Biópsia líquida que detecta 50+ cânceres chega ao Brasil por R$ 6.990

Seis em cada dez positivos tiveram câncer confirmado, mas a maioria dos cânceres escapou à detecção
O teste Galleri mostrou precisão quando positivo, mas sensibilidade limitada no estudo PATHFINDER 2.
Mark

Por que um teste que não reduz câncer em estágio avançado está sendo comercializado agora?

Mimi

O teste tem valor diagnóstico real — 60% de precisão quando positivo é significativo. Mas há uma diferença entre ter um teste bom e ter um teste que muda desfechos. O PATHFINDER 2 mostra que o teste funciona; o NHS-Galleri mostra que usar o teste anualmente não previne cânceres avançados.

Luke

Espera. O NHS-Galleri foi um ensaio randomizado com 142 mil pessoas. Isso é grande demais para ignorar. Se rastreamento anual não reduz estágio III ou IV, qual é exatamente o benefício que estamos oferecendo por R$ 6.990?

Mimi

O benefício pode estar em cânceres detectados mais cedo dentro de um estágio, ou em tipos específicos não capturados naquele ensaio. Mas você tem razão — o dado de mortalidade ainda não existe.

Mark

E quanto aos falsos positivos? 0,36% parece baixo.

Luke

É baixo em termos de taxa, mas 0,36% de 142 mil pessoas são 511 pessoas recebendo más notícias desnecessárias. E 73% delas vão fazer procedimentos invasivos para confirmar que não têm câncer.

Mimi

Por isso o Einstein criou o protocolo com orientação médica antes e depois. Eles reconhecem que um resultado positivo gera ansiedade e investigações.

Mark

Então o teste é honesto sobre suas limitações?

Mimi

O fabricante é claro: não é recomendação de rastreamento populacional, não há benefício demonstrado em mortalidade. Mas a comercialização acontece mesmo assim.

Luke

Porque há um mercado. Pessoas com medo de câncer pagarão R$ 6.990 por uma chance, mesmo que a chance não tenha sido provada reduzir morte.

Mark

O que o Einstein espera aprender com dados brasileiros?

Mimi

Como o teste funciona em uma população diferente, com diferentes prevalências de câncer e acesso a investigação diagnóstica. Pode haver aprendizado real ali.

  • O teste Galleri chega ao Brasil com promessa ambiciosa: detectar mais de 50 tipos de câncer por uma simples amostra de sangue, antes que qualquer sintoma apareça.
  • O preço de R$ 6.990, a ausência de cobertura por planos de saúde e a exigência de prescrição médica restringem o acesso a uma parcela pequena da população.
  • O maior ensaio clínico já realizado com o teste — 142 mil participantes na Inglaterra — não encontrou redução significativa de cânceres em estágio avançado com rastreamento anual, abalando a promessa central da tecnologia.
  • A sensibilidade de apenas 39,3% significa que a maioria dos cânceres ainda escapa ao exame, e um resultado negativo não garante ausência da doença.
  • O Hospital Einstein criou um protocolo com acompanhamento médico antes e depois do teste, apostando em gerar dados brasileiros que possam esclarecer o real valor clínico da ferramenta.

Uma tecnologia que promete enxergar o invisível — sinais de mais de 50 tipos de câncer circulando no sangue — chegou ao Brasil, trazendo consigo tanto a esperança da detecção precoce quanto o peso das incertezas científicas ainda não resolvidas. O teste Galleri, oferecido pelo Hospital Albert Einstein a quase sete mil reais, representa um avanço genuíno na medicina de precisão, mas os maiores estudos clínicos realizados até agora não conseguiram demonstrar que seu uso reduz mortes por câncer. É o momento em que a inovação corre mais rápido do que as evidências — e a sabedoria está em reconhecer essa distância.

Um exame de sangue capaz de rastrear mais de 50 tipos de câncer chegou ao Brasil esta semana pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em parceria com o Fleury. O teste Galleri, desenvolvido pela empresa americana GRAIL, custa R$ 6.990, não é coberto por planos de saúde e exige prescrição médica. Seu apelo está em identificar tumores de difícil detecção precoce — como os de pâncreas, fígado e ovário — antes que sintomas apareçam.

O exame é indicado para adultos sem sintomas com risco elevado de câncer, especialmente acima dos 50 anos, e não é recomendado durante a gravidez ou em tratamento oncológico ativo. Essa indicação, porém, não equivale a uma recomendação de rastreamento em massa — e não há, até agora, evidência de que o teste reduza mortalidade por câncer.

