No limiar entre proteção social e dependência fiscal, o presidente Lula sinalizou uma possível medida drástica contra as plataformas de apostas online, comparando o vício em jogos ao crack e evocando o sofrimento de apostadores endividados. O gesto revela uma tensão profunda no coração do Estado: o mesmo governo que deseja restringir o setor conta com R$ 6,69 bilhões em arrecadação das bets para equilibrar suas contas em 2027. Entre decretos possíveis, empregos ameaçados e a incerteza do Congresso, o Brasil enfrenta uma questão que vai além da regulação — trata-se de decidir que tipo de liberd
Bets temem medida drástica de Lula que pode inviabilizar o setor
As pessoas estão vendendo o que não têm, se endividando
Por que Lula está tão preocupado com as bets agora? Parece uma mudança de posição.
Ele comparou o vício em apostas ao crack, dizendo que as pessoas vendem seus pertences para continuar jogando. É uma questão de saúde pública que ganhou visibilidade.
Mas o governo aprovou essas leis entre 2018 e 2023. Qual era a intenção naquela época?
A intenção era regular um mercado que já existia de forma clandestina e gerar receita. Agora o governo vê os danos sociais e quer reverter.
E quanto aos empregos? Quantas pessoas trabalham nisso?
Cerca de 10 mil trabalhadoras diretas, segundo a associação do setor. Mais 10 milhões de mulheres apostadoras registradas.
Espera — 10 milhões de mulheres apostadoras? Isso é um número que a associação das bets forneceu, certo? Não há verificação independente disso?
Correto. É o número que o setor apresenta. Os dados públicos sobre quantos apostadores existem realmente não são tão claros.
E se o governo proibir os cassinos online, qual é o impacto financeiro?
Setenta por cento da receita das bets vem desses jogos. Seria devastador para as empresas.
Mas também há mais de 100 processos sancionadores contra sites legalizados. Então não é como se o setor fosse vítima inocente.
Não. As bets autorizadas também cometeram malfeitos. Elas culpam os sites clandestinos, mas a realidade é mais complexa.
E o governo consegue fazer isso sozinho, ou precisa do Congresso?
Pode tentar um decreto ou medida provisória para vetar publicidade ou proibir certos jogos. Mas para reverter as leis que liberaram as apostas, precisa do Congresso.
Então há espaço para judicialização, como as bets estão dizendo?
Sim. As empresas adquiriram outorgas sob certos termos e podem contestar na Justiça.
Le Pouls
- Lula comparou publicamente o vício em apostas ao crack, sinalizando disposição pessoal para proibir os cassinos online e gerando alarme imediato em todo o setor.
- Cerca de 70% do faturamento das bets vêm dos cassinos eletrônicos como o tigrinho e o Aviator — exatamente os produtos que um decreto ou medida provisória poderia eliminar.
- Aproximadamente 10 mil trabalhadoras do setor e mais de 10 milhões de mulheres apostadoras registradas estão na linha de impacto direto de qualquer restrição severa.
- O governo realizou três reuniões reservadas sobre o tema, mas nenhuma decisão foi formalizada — e o setor já cogita judicialização, alegando que adquiriu outorgas sob outros termos.
- A dependência orçamentária é o nó central: a Fazenda projeta R$ 6,69 bilhões em receitas das bets em 2027, tornando qualquer proibição ampla uma contradição fiscal de alto risco.
No limiar entre proteção social e dependência fiscal, o presidente Lula sinalizou uma possível medida drástica contra as plataformas de apostas online, comparando o vício em jogos ao crack e evocando o sofrimento de apostadores endividados. O gesto revela uma tensão profunda no coração do Estado: o mesmo governo que deseja restringir o setor conta com R$ 6,69 bilhões em arrecadação das bets para equilibrar suas contas em 2027. Entre decretos possíveis, empregos ameaçados e a incerteza do Congresso, o Brasil enfrenta uma questão que vai além da regulação — trata-se de decidir que tipo de liberdade uma sociedade está disposta a proteger.
No início de setembro, o presidente Lula sinalizou publicamente sua intenção de agir com força contra as plataformas de apostas online. Em entrevista ao podcast Desce a Letra Show, ele comparou o vício em jogos ao crack, descrevendo apostadores que vendem pertences e se endividam para continuar jogando. A declaração de que teria "disposição pessoal" para acabar com o jogo no país foi suficiente para acender o alerta em todo o setor.
O governo já realizou três reuniões com membros da Presidência, Casa Civil, Fazenda e Ministério da Justiça para discutir possíveis restrições. A medida poderia vir na forma de decreto ou medida provisória, vetando propaganda de jogos ou proibindo diretamente os cassinos online — como o tigrinho e o Aviator. Nenhuma decisão foi formalizada, mas interlocutores esperam uma ação de alto impacto.
O setor teme especialmente a proibição dos cassinos eletrônicos, responsáveis por cerca de 70% do faturamento das bets. A Associação das Mulheres da Indústria do Gaming alertou que a medida afetaria diretamente 10 mil trabalhadoras e mais de 10 milhões de mulheres apostadoras registradas. Executivos do setor falam em judicialização, argumentando que adquiriram outorgas sob outros termos e que uma proibição seria eleitoreira.
