Em um momento em que a ciência busca superar os limites do tratável, duas universidades públicas brasileiras se unem a pesquisadores de quatro outros países num consórcio liderado pela Johns Hopkins para enfrentar um desafio que afeta 240 milhões de pessoas no mundo: a hepatite B crônica, doença sem cura conhecida. O projeto, que acompanhará 600 pacientes ao longo de anos, representa não apenas uma aposta científica, mas um compromisso coletivo com a dignidade de quem vive sob a sombra silenciosa de um vírus que pode levar ao câncer, à cirrose e à morte. O Brasil, com sua tradição de medicina
Brasil integra consórcio internacional em busca de cura para hepatite B
A hepatite B não tem cura, esse é o grande objetivo global
Por que um consórcio internacional? Não seria mais simples cada país pesquisar sozinho?
A hepatite B se comporta diferentemente em populações distintas. Observar 600 pacientes em cinco países permite identificar padrões que talvez não aparecessem em um único lugar. Além disso, compartilhar dados e metodologia acelera a descoberta.
Mas 600 pacientes em cinco países significa 120 por país. Isso é suficiente para tirar conclusões robustas sobre genética e progressão viral?
É um começo. O estudo dura cinco anos, então há tempo para aprofundar. E a equipe de Reuter está focando em 75 pacientes brasileiros especificamente, o que permite análise mais detalhada.
Qual é a diferença entre encontrar um "alvo" para medicamento e realmente desenvolver um remédio?
Encontrar o alvo é identificar qual parte do vírus ou qual resposta imunológica poderia ser bloqueada ou estimulada. Depois vem o desenvolvimento do fármaco, testes clínicos — isso leva anos. Mas sem o alvo, não há nada para trabalhar.
Eles já têm 40 pacientes em julho. Precisam de 75 até o final do ano. Isso é realista?
Reuter disse que o prazo é até meados de 2027, então há margem. Mas sim, o recrutamento é sempre um desafio em pesquisas clínicas.
Se a vacina já reduz infecções em 32% globalmente, por que ainda há 240 milhões de pessoas infectadas?
Porque a vacina previne, mas não cura. Quem já foi infectado antes da vacinação ou de forma acidental continua vivendo com o vírus. E nem todos têm acesso à vacina ainda.
O artigo menciona que o estudo foi suspenso em 2024. Não fica claro por quê. Isso importa para entender se há riscos de interrupção novamente?
É uma boa pergunta. A suspensão poderia ter sido por falta de financiamento, questões administrativas, ou algo relacionado à pandemia. Sem saber, é difícil avaliar a estabilidade do projeto.
El Pulso
- A hepatite B crônica não tem cura e afeta 240 milhões de pessoas globalmente, tornando a pesquisa uma corrida contra um inimigo silencioso que destrói fígados e encurta vidas.
- O consórcio internacional enfrenta a complexidade de um vírus que se comporta de forma diferente em cada organismo, exigindo análise celular profunda em pacientes de Brasil, Índia, Senegal e Uganda.
- O recrutamento de pacientes no Brasil começou em julho de 2026 com meta de 75 participantes — 40 já estão inscritos — e o estudo deve durar cinco anos, com prazo apertado alinhado à meta global de 2030.
- Pesquisadores buscam identificar marcadores genéticos protetores e subpartículas virais que possam abrir caminho para novos fármacos, incluindo imunoestimuladores e imunomoduladores ainda inexistentes no arsenal médico.
- Enquanto a cura não chega, a vacina disponível gratuitamente no SUS segue como a única proteção eficaz — e a cobertura vacinal infantil global de 84% já reduziu infecções em 32% desde 2015.
Em um momento em que a ciência busca superar os limites do tratável, duas universidades públicas brasileiras se unem a pesquisadores de quatro outros países num consórcio liderado pela Johns Hopkins para enfrentar um desafio que afeta 240 milhões de pessoas no mundo: a hepatite B crônica, doença sem cura conhecida. O projeto, que acompanhará 600 pacientes ao longo de anos, representa não apenas uma aposta científica, mas um compromisso coletivo com a dignidade de quem vive sob a sombra silenciosa de um vírus que pode levar ao câncer, à cirrose e à morte. O Brasil, com sua tradição de medicina pública e diversidade genética, ocupa um lugar central nessa busca — e o prazo não é abstrato: a OMS quer eliminar a hepatite B como problema de saúde pública até 2030.
Duas universidades públicas brasileiras — o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da UFES e a USP — integraram um consórcio internacional liderado pela Faculdade de Medicina da Johns Hopkins na busca por algo que a medicina ainda não alcançou: a cura da hepatite B. O projeto reúne pesquisadores do Brasil, Estados Unidos, Índia, Senegal e Uganda, e começou a operar no país em 2026 após uma interrupção em 2024.