Os dados do estudo PATHFINDER 2, com quase 36 mil participantes nos Estados Unidos e Canadá, mostram um valor preditivo positivo de 60,3%: quando o exame aponta câncer, a doença é confirmada em seis de cada dez casos. A especificidade é alta — 99,64% —, mantendo os falsos positivos em apenas 0,36%. O problema está na sensibilidade: apenas 39,3%, o que significa que a maioria dos cânceres ainda escapa à detecção. Um resultado negativo, portanto, não exclui a doença.

O golpe mais contundente às expectativas veio do ensaio clínico NHS-Galleri, realizado na Inglaterra com 142.250 participantes entre 50 e 77 anos. O estudo randomizado avaliou se o rastreamento anual reduziria a incidência de cânceres em estágio avançado — e a resposta foi não. Não houve diferença significativa entre quem fez o teste e o grupo controle para cânceres em estágio III ou IV. O impacto sobre a mortalidade sequer foi avaliado.

Quando o resultado é positivo, ele não confirma câncer: orienta investigações adicionais direcionadas ao órgão suspeito. No PATHFINDER 2, apenas 0,6% dos participantes chegaram a procedimentos invasivos após um positivo. O Hospital Einstein, ciente dessas limitações, criou um protocolo com orientação médica antes do exame e consulta de retorno após o resultado, com o objetivo de gerar dados sobre a efetividade da tecnologia na população brasileira — uma lacuna que o mundo científico ainda não preencheu.

Um exame de sangue que promete rastrear mais de 50 tipos de câncer chegou ao Brasil esta semana, oferecido pelo Hospital Israelita Albert Einstein através de sua parceria com o Fleury. O teste, chamado Galleri e desenvolvido pela empresa americana GRAIL, custa R$ 6.990 e busca identificar sinais de tumores no sangue — inclusive cânceres de pâncreas, fígado e ovário — sem depender dos programas de rastreamento convencionais. O exame requer prescrição médica e não é coberto por planos de saúde.

O teste foi desenhado para adultos sem sintomas que apresentem risco elevado de câncer, particularmente pessoas acima de 50 anos. Não é recomendado durante a gravidez ou enquanto o paciente recebe tratamento oncológico ativo. Importante ressaltar: essa indicação de uso não equivale a uma recomendação de rastreamento em massa, e até agora não há evidência de que o teste reduza mortalidade por câncer.

Os dados mais recentes vêm do estudo PATHFINDER 2, que acompanhou 35.878 adultos sem suspeita prévia de câncer nos Estados Unidos e Canadá durante 12 meses. O teste apresentou um valor preditivo positivo de 60,3% — ou seja, quando o exame indicava câncer, a doença era confirmada em seis de cada dez casos. A especificidade foi de 99,64%, mantendo os falsos positivos em apenas 0,36%. Porém, a sensibilidade do episódio ficou em 39,3%, significando que a maioria dos cânceres ainda escapou à detecção. O teste acertou a localização do tumor em 91,3% dos casos, informação que orientou as investigações subsequentes.

Mas o resultado mais preocupante veio de um ensaio clínico muito maior, o NHS-Galleri, que envolveu 142.250 participantes entre 50 e 77 anos na Inglaterra. Esse estudo randomizado avaliou se o rastreamento anual com a biópsia líquida reduziria a incidência de cânceres em estágio avançado. A resposta foi não: não houve diferença significativa entre o grupo que fez o teste e o grupo controle para cânceres em estágio III ou IV em 12 tipos diferentes. Embora o câncer em estágio IV tenha mostrado uma redução numérica, esse foi um resultado secundário sem teste estatístico formal. O impacto sobre a mortalidade ainda não foi avaliado.

Quando o teste dá positivo, o resultado não confirma câncer — apenas orienta exames adicionais direcionados ao órgão suspeito, como uma colangiorressonância se o pâncreas for indicado. No PATHFINDER 2, apenas 0,6% dos participantes foram submetidos a procedimentos invasivos após um resultado positivo. Entre aqueles que tiveram resultado positivo e realizaram investigação diagnóstica, porém, 73,4% passaram por esses procedimentos. Um resultado negativo, por sua vez, não exclui a doença, pois a liberação de DNA tumoral varia conforme o tipo e o estágio do câncer. Por isso, os programas de rastreamento recomendados devem continuar.

O Hospital Israelita Albert Einstein desenvolveu um protocolo que inclui orientação médica antes do teste e uma consulta de retorno após o resultado. A instituição pretende gerar dados próprios sobre a efetividade da detecção precoce multicâncer por biópsia líquida na população brasileira, preenchendo uma lacuna importante na compreensão de como essa tecnologia funciona fora dos contextos de pesquisa clínica controlada.

Essa indicação de uso não equivale a uma recomendação de rastreamento populacional, e ainda não há benefício demonstrado sobre a mortalidade
— Fabricante GRAIL / Hospital Israelita Albert Einstein
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