros de sua casa. Ela viu homens e mulheres de várias nacionalidades correndo desesperadamente para fora de um complexo cercado por muros de concreto. Sua mãe, que entrava no local para entregar água, havia visto o que acontecia lá dentro: rostos com olhos roxos, braços e pernas machucados, chefes espancando pessoas à vista de todos.
Entre os que passaram por aquele e outros complexos semelhantes havia brasileiros. João, 25 anos, foi atraído pela promessa de um contrato de um ano com salário em dólar. Paulo chegou voando para Bangkok e foi levado de carro até a fronteira. Ambos descobriram a mesma verdade: ao pedir para sair, foram ameaçados — eles próprios e suas famílias no Brasil. O que os esperava era trabalhar como operadores de fraudes digitais sob vigilância constante.
O Camboja tornou-se em 2025 o principal destino de vítimas brasileiras de tráfico humano, com 44 dos 84 casos registrados pelo Ministério da Justiça — alta de 33% em relação ao ano anterior. As autoridades reconhecem que o número real é maior, pois muitas vítimas não chegam aos serviços públicos. Em todos os casos cambojanos, o crime teve como finalidade o trabalho escravo.
A arquitetura da prisão era meticulosa. Passaportes eram retidos sob pretexto de regularização do visto. Contratos impunham dívidas que incluíam passagem aérea, alimentação, aluguel do espaço de trabalho, licenças de software e até taxa de proteção — somando mais de 12 mil dólares por vítima. Punições por recusa ou baixo desempenho incluíam humilhações públicas, agressões físicas e choques elétricos.
Quando operações policiais foram deflagradas em julho de 2025, hospitais regionais registraram um fluxo incomum de estrangeiros com fraturas e ferimentos graves. Mas a maioria foi deportada em seguida, sem acompanhamento médico. A Anistia Internacional e outras organizações denunciam que os complexos continuaram operando após as batidas e apontam conluio entre autoridades locais e os gerentes das redes. O governo cambojano afirma investigar qualquer envolvimento de funcionários públicos e manter cooperação ativa com o Brasil — mas a eficácia dessas promessas ainda está por ser demonstrada.
So Raksa estava celebrando seu casamento recém-consumado quando ouviu o caos começar. A jovem cambojana de 26 anos estava em casa com o marido, familiares e amigos na cidade de Poipet, perto da fronteira tailandesa, quando uma operação policial invadiu um condomínio a apenas 200 metros de distância. "Foi surpreendente porque eram muitos", ela recorda. Entre os edifícios havia apenas um campo de grama baixa, e homens e mulheres de várias nacionalidades começaram a correr desesperadamente. Fugiam de um complexo de fraudes — um lugar onde quadrilhas mantêm pessoas prisioneiras, atraídas com promessas de empregos bem pagos, apenas para se tornarem vítimas de tráfico humano forçadas a executar golpes eletrônicos.
A mãe de So Raksa, Hoeung Heab, havia entrado no complexo antes para entregar galões de água, uma das formas pela qual sua família ganhava dinheiro. O que ela viu a perturbou profundamente. "Alguns deles tinham o olho roxo, os braços e as pernas machucados", ela descreve. "Os chefes eram violentos, estavam espancando pessoas do lado de dentro." Os mesmos edifícios já haviam atraído brasileiros. Um homem identificado como João, 25 anos, passou algumas horas no local antes de ser transferido para outro complexo. Ele explica como funcionava o recrutamento: ofereciam quatro mil dólares, doze horas de trabalho diário, domingos livres e um contrato de um ano. Era uma mentira cuidadosamente construída.
Poipet tornou-se conhecida internacionalmente como um dos principais centros de tráfico de pessoas no Camboja. Em 2025, o país foi o destino principal para vítimas brasileiras registradas através do Protocolo Operativo Padrão de Atendimento do Ministério da Justiça — 44 dos 84 casos documentados. Isso representou um aumento de 33 por cento em relação a 2024, quando havia 63 casos no total. O ministério reconhece que esses números estão subestimados, pois nem todas as vítimas conseguem chegar aos serviços públicos. O trabalho escravo foi a principal finalidade do crime em 2025, com 49 registros, e em todos os casos no Camboja, as vítimas foram forçadas a trabalhar nessas condições.
