Numa ilha atlântica onde o sagrado se prepara em silêncio, um documentário de doze minutos veio nomear o que sempre existiu sem nome: o trabalho das mulheres que sustentam, geração após geração, as festas do Divino Espírito Santo na Calheta, em São Jorge. 'Domingo a Domingo' não é apenas um registo de práticas — é um ato de reconhecimento de uma força feminina que atravessa séculos, desde a Rainha Santa Isabel até às mordomas de hoje. O filme lembra-nos que as grandes tradições raramente se perpetuam sozinhas; são mãos invisíveis que as carregam.
Documentário em São Jorge homenageia papel essencial das mulheres nas festas do Espírito Santo
A força vem da ação, e essa da dedicação em torno de uma celebração
Por que é que um documentário de doze minutos sobre mulheres numa festa religiosa importa tanto?
Porque durante séculos, o trabalho que sustenta estas celebrações foi simplesmente considerado "o que as mulheres fazem". Ninguém contava as horas, ninguém nomeava a organização, a criatividade, a resiliência. Agora há um registo.
E as mulheres migrantes que aparecem no filme — como é que elas mudam a história?
Elas mostram que a tradição não é um fóssil. É viva. Quando uma mulher que nasceu noutro lugar reinterpreta o Espírito Santo a partir da sua própria vida, a celebração ganha novas camadas de significado. Deixa de ser apenas açoriana; torna-se humana.
Janete Chaves disse que descobriu um "emaranhado bem organizado" de tarefas. Isso não é estranho — que uma mulher natural da ilha não soubesse toda a complexidade?
Não é estranho. É revelador. Significa que o trabalho era tão naturalizado, tão invisível, que mesmo quem vivia ali não via a engenharia toda. O documentário torna visível o que estava escondido à vista de todos.
A Rainha Santa Isabel aparece no filme como inspiração. Qual é a ligação?
Isabel introduziu o culto ao Espírito Santo em Portugal no século XIV. Mas o filme sugere que as verdadeiras herdeiras dessa tradição não são os reis ou os padres — são as mulheres que a perpetuam, que a vivem, que a alimentam, literalmente, com as suas mãos.
O que muda agora que o filme existe?
Talvez nada mude imediatamente. Mas há um registo. Há uma honra. E há oito localidades onde as pessoas podem ver as suas mães, avós, vizinhas, finalmente reconhecidas.
El Pulso
- Durante décadas, o trabalho essencial das mulheres nas festas do Espírito Santo existiu sem documentação, sem rosto público, sem nome atribuído — o documentário surge para romper esse silêncio.
- A equipa de produção acompanhou dez dias intensos de festividades, captando mulheres que dormiam apenas algumas horas por noite para garantir que centenas de pessoas fossem servidas com as sopas tradicionais.
- Vozes de mulheres migrantes entram no filme e alargam o significado da tradição, mostrando como a celebração se reinventa ao acolher experiências de diferentes geografias e histórias de vida.
- A realizadora Liliana Janeiro, inspirada pela figura histórica de Santa Isabel, e uma equipa maioritariamente feminina transformaram testemunhos recolhidos em campo num documento cultural e histórico de reverência genuína.
- O filme será exibido gratuitamente em oito localidades da Calheta até 9 de novembro, levando o reconhecimento diretamente às comunidades que o merecem e que raramente veem o seu trabalho celebrado desta forma.
Numa ilha atlântica onde o sagrado se prepara em silêncio, um documentário de doze minutos veio nomear o que sempre existiu sem nome: o trabalho das mulheres que sustentam, geração após geração, as festas do Divino Espírito Santo na Calheta, em São Jorge. 'Domingo a Domingo' não é apenas um registo de práticas — é um ato de reconhecimento de uma força feminina que atravessa séculos, desde a Rainha Santa Isabel até às mordomas de hoje. O filme lembra-nos que as grandes tradições raramente se perpetuam sozinhas; são mãos invisíveis que as carregam.
'Domingo a Domingo: As mulheres do Espírito Santo da Calheta' é uma curta-metragem de doze minutos que ilumina o labor invisível das mulheres que, ano após ano, garantem a continuidade das festas do Divino Espírito Santo em São Jorge, nos Açores. Da preparação das sopas tradicionais à coordenação das coroações, são elas — as mordomas e tantas outras — que tecem a estrutura inteira da celebração, numa dedicação que atravessa gerações.
O projeto nasceu de 'A Costela de Lilith', uma iniciativa artística em parceria com a associação 9'Circos, com realização de Liliana Janeiro e apoio do Governo dos Açores e da Câmara Municipal da Calheta. Durante os dez dias das festividades, a equipa recolheu testemunhos profundos e deu também voz a mulheres migrantes que reinterpretam a tradição a partir das suas próprias vivências, unindo geografias e experiências diversas em torno da espiritualidade e do sentimento de pertença.