O estudo acompanhará 600 pacientes com hepatite B crônica — 150 por país — durante aproximadamente quatro anos e meio cada. No Brasil, a pesquisadora Tânia Reuter lidera a equipe responsável por 75 participantes, dos quais 40 já foram recrutados desde julho de 2026. A meta é completar o grupo até o final do ano. "A hepatite B não tem cura, esse é o grande objetivo global", afirma Reuter, que busca identificar alvos terapêuticos capazes de orientar novos tratamentos.
No centro da investigação está uma pergunta fundamental: por que o vírus evolui de maneira tão diferente em cada pessoa? Os pesquisadores analisarão em nível celular as respostas imunológicas dos pacientes, incluindo coinfectados por HIV, e tentarão mapear características genéticas protetoras e subpartículas virais que possam indicar possibilidade de cura. Os achados podem abrir caminho para imunoestimuladores, imunomoduladores e outras classes de medicamentos ainda inexistentes.
A urgência é concreta: globalmente, cerca de 240 milhões de pessoas vivem com infecção crônica por hepatite B, e no Brasil foram registrados 276,6 mil casos confirmados entre 2000 e 2022. O vírus é um dos principais causadores de cirrose e câncer hepático — e é 100 vezes mais contagioso que o HIV. Enquanto a pesquisa avança, a prevenção permanece a ferramenta mais eficaz: a vacina está disponível gratuitamente no SUS para todas as idades, e a cobertura infantil global de 84% já contribuiu para uma redução de 32% nas infecções por hepatites virais desde 2015. O consórcio agora aposta em ir além — e curar quem já foi infectado.
Duas universidades públicas brasileiras entraram em um consórcio internacional que reúne pesquisadores de cinco países na tentativa de encontrar uma cura para a hepatite B — uma doença que, até agora, não tem solução definitiva. O Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo e a Universidade de São Paulo se juntaram a instituições dos Estados Unidos, Índia, Senegal e Uganda, sob a liderança da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins.
O projeto começou em 2023, foi interrompido em 2024 e retomou as atividades no ano seguinte. No Brasil, a pesquisa iniciou em 2026 e deve durar aproximadamente cinco anos. O trabalho combina investigação científica fundamental com prática clínica, observando em nível celular como o vírus se comporta em pacientes de diferentes regiões e como seus sistemas imunológicos respondem à infecção. O estudo também incluirá pessoas que vivem com hepatite B e HIV simultaneamente.
A pesquisadora Tânia Reuter, professora do hospital capixaba e referência no tema, deixa clara a urgência da missão. "A hepatite B não tem cura, esse é o grande objetivo global", afirma. O primeiro passo é eliminar a hepatite B como um problema de saúde pública até 2030 — uma meta alinhada com os objetivos da Organização Mundial da Saúde. Para isso, os pesquisadores acompanharão 600 pacientes com hepatite B crônica durante aproximadamente quatro anos e meio cada. Serão 150 pacientes por país, com a equipe de Reuter responsável por analisar 75 deles.
O objetivo central é desvendar por que o vírus evolui de forma diferente em cada pessoa. Os pesquisadores buscam identificar quais características genéticas protegem alguns indivíduos de uma progressão mais rápida da doença e quais subpartículas virais podem servir como indicadores de possível cura ou resposta ao tratamento. "Eu quero descobrir alvos que possam auxiliar no manejo para cura da hepatite B", explica Reuter. Os achados podem abrir caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos — imunoestimuladores, imunomoduladores e outras classes de fármacos.
O recrutamento de pacientes começou em julho de 2026. Até o momento, Reuter conta com 40 participantes e pretende completar o grupo de 75 até o final do ano, com prazo final para meados de 2027. A urgência reflete a gravidade da doença: o vírus da hepatite B é um dos principais causadores de câncer hepático e cirrose, condições que podem levar à morte.
Globalmente, cerca de 240 milhões de pessoas vivem com infecção crônica por hepatite B, conforme dados de 2024 da OMS. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 276,6 mil casos confirmados entre 2000 e 2022. O vírus é transmitido por via sexual, contato com sangue contaminado e também de mãe para filho durante a gravidez ou parto. Segundo a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, o vírus tipo B é 100 vezes mais contagioso que o HIV.
A prevenção segue sendo a ferramenta mais eficaz disponível atualmente. A vacina está disponível no Sistema Único de Saúde para todas as pessoas não vacinadas, independentemente da idade. Crianças recebem quatro doses — ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses — enquanto adultos completam o esquema com três doses. Outras medidas incluem o uso de preservativo em todas as relações sexuais e não compartilhar objetos perfurocortantes. A cobertura vacinal infantil global atingiu 84% em 2024, contribuindo para uma redução de 32% nas infecções por hepatites virais desde 2015. Agora, o consórcio internacional busca ir além da prevenção e encontrar o que a medicina ainda não conseguiu: uma forma de curar quem já foi infectado.
Citas Notables
A hepatite B não tem cura, esse é o grande objetivo global— Tânia Reuter, professora do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes
Eu quero descobrir alvos que possam auxiliar no manejo para cura da hepatite B— Tânia Reuter