Paulo, outro nome fictício, chegou ao país voando para Bangkok e depois foi levado de carro até Poipet. Durante três meses, trabalhou em funções não relacionadas aos golpes enquanto observava dezenas de brasileiros chegarem ao complexo. Quando pediu para sair, foi ameaçado. "Fui ameaçado de ser colocado na prisão. Minha família foi ameaçada", relata. Depois disso, foi informado que teria de fazer o que o chefe mandasse — e o que mandavam era executar fraudes online. Outros brasileiros entrevistados por organizações como The Exodus Road e Anistia Internacional descrevem o mesmo padrão: atraídos com promessas de ganhos em dólar, acomodação e benefícios, mas ao chegar à suposta empresa, foram forçados a aplicar golpes sob ameaças de tortura.
A vida dentro dos complexos era um regime de vigilância constante e intimidação. As punições chegavam quando as vítimas se recusavam a executar os golpes, tentavam contato com autoridades ou quando o valor extraído não era suficiente. Os gerentes então conduziam humilhações públicas que incluíam tapas, socos e choques elétricos. Os passaportes eram retidos logo na chegada sob o pretexto de processar o visto de trabalho, mas nunca eram devolvidos. As vítimas eram obrigadas a assinar contratos de um ano que as colocavam em uma dívida impossível de pagar. Elas eram responsáveis por devolver, através de descontos no salário, os custos com alimentação, passagens aéreas e acomodação, deixando sua remuneração final zerada ou reduzida a uma fração mínima do prometido. Atrasos, erros nos golpes e intervalos mais longos que o permitido geravam descontos adicionais.
Um documento de uma vítima revela os custos que seriam cobrados caso ela tentasse sair: transporte local, passagem aérea, aluguel do espaço do escritório, alimentação, internet, artigos de uso diário, taxa de proteção, material de escritório, licença de software de inteligência artificial e recarga de crédito no celular, entre outros itens. O total chegava a 12.439 dólares — aproximadamente 64 mil reais — tornando qualquer saída financeiramente impossível. Além das dívidas impagáveis, um aparato de segurança robusto impedia as fugas. No complexo de Poipet, havia pelo menos dois postos de controle de segurança antes de chegar ao prédio principal. Os muros eram altos, de concreto, coroados com arame farpado em toda a extensão. Câmeras de segurança sugeriam que não havia pontos cegos. Os edifícios, dois conjuntos amplos de cerca de cinco andares cada, ficavam em uma área afastada do centro da cidade, cercados por estrada de terra, mata, poucas casas e alguns comércios vazios.
Quando as operações policiais começaram em julho de 2025, após pressão internacional dos Estados Unidos e China, enfermeiros e atendentes do hospital regional de Poipet relataram um alto volume de pacientes estrangeiros escapando dos complexos. Muitos tinham ferimentos graves que exigiram cirurgias. Braços e pernas quebrados eram rotina, mas o acompanhamento médico era impossível porque a maioria das pessoas foi deportada logo em seguida. A eficácia da campanha de repressão é questionada por organizações internacionais. Segundo a Anistia Internacional, as operações foram ineficazes e marcadas por falhas sistêmicas, com complexos continuando a funcionar após as batidas policiais, criminalização de vítimas de tráfico humano e conluio entre autoridades locais e gerentes das unidades. O ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, afirma que o país leva as denúncias a sério e que ninguém está acima da lei, declarando que investigará evidências críveis de que qualquer autoridade tenha protegido, facilitado ou lucrado com operações de golpes online. Ele também afirma que há cooperação ativa com o Brasil, incluindo esforços conjuntos contra crimes de fraude online e repatriação de cidadãos brasileiros.
Bemerkenswerte Zitate
Fui ameaçado de ser colocado na prisão. Minha família foi ameaçada— Paulo, vítima de tráfico humano
O Camboja investigará evidências críveis de que qualquer autoridade tenha protegido operações de golpes online, facilitado essas operações, lucrado com elas ou delas participado— Neth Pheaktra, ministro da Informação do Camboja