Janete Chaves, produtora e intérprete, confessou ter descoberto, apesar de ser natural da ilha, um universo intrincado e bem organizado que nunca tinha visto de perto. Kukka Harvilahti, diretora de fotografia finlandesa, ficou marcada pela resiliência de mulheres que, com poucas horas de sono, ainda encontravam tempo e carinho para partilhar o que faziam. Liliana Janeiro resumiu o que viu: a força nasce da ação, e a ação nasce da dedicação.
O documentário será exibido gratuitamente em oito localidades da Calheta até 9 de novembro. É um gesto simples e profundo: aquilo que as mulheres da Calheta fazem há gerações tem agora um rosto, um nome e uma história documentada.
Numa ilha onde uma tradição centenária se perpetua através das mãos de mulheres cujo trabalho raramente é nomeado, um documentário de doze minutos agora traz à luz o que sempre esteve ali. A curta-metragem "Domingo a Domingo: As mulheres do Espírito Santo da Calheta" é um registo que honra o labor invisível das mulheres que, ano após ano, garantem a continuidade das celebrações do Divino Espírito Santo — uma das tradições mais profundas dos Açores. Desde a preparação das sopas tradicionais até à coordenação das coroações, estas mulheres tecem a estrutura inteira da festividade, um trabalho que atravessa gerações e que o filme agora documenta com seriedade e reverência.
O projeto nasceu de "A Costela de Lilith", uma iniciativa artística dedicada a celebrar a identidade e autoestima feminina através do teatro e da vida comunitária, em parceria com a associação cultural 9'Circos. A realização coube a Liliana Janeiro, a edição a Kukka Harvilahti, e a produção executiva a Sandra Silva, Joana Silva e Janete Chaves. O Governo dos Açores, as direções regionais das Comunidades e da Juventude, e a Câmara Municipal da Calheta apoiaram a produção. O que emergiu foi um documento cultural e histórico que não apenas registra práticas, mas eterniza o reconhecimento de uma força feminina que sustenta uma tradição enraizada na história de Portugal desde o século XIV, quando a Rainha Santa Isabel introduziu o culto ao Divino Espírito Santo na península.
A recolha de testemunhos foi intensa. Durante os dez dias das festividades, a equipa capturou a profundidade e dedicação das mulheres da Calheta ao longo de gerações. O filme dá voz também a mulheres migrantes, que reinterpretam a celebração a partir das suas próprias vivências, unindo geografias diferentes e experiências femininas diversas em torno da espiritualidade e do sentimento de pertença. Estas perspetivas alargam o significado da tradição, mostrando como ela transcende fronteiras e se reinventa nas mãos de quem a abraça.
Janete Chaves, produtora executiva e também intérprete, descreveu a experiência como reveladora e emocionante. Apesar de ser natural da ilha, confessou ter descoberto um universo intricado e bem organizado de tarefas ligadas ao resultado final — as sopas do Espírito Santo de São Jorge, servidas a centenas de pessoas. Sandra Silva destacou o orgulho de ver as mulheres assumirem papéis centrais nas festividades, realçando o imenso sentido de irmandade que caracteriza o concelho. Kukka Harvilahti, diretora de fotografia finlandesa, ficou impressionada com a força da comunidade e a resiliência das mulheres, que dedicaram tempo das suas vidas agitadas, dormindo apenas algumas horas por noite, e ainda assim encontraram tempo e carinho para mostrar o que estavam a fazer.
Liliana Janeiro, a realizadora, reflectiu sobre o que viu: a força vem da ação, e essa ação nasce da dedicação em torno de uma celebração. A sua inspiração veio da figura histórica de Santa Isabel, aquela que trouxe o culto para Portugal. O documentário será exibido gratuitamente em oito localidades da Calheta a partir de domingo até 9 de novembro, tornando este reconhecimento acessível a toda a comunidade. É um gesto simples mas profundo: aquilo que as mulheres da Calheta fazem, geração após geração, pelas mãos das mordomas, agora tem um rosto, um nome, uma história documentada. A tradição continua, mas desta vez, não invisível.
Citas Notables
Foi inspirador ver o labor das mulheres. Só posso pensar que a força vem da ação e, esta da dedicação em torno de uma celebração.— Liliana Janeiro, realizadora
Ficou impressionada com a força da comunidade e a resiliência das mulheres, que dedicaram tempo das suas vidas agitadas, dormindo apenas algumas horas por noite.— Kukka Harvilahti, diretora de fotografia