No Congresso, avança um projeto de lei que classificaria os cassinos online como "produtos de alto risco" e proibiria o patrocínio de bets a clubes, competições esportivas, eventos culturais e influenciadores digitais. O texto tem apoio de senadores do PL, PT e PSD — uma coalizão incomum que revela a amplitude do desconforto político com o setor.
As entidades representativas das bets rejeitam sua exclusão das discussões e argumentam que a proibição da publicidade as enfraqueceria frente a sites clandestinos, que não empregam, não pagam impostos e não adotam políticas de proteção ao jogador. Ainda assim, mais de 100 processos sancionadores contra sites legalizados mostram que os permissionários também acumulam infrações.
O nó central permanece fiscal: a Fazenda estima arrecadar R$ 6,69 bilhões com as bets em 2027. Essa dependência orçamentária coloca o governo diante de uma contradição difícil de resolver — e qualquer reversão das leis que liberaram as apostas entre 2018 e 2023 exigirá o apoio de um Congresso cujo caminho está longe de ser certo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou no início de setembro sua intenção de tomar uma medida drástica contra as plataformas de apostas online, conhecidas como bets. Em entrevista ao podcast Desce a Letra Show na quarta-feira 16, ele comparou o vício em jogos ao crack, descrevendo apostadores que vendem seus pertences e se endividam para continuar jogando. Lula afirmou ter "disposição pessoal" para acabar com o jogo no país, uma declaração que gerou preocupação imediata no setor.
O governo já realizou três reuniões envolvendo membros da Presidência, Casa Civil, Fazenda e Ministério da Justiça para discutir possíveis restrições. Segundo representantes das bets, a medida pode tomar a forma de um decreto ou medida provisória que vete a propaganda de jogos de azar ou até proíba os cassinos online, como o jogo do tigrinho e o Aviator. Esses produtos são regulados por portaria da Secretaria de Prêmios e Apostas e poderiam ser revistos pelo governo em cenários difíceis de reverter na Justiça. Membros do governo presentes nos encontros dizem que nada foi definido e não há prazo para publicação da medida, mas interlocutores esperam uma ação de alto impacto.
O setor teme especialmente a proibição dos cassinos online porque cerca de 70% do faturamento das bets vêm desses jogos eletrônicos. A Associação das Mulheres da Indústria do Gaming, que representa profissionais do setor, trabalha com o cenário de um veto às apostas e alertou que a medida afetaria diretamente cerca de 10 mil trabalhadoras e mais de 10 milhões de mulheres apostadoras registradas no mercado regulado. Executivos do setor, falando sob condição de anonimato, mencionam a possibilidade de judicialização, argumentando que adquiriram outorgas sob outros termos e que uma proibição seria eleitoreira.
No dia 1º de setembro, Lula recebeu representantes de um movimento chamado Brasil Contra as Bets que apresentaram um projeto de lei proibindo o tigrinho e a propaganda de bets em eventos esportivos e redes sociais. O texto avança nas comissões do Senado com apoio de senadores do PL, PT e PSD. A proposta classificaria os cassinos online como "produtos de alto risco" e vedaria o patrocínio de bets a clubes, competições, transmissões esportivas, eventos culturais e influenciadores digitais. Também proibiria publicidade tradicional e campanhas com influenciadores, embora permitisse comunicação institucional nas próprias plataformas e campanhas por email aos clientes cadastrados, desde que sem promessas de lucro ou bônus.
As entidades que representam as bets rejeitaram sua exclusão das discussões. A ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) repudiou a falta de participação do setor, enquanto o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) pediu uma análise cuidadosa dos dados disponíveis. Ambas argumentam que houve confusão entre fatos anteriores à regulação, quando os sites operavam sem regras, e a situação atual.
As bets argumentam que a proibição da publicidade as prejudicaria na competição com sites clandestinos, que não empregam pessoas no Brasil, não arrecadam impostos e não adotam políticas de segurança para o jogador. Embora as empresas autorizadas culpem as plataformas ilegais por parte significativa do dano social, mais de 100 processos sancionadores contra sites legalizados mostram que os permissionários também cometeram malfeitos. Desde junho, as bets mantêm reuniões com a Secretaria de Prêmios e Apostas, propondo regulamentação dos distribuidores de jogo online, maior supervisão de afiliados nas redes sociais e melhorias nas práticas para excluir jogadores dependentes.
O governo, porém, ainda conta com as bets para fechar as contas em 2027. A Fazenda estima arrecadar R$ 6,69 bilhões em taxas e participação da União na receita do jogo, sem contar a tributação sobre as empresas, e já há indicação de receita com imposto seletivo sobre jogo de azar. Essa dependência orçamentária cria uma tensão clara: o presidente quer restringir um setor que considera prejudicial à sociedade, mas o governo depende de sua arrecadação. Para qualquer medida que reverta as leis que liberaram as apostas online entre 2018 e 2023, o Palácio do Planalto precisará do apoio do Congresso, o que torna o caminho legislativo incerto.
Citations marquantes
Você lembra quando surgiu o crack? O cara viciado, ele chegava em casa, vendia o botijão. As bets estão assim. As pessoas estão vendendo o que não têm, se endividando.— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao podcast Desce a Letra Show